Língua Cabo-verdiana vai ser património nacional

PorDulcina Mendes,24 fev 2018 10:39

​Há alguns tempos falava-se muito na oficialização da Língua Cabo-verdiana e agora, com a declaração do presidente do Instituto de Património Cultural (IPC), de que o crioulo vai ser classificado como património imaterial nacional, o debate volta à ribalta.

O presidente do Instituto do Património Cultural (IPC), Hamilton Jair Fernandes, numa entrevista ao Expresso das Ilhas anunciou que a Língua Cabo-verdiana vai ser classificada como património imaterial nacional.

Sobre essa matéria quisemos ouvir a opinião de alguns especialistas com estudos sobre a língua materna, para saber o que acham do crioulo ser classificado como património imaterial nacional, mas começamos por saber se ela está de boa saúde.

Os nossos entrevistados consideram que a Língua Cabo-verdiana está muito bem, apesar do pouco avanço. O ex-ministro da Educação e Cultura, Corsino Tolentino, assegura que o crioulo tem muita vitalidade, possivelmente a mesma que tinha no século XV mas que não avançou muito em termos de organização científica.

Já para o também ex-ministro da Cultura, Manuel Veiga, a Língua Cabo-verdiana é forte forte. “É aquela na qual, em Cabo Verde, a vida se vive, ou, então, na qual «a vida decorre», como um dia dissera o escritor brasileiro Jorge Amado. Ela não está totalmente de boa saúde, já que ainda se hesita em atribuir-lhe, de forma consequente e abrangente, o estatuto de língua de ensino e das situações formais de comunicação”.

Por outro lado, Marciano Moreira, uma das figuras que mais têm defendido a Língua Cabo-verdiana, explica a vivacidade do crioulo dizendo que ele está a ser usado cada vez mais, inclusive na televisão, rádio e internet.

Para o Presidente do IPC, Hamilton Jair Fernandes, a boa saúde de uma língua mede-se por determinados parâmetros como a faixa etária dos falantes, o seu uso na comunicação social, na escola e na internet. “A língua cabo-verdiana, está de boa saúde, nota-se um aumento do seu uso na comunicação social e está agora a chegar à Educação. Pelo que digo que a saúde não é má, mas necessita de cuidados”.

Se a Língua Cabo-verdiana vai ou não ser património imaterial nacional talvez ainda seja cedo para se saber, o certo é que muitos acreditam que será algo de se louvar. Corsino Tolentino acha que o crioulo tem potencial para ser património imaterial nacional. “Mas o estudo do crioulo é coisa diferente, com proposta de aproximação das ilhas, escrita de manuais de toda a espécie e níveis, gramática, dicionário e tudo o que é normal numa sociedade letrada”.

Já Jair Fernandes explica que por se tratar de uma proposta do IPC ela será submetida ao Ministério da Cultura como acontece com o processo de classificação de qualquer bem cultural como património imaterial”.

“No nosso caso, da Língua Cabo-verdiana, trata-se de um instrumento de comunicação, mas também um bem cultural imaterial que suporta toda a nossa tradição cultural oral, da tradição oral à música. Portando, enquanto Instituto do Património Cultural, vamos nos empenhar neste processo, com muita dedicação”, adianta o presidente do IPC.

A classificação da Língua Cabo-verdiana como património imaterial nacional, muitos acreditam que será uma mais-valia. Para Corsino Tolentino, trará um certo conforto psicológico num primeiro momento e raiva, logo de seguida.

O linguista Manuel Veiga sublinha que, como língua materna, esse estatuto já é essencial.

“Porém, como o que abunda não prejudica, não tenho nada contra essa classificação. Se a mesma vier a desencadear medidas que contribuam para o reconhecimento consequente dos direitos que assistem às línguas maternas, os ganhos da classificação seriam notórios”.

O Presidente do IPC defende que o processo em si será um ganho porque permitirá ter uma equipa que diagnostique a situação do estudo da língua, ouvir os detentores deste bem, que são os falantes e, conjuntamente, propor medidas de salvaguarda, entendendo salvaguarda no sentido patrimonial do termo. “E a valorização deste bem enquanto um produto cultural de valor por toda a sociedade, há que trabalhá-la para ser transmita a outras gerações. Se calhar este é o primeiro passo para a oficialização, no sentido lato do termo da língua cabo-verdiana”.

