Património Imaterial: «Se dependesse de mim, então escolheria o batuco»

PorChissana Magalhaes,9 set 2017 6:29

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Enquanto prepara o seu primeiro disco, Alcides Lopes – também conhecido por Tchida Afrikanu – lançou por estes dias “Os Tamboreiros das Ilhas das Montanhas”, livro que tem por base a festa de romaria de São João Baptista em Santo Antão e que diz ter nascido como um trabalho de pesquisa para a sua tese de mestrado. Sobre a obra, avisa: “Não é um livro escrito para antropólogos. É um livro escrito para os cabo-verdianos”.

Qual seria a primeira coisa a dizer sobre este livro?

A ideia deste livro não é mostrar São João como uma coisa “autêntica”, “única”, “de valor” e que “merece ser património”. Não é isso. A ideia que quero mostrar é que São João faz parte de um processo; é um pedacinho de um processo maior que é a formação do homem cabo-verdiano.

Vive há vários anos no Brasil, onde estuda e trabalha. Quando, exactamente, se iniciou esta pesquisa?

Fui para o Brasil em 1996 para estudar música. Lá, fiz a graduação e regressei a Cabo Verde, em 2010. Trabalhei com a escola [de música] Simboa, criada pela Samira Pereira no Palácio da Cultura Ildo Lobo, e depois com a Lúcia Cardoso na Casa da Música da Uni-CV, com a implementação dos cursos CESP [cursos de estudos superiores profissionalizantes] de música. Só trabalhei com uma turma. Durante esse processo, eu percebi a falta de material pertinente…Não estou a dizer que não houvesse! Estou a dizer para mim. Então olhei a minha conexão ao Brasil e já se tinham passado dois anos, que é o probatório para você se aplicar a fazer um mestrado. Então, quando eu estive aqui em 2010 eu assisti ao São João…Eu cresci a ver a festa de São João de uma forma e quando vi, em 2010, eles tinham até andores, um atrelado e uma espécie de cabana, pessoas a fazer performances como se estivessem a cozinhar ou a fumar um cachimbo...

Isso foi algo novo para sí?

Isso era novo para o São João! Na verdade, as transformações que acontecem nas festas populares são basicamente assim. Elas acontecem e vão sendo experimentadas. Umas são adoptadas, outras não. Acontece que a consciência colectiva portonovense não gostou que o São João se tivesse tornado muito parecido ao carnaval. Essa discussão foi o que primeiro me motivou [para a pesquisa]. Depois, conheci o trabalho do Moacir Rodrigues, e também chamou-me muita a atenção o trabalho da Ana Flávia em Cova da Moura [Portugal]. O que aconteceu é que a festa de São João tornou-se património imaterial português antes de o ser em Cabo Verde. E não foi nem aceite pelo ex-ministro da Cultura [n.r: tornar a festa de São João património], com uma narrativa que eu descarto. A UNESCO nunca disse que Cabo Verde, ou qualquer outro país, tinha que escolher um único elemento para transformar em património: ou morna, ou batuco, ou tabanca... A UNESCO disse que todos os elementos ou eventos, todas as manifestações que são importantes precisam ser valorizadas. A convenção da UNESCO de 2003 chama atenção para isto. E, pelo que eu tenho visto até aqui, - ou talvez isto ainda esteja sendo alimentado - existe a ideia de que temos que escolher um género musical ou uma festa e isto não é assim. Se dependesse de min, então escolheríamos o batuco.

Porquê o batuco?

Historicamente,  há registos sobre o batuco desde o século XVIII. Ele foi até descrito por Darwin. Batuco é feito por mulheres e isso é maravilhoso. O homem que entra no batuco entra subalterno. Acho que o que precisamos neste momento é valorizar todas as nossas manifestações culturais. O São João realmente precisa ser reconhecido como evento nacional, porque  está em mais do que uma ilha. E as diferenças entre [as festas] Santo Antão e Brava, ou com as Festas da Bandeira do Fogo, não são tão díspares para criar outros rótulos. Estão conectadas e na mesma dinâmica. São festas trazidas pelos colonizadores.

E com um forte cunho religioso.

