Balanço do ano 2017: O ano da literatura

PorChissana Magalhães,30 dez 2017 6:45

“Mon pays c’est une musique”, escreveu o poeta. E, de facto, a música tem sido o cartão de visita de Cabo Verde no mundo e o sector cultural que mais atenções recebe. Mas este ano a literatura teve uma palavra a dizer. Aliás muitas palavras. O Festival Literatura-Mundo, em Julho, e o Festival Morabeza, entre Outubro e Novembro, foram dois dos principais destaques culturais de um ano em que mais de quatro dezenas de livros foram publicados. Ainda assim, este foi um ano de bons lançamentos discográficos e o regresso dos grandes espectáculos em sala.

Diz-se que em Cabo Verde nove em cada dez pessoas querem ser músicos ou cantores. Num futuro próximo, talvez nove em cada dez queiram ser escritores. O cenário actual aponta neste sentido, com o número de novos autores a publicar a crescer a um ritmo interessante para um país onde não há best-sellers, isto é, onde dificilmente se ganha dinheiro com a publicação de livros.

Contribuíram para este “boom” de novos escritores e para o record de publicações que o país registou este ano as editoras Rosa de Porcelana e Livraria Pedro Cardoso. A primeira contabiliza este ano 15 títulos publicados, dentre os quais destacaram-se o romance surrealista “O Albergue Espanhol” (de Jorge Carlos Fonseca), o díptico “Polaróides de Distintos Naufrágios” e “Rua Antes do Céu” (de José Luiz Tavares) e “Claridosidade: Edição Crítica” (organizado pelos editores). Já a LPC no final de 2016 propunha-se a editar 12 títulos este ano, um por mês. Acabou 2017 com uma relação de 18 obras publicadas, com relevo para a reedição de obras esgotadas de autores do século XX (como Jorge Barbosa) ou para a edição de livros sobre a vida e obra destes (Como Eugénio Tavares e Jaime de Figueiredo). “Esticar o Infinito Até a Borda do Prato” (Rony Moreira), “Flor de Basalto” (Madalena Neves) e “Gruta Abençoada” (Artemisa Ferreira) são outros títulos que marcam este ano literário, mostrando que a poesia continua a ser o forte da literatura nacional.

Com o aumento gradual da produção literária nacional a nova preocupação parece ser a internacionalização. E uma das estratégias encontradas para abrir as fronteiras internacionais ao livro cabo-verdiano foi abrir as portas do país a ilustres convidados internacionais, entre os quais editores, tradutores e jornalistas de cultura. A Ilha do Sal e a Cidade da Praia acolheram este ano cada um o seu festival literário, respectivamente o Festival Literatura-Mundo do Sal e o Festival Morabeza, que trouxeram ao país José Luís Peixoto, Francisco José Viegas, José Eduardo Agualusa, Inocência Matta, Pilar del Rio, Ana Margarida de Carvalho, Valter Hugo Mãe, entre outros.

2017 foi ainda o ano em que se resgatou a figura do escritor João Vário (João Varela) – com uma homenagem organizada pela sociedade civil a lembrar o valor da sua obra - e assinalou-se igualmente o centenário do poeta António Nunes e os 80 anos do poeta e romancista Oswaldo Osório.


Tutela

Abraão Vicente continua a não ter a vida facilitada. Tal como no ano passado, este ano várias das medidas e declarações do Ministro da Cultura e das Indústrias Criativas foram alvo de polémicas. As mudanças nas direcções dos serviços e institutos sob a sua alçada; a questão à volta das verbas para o Carnaval; o mal-estar gerado à volta do Festival Morabeza, nomeadamente com a carta aberta do poeta José Luiz Tavares e as declarações do ministro a vários órgãos internacionais; a decisão de deixar de financiar a AME, entre outros, quase que roubaram cena a importantes passos dados no sector cultural. A começar pelo início da distribuição pelo MCIC da taxa da cópia privada à Sociedade Cabo-verdiana de Autores e à Sociedade Cabo-verdiana de Música. Também a Bolsa de Aceso à Cultura começou a funcionar dando oportunidade a crianças e adolescentes oriundos de famílias economicamente desfavorecidas de terem acesso a programas de ensino artístico.

O arranque da criação de um Plano Nacional de Leitura (em parceria com o Ministério da Educação) e a distribuição de um kit “biblioteca essencial” de 100 títulos às bibliotecas municipais foram também momentos importantes. O MCIC contribui ainda para um ano dinâmico na Literatura com a criação, com Portugal, do Prémio Literário Arnaldo França no valor de 5000 euros e que será pela primeira vez atribuído em 2018.

A Atlantic Music Expo da “era Abraão Vicente” convenceu e venceu. Foi uma grande edição da feira atlântica organizada pelo Ministério da Cultura, recheada de bons concertos e que animou o turismo e a economia da ilha como já conseguira nas anteriores, rendendo ainda várias reportagens nos média internacional. Daí o espanto quando, em Novembro, foi anunciada a retirada do MCIC da AME. A justificação foi de que os custos financeiros seriam demasiado elevados preferindo a tutela desviar o montante para outros projectos. Valeu a pronta disponibilidade de um grupo de privados que, em parceria com a Câmara Municipal da Praia, vai passar a produzir o evento.

O Kriol Jazz Festival também conseguiu manter a qualidade. Contudo, os apreciadores do evento esperam que os dez anos de um dos eventos mais cult do país, em 2018, traga um cartaz de alto nível. Juntamente com a AME, o KJF, os CVMA e o Grito Rock têm “responsabilidades” na entrada da Cidade da Praia, este ano, para a rede das Cidades Criativas da UNESCO como Cidade da Música.

