Produzir onde a terra não é fértil e a água escasseia

PorJorge Montezinho,30 set 2023 8:21

Não é fácil ser agricultor em Cabo Verde. Os factores geoclimáticos influenciam e determinam um conjunto de problemas históricos e recorrentes. A cobertura vegetal das ilhas sofreu uma deterioração acelerada devido aos cinco séculos de sobre-exploração agrícola e pecuária, o que resultou em processos de erosão que originaram, na expressão da investigadora Marina Temudo, um processo de “emagrecimento da terra”, referindo-se neste caso particular à ilha de Santiago. Mas para além de uma agricultura familiar e de sobrevivência, emergem ínsulas de produção mais sofisticada e rentável, uma delas, numa das ilhas onde menos se esperaria: o Sal. É o caso da Milot Hydroponics, nome composto, na primeira parte, por uma homenagem ao pai – Milot era o nominho do progenitor de Emílio Lobo, o responsável pela empresa – e na segunda, como se percebe, por uma das técnicas usadas na produção – a hidroponia.

“Começou tudo há mais de 20 anos”, conta ao Expresso das Ilhas Emílio Lobo. “Resolvi procurar algo para trabalhar por conta própria. Tinha tido algum contacto – através de revistas – com a hidroponia e isso pareceu-me uma tecnologia interessante para ser empregue no Sal, ilha onde a agricultura é escassa e difícil porque os terrenos não são férteis. Então apostei”, diz.

O começo, “tímido”, foi feito com 4 mil metros quadrados, área que foi aumentando até chegar aos 3 hectares. Entretanto, pelo caminho houve vários tropeções, como uma praga que foi introduzida em Cabo Verde que deu cabo de toda a produção de tomate, que foi a pioneira. “Produzia 300 toneladas de tomate por ano e aquilo foi um baque que quase nos levou à bancarrota. Como sou teimoso e resiliente não desisti”, sublinha Emílio Lobo.

Quando a produção de tomate foi destruída, a empresa mudou e começou a produzir alface e continuou a aumentar a produção de folhosas. E tudo corria normalmente até que veio a pandemia. “Nessa altura só tinha um produto – a alface, produzia uns 20 mil 30 mil pés de alface por mês. De um dia para o outro fiquei com 50% da minha produção sem mercado – porque os hotéis fecharam. Então resolvi diversificar. Nos locais onde já não produzia alface comecei a produzir outras folhosas: coentros, salsa, manjericão, fomos ampliando, criando mais espaços para produção e neste momento tenho 13 produtos no mercado e esses produtos novos representam cerca de 30% do total da produção. Foi ai que fomos conseguindo aguentar até à retoma. Ou seja, saí mais forte depois da pandemia”.

Neste momento, a empresa está, inclusive, numa fase de ampliação, onde vai apostar na produção de frutíferas: 1 hectare já tem plantações de manga, limão e abacate e cultura consorciada com papaia. E está já a ser preparado terreno para a plantação de banana e para produção de uma horta orgânica. “Neste momento tenho 18 mil metros quadrados de produção e dentro de 2 a 3 anos terei praticamente o dobro”, refere Emílio Lobo. As folhosas são produzidas através da hidropomia, as fruteiras no solo e com rega gota-a-gota.

Agricultura em Cabo Verde

A população rural representa 35,7% da população total (Recenseamento Geral Agrícola-RGA, 2015). A área arável é de 10 por cento do país, concentrada principalmente nas ilhas de tradição agrária: Santiago, Santo Antão, Fogo e São Nicolau. 52,3% de toda a terra arável está em Santiago, seguida da ilha de Santo Antão com 21,4 %, da ilha do Fogo com 14,4% e da ilha de São Nicolau com 4,9%.

A actividade agrícola é a base económica da maioria das ilhas de Cabo Verde, onde a maior parte da população vive de subsistência marcada pela agricultura de baixo rendimento, o que contribui, em grande medida, para a fraca capacidade de acumulação de rendimentos e investimentos no sector e consequente redução da pobreza.