 Sim, com um cunho religioso muito forte, porque era através da religião que se processava o processo de colonização, passe a redundância. [Risos]

Há tendência para se relacionar tudo o que seja tambor a África. Mas os tambores de São João são de origem africana ou europeia?

Há poucos meses assisti a uma entrevista do Charles Akibodé em que ele falava disso; a proibição de instrumentos africanos durante a colonização, a ponto de alguns homens serem amputados se tocassem o tambor. E chamou atenção para o facto de os americanos não tocarem tambor e na música cabo-verdiana não se usa o tambor… O tambor da tabanca parece hibrido. Parece tambor de exército mas que foi adaptado com um know how diferente, mais africanizado. Isso é algo a prestar atenção. E por quê que eu analiso a festa de São João através de intelectuais africanos? Porque a nossa forma de tocar tambor é mais africana do que europeia. Toca-se até se estafar. As mulheres que dançam colá son jon, dançam até ficarem estafadas. No livro tem uma parte em que falo disso, de se confundir o prazer com a estafa. Isso é algo africano. A intensidade corporal, da música não ser só som, é também movimento, intensidade, principalmente a energia corporal. (…) O processo da criolização começa dentro de uma vertente linguística mas, a partir do momento em que o processo começa no âmbito linguístico, por extensão, ele também acontece dentro de um âmbito cultural, em práticas, em saberes... A maneira como o homem cabo-verdiano toca tambor é africana. Na subdivisão rítmica, na sobreposição das matrizes binárias e ternárias, na adjacência - que é pergunta e resposta -, na forma como os ritmos são combinados (como pergunta e resposta): eles podem vir juntos e engrenados, eles podem ser sobrepostos… Isto tudo faz parte de uma dinâmica da música norte-africana que é explorada por autores que eu refiro no livro.

Quais?

David Locke, V. Kofi Agawu, Willie Anku…Teóricos que normalmente não são citados porque são africanos. Mas eles são valorosos. A proposta [do livro] também tem a ver com um certo activismo intelectual ou uma certa desobediência epistemológica. Porque eu dou a voz aos autores e sigo no caminho contrário dos etnomusicólogos. O próprio Willie Anku diz que todas as pesquisas em etnomusicologia têm lacunas. E quais as lacunas? É uma ausência de uma visão holística. Para analisar a percussão africana você precisa ter uma visão holística interna. Ou seja, entender o que cada tamboreiro faz e depois ter uma visão de fora, de como é que eles gerenciam isso. Isto não é ensinado em aulas de música. Durante a época da minha pesquisa tive acesso ao trabalho destes etnomusicólogos e foi algo que me arrebatou. E a partir daí apareceram outros problemas. Como, por exemplo, a polémica à volta do termo colá. Uns dizem que colá significa dançar, outros que significa cantar. Na verdade, significa as duas coisas. Não há dicotomia. É um processo. Quando falo de desobediência epistemológica é exactamente isso: ter a coragem de dizer “não há dicotomia”. Existe um processo, uma sincronia, uma diacronia… Existem outras lógicas e outras perspectivas para se olhar para estas festas.

Mas e os tamboreiros, afinal o que eles dizem sobre o seu próprio fazer?

Há um capítulo no livro em que eu pergunto a um dos tamboreiros, que me recebeu na casa dele... Ele me disse sobre o São João: “É uma cruz que eu tenho que carregar. Eu, pelo menos falo por mim; é uma cruz que vou carregar enquanto viver. É um orgulho.” Ele coloca religião, ética, moral, formação da família, tudo, dentro desta festa! Esses senhores - homens que trabalharam na lavoura, nos cuidados aos animais - são todos pais de família, avós, e todos eles têm um grande orgulho da vida que eles tiveram e sentem-se orgulhosos de mostrar aos filhos (que estão emigrados e que regressam em Junho para a festa) e aos outros (os estrangeiros que vão assistir à festa) que têm algo que… é ele. Então questiono: não é hora dos cabo-verdianos começarem a contar a sua história?

É isso que quis fazer com este livro?

