
Li com interesse o anúncio da realização da 1.ª Feira Internacional do Livro de Cabo Verde. A iniciativa merece aplauso. Um país que lê é um país que pensa – e um país que pensa dificilmente se perde de si próprio.
Mas confesso que li também com alguma surpresa a notícia de que esta primeira edição será dedicada a Amílcar Cabral, convocado uma vez mais como “ícone nacional” para ocasiões de natureza muito diversa.
Foi então que me lembrei de uma pequena estória antiga de São Vicente.
Conta-se que, em tempos idos, um negociante de bordo regressou da baía com mercadorias consideradas contrabando. A descarga fez-se discretamente na Praia de Bote, como era costume nesses arranjos portuários meio tolerados. Sendo matéria de contrabando, o caso pertenceria naturalmente à polícia fiscal. Ainda assim, alguém da Capitania dos Portos entendeu dever intervir com zelo institucional.
O negociante, pouco impressionado com o zelo, terá respondido com a ironia prática de quem conhece o porto:
– Que tem a Capitania a ver com a Praia de Bote?
A frase ficou. Em São Vicente, certas perguntas sobrevivem ao tempo porque dizem mais do que parecem.
Lembrei-me dela ao ler o anúncio da Feira do Livro – tanto mais quando o próprio evento anuncia como horizonte o tema “Atlântico Literário: Cabo Verde como ponte entre continentes”.
Se falamos de livro, de literatura e de circulação atlântica da palavra, os caminhos da memória conduzem naturalmente a outros lugares: Baltasar Lopes, Manuel Lopes, Jorge Barbosa, a geração de Claridade, e a longa tradição de escrita que fez destas ilhas um pequeno arquipélago de papel no meio do Atlântico.
Curiosamente, 2026 assinala também os noventa anos da revista Claridade, publicação que inaugurou a modernidade literária cabo-verdiana e abriu caminho para que o país se pensasse a si próprio através da palavra – precisamente no Atlântico da literatura.
Antes de muitas outras coisas, foi a literatura que começou por dizer Cabo Verde ao mundo – e a nós próprios.
Talvez por isso a velha pergunta mindelense continue a fazer sentido.
Que tem a Capitania a ver com a Praia de Bote?
Hoje, a pergunta pode formular-se de outro modo:
que tem Cabral a ver com a Feira do Livro?
Sobretudo num ano em que Claridade completa noventa anos.
N.A. – Esta crónica faz parte da série Alfinetadas, onde se afinam ideias, se questionam anúncios e se convoca o bom senso, mesmo quando há confettis no ar.
– Manuel Brito-Semedo
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