Os pequenos agricultores são responsáveis por 89% das propriedades agrícolas e 90% da agropecuária desenvolvida nas parcelas tradicionais. O país continua confrontado com problemas macroeconómicos decorrentes da sua insularidade, e por um conjunto de constrangimentos e fragilidades decorrentes da sua pequena economia, aberta ao exterior: escassez de chuvas e secas prolongadas; recursos naturais e matérias-primas limitados; insularidade e reduzida dimensão territorial; forte ritmo de crescimento demográfico; baixo nível de conhecimento tecnológico; recursos de capital baixo; elevados custos dos factores de produção; e uma produção agrícola insuficiente para responder às necessidades de alimentação da sua população, cobrindo a produção nacional apenas 10-15% das necessidades alimentares, obrigando a que o restante seja importado.

Cabo Verde era, em 2015 – data dos últimos dados recolhidos –, constituído por 45.399 explorações agrícolas, das quais 33.309 em regime de sequeiro e 8.580 em regime de regadio. A superfície total das unidades de exploração é de 36.456 hectares, dos quais 31.692 hectares são dedicados ao sequeiro e 3.913 hectares são dedicados ao regadio.

O valor acrescentado pelo sector agrícola como no PIB cabo-verdiano, dados do Banco Mundial de 1980 a 2022, tem um valor médio durante esse período de 10.03%, com o mínimo de 3.69% em 2022 e o máximo de 18.56% em 1980. Nos últimos anos, a variação desta percentagem foi: 2015 – 6,41%, 2016 – 6,31%, 2017 – 5,38%, 2018 – 4,52%, 2019 – 3,83%, 2020 – 4,70%, 2021 – 4,53%, 2022 – 3,69%, números também do Banco Mundial.

“Há mais de 20 anos, quando disse que ia fazer uma unidade de produção agrícola, o pessoal amigo e a família perguntaram se estava louco (risos), mas provei que é possível fazer”, afirma Emílio Lobo, da Milot Hydroponics.

Os desafios do agronegócio

A agricultura em Cabo Verde tem inúmeros factores que a limitam. Desde logo, a falta de recursos hídricos, caracterizada por padrões erráticos e imprevisíveis de precipitação, a falta de solos aráveis, a insularidade e a orografia das ilhas. Aliás, já em 1780, o capitão de infantaria e engenheiro António Carlos Andréis, autor do primeiro documento sistemático sobre a agricultura no arquipélago, escreveu, pela primeira vez, sobre a relevância dos factores climáticos. Andréis considerou que o factor climático determinante era a precipitação, e referiu os baixos valores absolutos, a irregular distribuição no tempo e no espaço, a concentração num curto período do ano ou mesmo a total ausência por períodos muito alargados. Em cerca de treze anos de permanência em Cabo Verde, Andréis afirmou só haver observado um ano com uma estação de chuvas regular e traçou assim o primeiro quadro da paisagem agrícola cabo-verdiana, já nessa época um regime agrário de alto risco e de elevada vulnerabilidade alimentar.

“Ter acesso a água é um dos principais problemas”, reconhece Emílio Lobo. “Neste momento, utilizo água da Electra e na parte do pomar estou a utilizar a água fornecida pela APP [Águas de Ponta Preta], uma aposta que a empresa fez para fornecer água apropriada para produção agrícola. E fazem um preço muito mais barato do que a Electra. A Electra cobra à volta de 500$00 por tonelada, uma exorbitância, que acaba por encarecer o produto final e quem paga é o consumidor. A APP faz um preço de menos de metade”.

A água não é o único factor de produção com preço alto, todos os outros também são elevados, desde os adubos aos recipientes para transportar os produtos, praticamente tudo tem de ser importado. “Houve empresas locais a fazer as caixas de papelão, mas vendem pelo dobro do que pago para mandar vir das Canárias ou de Portugal. A produção local tem preços exorbitantes, assim não dá”, lamenta Emílio Lobo.

Qualquer investigação tem de ser feita por conta própria. “Esta empresa é formada por mim e pela minha irmã, que é agrónoma. Ela é que se ocupa da parte técnica e tudo o que fazemos e implementamos aqui é por nossa conta, investigação, consultas, pesquisas, é tudo por nossa conta, não temos acesso a nenhuma outra instituição. Nós temos dificuldade em mandar fazer uma mera análise de água ou de solo. Houve, no tempo da minha irmã, um laboratório bem montado, mas era um daqueles laboratórios feitos por um projecto qualquer, o projecto acabou, o laboratório deixou de funcionar. Mesmo se formos fazer uma cultura nova, não há nada que se possa consultar, ou um técnico com experiência na matéria. Ainda bem que há internet (risos)”.

