
Celebrar heróis é legítimo. As comunidades precisam de referências, datas e figuras que organizem a memória colectiva. O problema surge quando a celebração se transforma em culto e o culto dispensa a reflexão.
Em Cabo Verde, essa tentação reaparece ciclicamente. Num tempo em que muitos celebram Amílcar Cabral e os heróis da luta armada – travada na Guiné – tende-se a fixar aí o momento fundador da consciência nacional, como se tudo começasse nesse ponto decisivo, como se antes tivesse havido apenas espera, silêncio ou inconsciência histórica. Trata-se de uma leitura eficaz do ponto de vista simbólico, mas pobre do ponto de vista histórico.
Muito antes do Estado, antes da bandeira e antes da arma, houve palavra. Houve literatura, ensaio e imprensa cultural. Houve reflexão persistente sobre a fome, a insularidade, a emigração, a língua e a dignidade do vivido. Houve uma geração que deu forma à modernidade literária cabo-verdiana e ensinou o país a pensar-se a si próprio quando ainda não existia como sujeito político soberano.
Essa geração – a da Claridade – não empunhou armas nem proclamou manifestos. Fez algo mais silencioso e mais durável: nomeou o real, recusou explicações fáceis, pensou o país a partir de dentro, sob vigilância, escassez e contenção. Pensar, nesse tempo, era já um acto de liberdade.
Reconhecer a precedência da palavra não diminui a luta armada nem as suas figuras maiores. Pelo contrário: restitui-lhes o lugar justo numa história mais longa e mais exigente, onde a acção não nasce do vazio e a ruptura política não dispensa um trabalho prévio de consciência.
Esquecer quem ensinou Cabo Verde a pensar-se antes mesmo de existir como Estado é empobrecer a própria ideia de nação. É confundir culminação com origem. É trocar processo por episódio.
A modernidade cabo-verdiana não começou na arma.
Começou na palavra.
N.A. – Esta crónica faz parte da série Alfinetadas, onde se afinam ideias, se questionam anúncios e se convoca o bom senso, mesmo quando há confettis no ar.
– Manuel Brito-Semedo
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