E a cidade realmente transpira música por todos os cantos, com uma proliferação de noites musicais por vários espaços nocturnos, surgimento de novas bandas e o regresso dos grandes concertos em sala. Mário Lúcio e Élida Almeida ofereceram grandes concertos na apresentação dos seus novos discos – “Funanight” e “Kebrada” – no Auditório Nacional Jorge Barbosa. Fora da sala mas, também na memória dos fãs, ficaram os espectáculos dos Cabo Verde Show no Estádio da Várzea, Djodje no Festival da Gamboa, Carmen Souza no Mindel Summer Jazz e Mariza no Festival Baía das Gatas.

Este foi também um ano de bons discos. Para além dos acima citados, há “Mi ê Bo” de Tito Paris, “Mornas ao Piano” de Teté Alhinho, “Boka Kafé” de Tcheka, “Violão Atlântico” da dupla Bau & Voginha e “Mei d’Ilha” de Vasco Martins, editado apenas em streaming nas plataformas digitais.

Por falar em plataforma digital, este é o território preferido dos jovens artistas da música que este ano fizeram uso intensivo do mundo virtual para editar as suas músicas e vídeos. Não contamos mas estamos certos de que 2017 bate o record em termos de videoclipes produzidos e editados online. A criatividade do sector do audiovisual também ficou patente com o sucesso dos vídeos de comédia. O canal Bololo, onde jovens actores parodiam desde situações do dia-a-dia aos sucessos musicais, agradou e os vídeos do grupo são amplamente partilhados.


Cinema no Feminino

No audiovisual, mais concretamente no Cinema, registou-se este ano o regresso do festival Oiá, em São Vicente, e o Plateau – Festival Internacional de Cinema retomou o seu formato habitual registando o maior número de inscrições do seu histórico.

Mais uma vez, este ano, as mulheres deram mostras de estarem a ganhar terreno na área do cinema. Vejamos: a jovem realizadora e produtora Samira Vera-Cruz cujo projecto do documentário “Hora di Bai” saiu vencedor no concurso internacional PALOP- TL UE, financiado pela União Europeia, e realizou a sua primeira longa-metragem de ficção a partir de uma história original da sua autoria. Ambos os filmes tiveram exibição internacional. Outra jovem iniciante no cinema e audiovisual, Lolo Arziki, viu o seu documentário “Homestay” sobre um projecto de turismo domiciliar na ilha do Maio ser premiado em Portugal e no Plateau – Festival Internacional de Cinema. Também a dar os primeiros passos mas, já com reconhecimento internacional, Artemisa Ferreira teve a sua curta-metragem “Oji” distinguida num festival de cinema no Brasil. Destaque ainda para a estreia de “Canhão de Boca”, realizado por Ângelo Lopes, produzido por Samira Pereira.

A criadora da O2 merece ainda menção pela persistência em criar uma agenda-guia cultural das cidades da Praia e Mindelo, um produto essencial para um país que se diz turístico e para as duas cidades com maior oferta cultural.

Na agenda cultural de 2017 destaca-se ainda o URDI – Fórum de Artesanato, que este ano reformatou-se e apostou forte no design, lançando um concurso para recriação de peças e objectos típicos. O Mindelact chegou à sua 23ª edição com João Branco, de volta ao leme da Associação, a classificar esta edição como a melhor de sempre. O encenador foi homenageado pelo Festival Internacional das Artes de Língua Portuguesa – Festilip.

Do Teatro para as Artes Plásticas, onde destacamos a exposição de pinturas “Duas Gerações, quatro artistas” que reuniu durante quase um mês no Palácio da Cultura Ildo Lobo a família Levy Lima.

As ruas e localidades do país estão a transformar-se em galerias e céu aberto. Na cidade da Praia a já célebre Rua d’Arte, na Terra Branca, recebeu o contributo de artistas guineenses. Uma nova “rua de arte” surgiu com a requalificação urbana da Rua Maria Kamporta, na Várzea, que incluiu a pintura de painéis ilustrados. Em São Vicente, mais concretamente na zona de Norte Baía, as pinturas do Festival Internacional de Graffitis transformaram a localidade e encantaram a todos. A cidade de Assomada viu-se incluída no projecto “Pintar Cabo Verde” de Tchalê Figueira, tendo a praça central da capital de Santa Catarina passado a contar com um mural pictórico com a assinatura deste artista plástico.

Regista-se ainda no balanço cultural do ano a elevação da festa de São João no Porto Novo a património imaterial nacional e preparação para a candidatura a património mundial; o primeiro aniversário da ALAIM; a mostra “ A Glimmer of Freedom” que reuniu no Campo de Concentração de Tarrafal instalações artísticas, esculturas, videoarte, fotografia e performances de um grupo ecléctico de artistas nacionais e internacionais; na moda, o sucesso da estilista Cindy Monteiro a marcar presença na Semana de Moda de Nova Iorque e a modelo Alécia Morais a desfilar para a marca Victoria’s Secret; o lançamento de uma nova revista de actualidades, este final de mês, pela Acácia Editora e a morna a merecer a preferência de jovens intérpretes como Cremilda Medina, Assol Garcia e Solange Sezarovna.


Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 839 de 27 de Dezembro de 2017. 

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Autoria:Chissana Magalhães,30 dez 2017 6:45

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  30 dez 2017 6:45

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