Não quis… Eu aprendi a tirar directrizes e estas directrizes só as encontrei quando dei voz ao Sr. Manel d’Chuco, ao Sr. João D’Ângela, quando dei voz ao Sr. Vitorino de Josefa e, principalmente, quando dei voz ao senhor que me recebeu na casa dele, que é o Sr. Betchinha, o maior construtor de tambores lá em Porto Novo. Fez-me tocar com os filhos dele… Frequentei a sua casa durante quase um mês; indo lá quase todos os dias, de manhã até à noite. E ele contou-me a vida dele, como ele começou a fazer tambores, etc. O que trago neste livro – que tem um viés muito literário – é algo como olhar para o individuo não como uma entidade fechada mas sim como um trajecto.

A festa de São João é o culminar, o clímax de um processo que se desenrola ao longo do ano…

Há um calendário anual. A divisão do dia de um homem rural não tem como ser igual ao de um homem urbano. A noção de lazer, a noção de responsabilidade de um homem que vive nas montanhas de Santo Antão é diferente da de um citadino  de Praia. São João era, em certa época, um fulcro. Ou ia-se para agradecer uma boa colheita, ou ia-se pedir algo a Deus... A época cíclica de fomes pela qual passamos nos séculos anteriores não é quase que mencionada. Houve fomes que mataram quase dois terços da população. Em 1940 Santo Antão teve uma das maiores quebras de população por causa da fome. Ora, São João está registado desde inícios de século XX. Porto Novo não existia ainda… As pessoas vinham de várias zonas interiores para se encontrar. Era durante as celebrações de São João que aconteciam os casamentos. Mas, na verdade, não era só São João. Era um ciclo que se iniciava a 3 de Maio, com Santa Cruz, e ia terminar a 29 de Julho. Naquela época, era uma semana de preparação, uma semana de festa e uma semana para voltar para casa. Enfim, está tudo interligado: uma festa trazida pelo colonizador mas, que ganha feições próprias em Cabo Verde e imigra novamente para Portugal onde passa a ser património imaterial português. Existem muitas interligações a que não temos prestado atenção. Voltando à sua questão de há pouco, as festas fazem parte da vida dos tamboreiros. O que estou a fazer é um pequeno arranhão na superfície de uma das maiores festas de Cabo Verde. Há o livro do Moacir Rodrigues sobre as festas de romaria, publicado em 1997, que me deu muito apoio para fazer este trabalho. Sem esse livro não teria chegado onde cheguei. Acredito que este livro pode servir para nos acordar para as outras manifestações, principalmente as que temos aqui em Santiago. Precisamos de etnomusicólogos, precisamos fazer registos e precisamos de pessoas que lidam com a teoria antropológica, a teoria social clássica e a teoria social africana. Precisamos entender o pós-colonialismo e fazer o cabo-verdiano contar a sua própria história.

Temos, ainda, pouco material bibliográfico que nos permita estudar o nosso património musical. Acredita que um dia Cabo Verde terá, por exemplo, uma Licenciatura em Música?

Claro! É inevitável. Nós só temos 42 anos [de independência]… Sabe de algo interessante? Descobri um texto de Marshall Salins, que é um “bambambam” (como dizem os brasileiros) da antropologia, um dos “cabeças” do património imaterial… Em que ele diz que Amílcar Cabral está na vanguarda deste pensamento. Ele diz que os países do “1º mundo” tem património histórico e os países que não estão nesse centro-norte é que desenvolvem património imaterial. Na década de 40, a China comunista destruía o que era tradicional; alguns académicos é que salvaguardaram alguma coisa. Depois da década de 50 houve uma reviravolta. Hoje a China é o país que tem o maior número de património imaterial declarado. Porquê que não sabemos disso em Cabo Verde? A China está agora muito próxima de nós… Não há curiosidade… A própria ideia de preservação precisa ser reformulada. A própria ideia do que é património precisa ser reformulada. Não temos políticas mais palpáveis que possam favorecer academicamente a consolidação dessas características da nossa sociedade. Isso entendendo que o próprio processo de preservação dessas características não é cristalizado. É um processo dialéctico.

 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 823 de 06 de Setembro de 2017. 

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Autoria:Chissana Magalhaes,9 set 2017 6:29

Editado porChissana Magalhães  em  3 abr 2018 10:42

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