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Neste momento, há uma parceria com a TUI Care Foudation, um projecto financiado a fundo perdido. “Tivemos a sorte de ter acesso a essa verba”. São 3 anos de financiamento, mentoria e escoamento de parte da produção para hotéis, e a Milot está ainda a dar formação a agricultores na área da hidroponia. “Temos de formar 12 agricultores, são 3 a cada 3 meses”, explica Emílio Lobo, que chama a atenção para a necessidade de haver políticas para fortalecer o agronegócio e impulsionar a competitividade do sector.

“Um dos principais entraves é o acesso ao crédito”, explica. “Dou-lhe a Milot como exemplo, quando quis iniciar, apresentei o projecto aos bancos e nenhum me financiou, disseram-me claramente que era um negócio de alto risco e que os bancos não estavam para isso. Para começar, tive de ter acesso a um crédito de uma pessoa conhecida, um empréstimo particular. E acho que ainda continua assim. Se não aparecerem instituições financeiras viradas para este tipo de negócio, vai continuar a ser a principal dificuldade. Sem dinheiro não se consegue fazer nada”.

A agricultura e a política

O PEDS II [Plano Estratégico de Desenvolvimento Sustentável 2022-2026] fala na transformação da agricultura. Embora reconheça que o país é dependente da importação de produtos de base (cereais, açúcar, óleos alimentares, leite e alguns derivados), face às suas particularidades agro-ecológicas, segundo o documento, a agricultura apresenta algum potencial para o desenvolvimento da fruticultura, da horticultura, da pecuária, designadamente, animais de ciclo curto, e da agro-indústria, contribuindo, em parte, para a Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) das famílias.

“A análise do sector agrícola aponta para vários desafios, que urgem por uma solução, nomeadamente: (i) a adaptação da agricultura às mudanças climáticas; (ii) a diversificação das fontes de água para agricultura (irrigação e pecuária), associada às energias renováveis (para reduzir os custos de produção e distribuição); (iii) o aumento da produção, para responder à crescente demanda de alimentos; (iv) o fomento da empresarialização e o desenvolvimento de sistemas produtivos agropecuários, sejam unidades familiares, cooperativas de produção ou empresas agropecuárias; (v) a gestão integrada de bacias hidrográficas; (vi) a promoção de uma agricultura mecanizada e de precisão; (vii) o incentivo à criação e agregação de valor em toda a cadeia de mercado, no que tange à sua ligação com os setores do turismo, da indústria transformadora e do próprio comércio, entre outros e; (viii) a garantia da qualidade e certificação de produtos”, refere o PEDS II.

A “ambição” para o sector agrícola, assenta na transformação da agricultura numa agricultura competitiva, um sector de oportunidades para os jovens, inteligente, com elevada produtividade e valor acrescentado capaz de penetrar o mercado turístico, de exportar e de reforçar a contribuição para a segurança alimentar. As linhas de actuação deverão assentar em dois pilares: o reforço da resiliência e adaptação às mudanças climáticas e a estruturação de cadeias de valor orientadas para os mercados, locais, turísticos, regional e da diáspora.

“Mais depressa consigo um apoio se for construir um hotel do que se for apostar no agronegócio. É um bocado blá blá”, ri-se Emílio Lobo. “Quando aparecem esses apoios é campanha política, porque em vez de investirem numa empresa implementada, que sabe o que faz, se têm uma verba preferem distribuir migalhas por vários interessados, que acabam por não dar em nada – o dinheiro é gasto mas não se traduz em nada – em vez de apostarem numa pessoa que dê garantia que o dinheiro vai ser bem empregue”.

“Eu já recebi visitas aqui de todos, desde o presidente até ao chofer, já estiveram cá todos, de pelo menos quatro governos, ponho sempre os mesmos problemas, manifesto o meu desejo de um dia ter uma água a um preço mais acessível, todos dizem que sim, uma empresa deste tipo tem de ter apoio e tal, mas é só da boca para fora”, sublinha o responsável da Milot Hydroponics.

Apesar dos desafios, Emílio Lobo diz-se optimista. “Espero que continue com esta dinâmica que estou a tentar implementar na empresa. Sei que vão aparecer mais projectos do tipo e acho bem que apareçam. Penso que o futuro é promissor desde que haja gente que trabalhe com seriedade e honestidade”, conclui. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1139 de 27 de Setembro de 2023.

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Autoria:Jorge Montezinho,30 set 2023 8:21

Editado porDulcina Mendes  em  2 out 2023 9:22

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