
Legenda: Entre a língua que se pensa e a língua que se escreve
Numa sala de aula qualquer do arquipélago, uma criança levanta o dedo, pensa em crioulo e responde em português. Nesse intervalo mínimo – quase invisível – cabe uma parte decisiva da história cultural de Cabo Verde. A UNESCO afirma que a educação deve começar na língua materna, princípio justo e humanamente irrefutável. Mas quando essa verdade, pensada à escala do mundo, chega às ilhas, encontra uma realidade mais densa do que supõe.
Entre nós, a língua materna é o crioulo – plural nas suas variantes, íntimo na afectividade, absoluto na vida quotidiana. A língua da escola, da escrita e da projecção exterior continua a ser o português, herança histórica transformada em instrumento de mobilidade. Não é contradição: é uma arquitectura social própria, nascida da crioulização atlântica e consolidada por séculos de convivência funcional entre duas línguas. Aprende-se melhor na língua em que se pensa, dizem os estudos. Em Cabo Verde, pensa-se em crioulo e escreve-se em português, num bilinguismo assimétrico que é simultaneamente limite pedagógico e recurso civilizacional.
O universalismo raramente prevê o detalhe decisivo: o cabo-verdiano não é uma entidade uniforme, mas um arco de variantes insulares, cada uma enraizada numa história local. Integrá-lo plenamente no ensino implica escolhas normativas que são inevitavelmente políticas, porque tocam a sensibilidade das ilhas e a memória das comunidades. Nenhuma declaração internacional resolve essa equação por nós.
Talvez por isso a questão não seja aplicar ou rejeitar o princípio, mas traduzi-lo com inteligência histórica. A UNESCO oferece orientações; Cabo Verde precisa de soluções próprias, coerentes com a sua experiência crioula. Não temos de salvar a língua materna – ela nunca esteve ameaçada na vida real do país. O desafio é institucionalizar uma evidência sem empobrecer a complexidade que a tornou possível.
Porque, entre nós, até o universal chega com sotaque – e talvez seja precisamente esse sotaque que nos define.
Nota | Curtas – Apontamentos breves sobre lugares, gestos e episódios do quotidiano que o tempo tende a apagar.
– Manuel Brito-Semedo
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