A tua história começou muito antes das luzes do Mundial, antes de milhões de pessoas aprenderem o teu nome e antes de o mundo inteiro descobrir que existia um guarda-redes capaz de defender uma baliza como se, atrás dela, estivesse a sua casa, a sua família, a sua infância e cada uma das ilhas de Cabo Verde.
Começou no Mindelo. No teu bairro. Nessas ruas onde os milagres não têm representantes nem contratos. Onde uma bola não é apenas uma bola, mas uma forma de viver. Onde se aprende muito cedo que, para chegar longe, é preciso primeiro compreender que o mais importante são aqueles que sempre estiveram por perto.
Saíste de Cabo Verde. Jogaste em Angola, na Moldávia, em Portugal, no Chipre e na Eslováquia. Conheceste outras línguas, outras cidades, outros invernos e outras formas de se sentir estrangeiro. Continuaste quando ninguém falava de ti. Continuaste quando o sonho de levar Cabo Verde a um Mundial parecia demasiado grande para um país tão pequeno.
E então, aos quarenta anos, quando, para muitos, uma carreira já deveria estar a terminar, a tua começou a ser escrita diante dos olhos do mundo. Veio o Mundial. Veio a Espanha. Veio o Uruguai. Veio a Argentina. Chegaram os melhores jogadores, os estádios cheios, as câmaras, a pressão e aquele tipo de jogos que parecem reservados apenas a alguns.
Cada defesa foi muito mais do que uma defesa. Foi uma mãe a olhar para o seu filho à distância. Foi um pai a acompanhá-lo com orgulho e carinho em cada passo. Foi um irmão a celebrar a sua história como se fosse sua, e foram os amigos de infância a recordar onde tudo começou.
Fizeste com que milhões de pessoas procurassem Cabo Verde num mapa. Que conhecessem a sua bandeira. Que perguntassem pelas suas ilhas, pela sua música, pelo seu povo e pela sua história. Essa é a verdadeira dimensão do que fizeste. Porque foste de um bairro da ilha de São Vicente para o mundo sem nunca esquecer as tuas origens.
Por isso, esta carta não serve apenas para te agradecer pelo que fizeste dentro de campo. Serve para te agradecer pelo que fizeste fora dele.
Obrigado por teres chegado ao maior palco de todos sem nunca esqueceres aquela primeira rua, aquela primeira baliza e aquele primeiro bairro.
Obrigado por confiares em nós e por teres usado as nossas chuteiras em todos os jogos e em cada uma dessas defesas incríveis.
E obrigado por teres feito com que Cabo Verde deixasse de ser uma surpresa para passar a ser uma certeza.
Com orgulho, admiração e gratidão,
A Equipa da Senda.
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