Oficialização da língua cabo-verdiana

A oficialização da língua cabo-verdiana, que ainda não conseguiu consenso necessário, já foi motivo de muitos debates, mas nada saiu de concreto. Será que é desta vez que vamos ter a oficialização da Língua Cabo-verdiana?

Corsino Tolentino acha que a oficialização deve acontecer quando estiverem criadas todas as condições. Manuel Veiga defende que qualquer língua materna, por direito próprio, deve ser oficializada “porque ela é a marca mais forte da identidade de um povo, é suporte e veicula, com maior propriedade, razão e sentimento, a cultura, as tradições, o conhecimento e os valores desse mesmo povo”.

“A oficialização (declaração explícito desse estatuto) já deveria ter acontecido. Se for desta vez, aplaudimos. Se não for, o nosso estado de direito democrático continuará a dar provas de um desrespeito flagrante”, acrescenta Manuel Veiga.

Para Marciano Moreira, a Língua Cabo-verdiana já é oficial “falta declarar constitucionalidade, paridade entre a nossa língua materna (que é língua oficial em construção) e o português, que já é oficial”. Acho que é desta que será instituída a paridade já que o MpD colocou a oficialização da Língua Cabo-verdiana no programa eleitoral para esta Legislativa e o PAICV está a defender a oficialização do crioulo desde 1999”.

Conforme Jair Fernandes, esta é uma decisão que está nas mãos do Governo, em primeira instância, dos partidos políticos e dos deputados nacionais.

Em relação à oficialização, existe o ALUPEC que até hoje não agrada a muita gente. Visto estarmos a falar da classificação da língua cabo-verdiana como património nacional não seria melhor primar pela sua escrita antes de se avançar com a proposta à sua classificação como património nacional?

Corsino Tolentino afirma que quando nos entendermos sobre o que queremos para Cabo Verde a escrita tornar-se-á fácil. “Os marinheiros costumam dizer que navio sem rota nunca tem vento favorável”.

Manuel Veiga explica que a falta de um consenso alargado e expressivo em relação à declaração formal de língua co-oficial, é devido a alguma desinformação existente. “Há quem pense que a oficialização da língua materna acarreta a desoficialização do português. Outros pensam que o crioulo oficializado será o de Santigo e que as outras variantes cairão no esquecimento. Nada mais falso, tanto o crioulo como o português constituem um património para o nosso povo e a metodologia apropriada de ensino deve ser qualificada e reforçada para que uma real paridade seja construída”, reforça o linguista.

Jair Fernandes lembra que na questão do ALUPEC, só existiu uma proposta que foi oficializada em 2009, como alfabeto para a escrita da língua cabo-verdiana. “É normal que muitos não concordam mas esta proposta esteve 10 anos a ser utilizada a título experimental e todos os que a utilizaram recomendaram o seu uso e aqueles que não utilizaram e que simplesmente dizem que não gostam não apresentaram uma proposta alternativa”.

Para Marciano Moreira é ridículo falar em deitar abaixo o alfabeto cabo-verdiano depois de 39 anos de investimento colectivo porque o alfabeto cabo-verdiano é o resultado de colóquios, fóruns, debates e mesas-redondas que aconteceram em 1979 com o Colóquio de Mindelo, onde foi aprovada a sua primeira versão.

Dia Internacional da Língua Materna

Celebra-se hoje, 21 de Fevereiro, Dia Internacional da Língua Materna. A data foi instituída em 1999 na Conferência Geral da UNESCO e é comemorada todos os anos em todos os estados, membros da UNESCO e suas matrizes têm como objectivo promover o multilinguísmo e a diversidade cultural.

De acordo com a mensagem publicada pela UNESCO, este ano a data será celebrada sob o lema “Diversidade linguística ajuda no desenvolvimento sustentável”.

Em Cabo Verde, o Instituto do Património Cultural celebra essa data sob o lema “Kada variedade un rikeza” e tem programado eventos nas ilhas do Maio e do Sal.

Na ilha do Sal haverá sessões de jogos e estórias tradicionais que mostram o papel da língua materna na transmissão de valores e momentos de socialização. Na ilha do Maio será organizado, pela primeira vez em parceria com a câmara municipal, uma sessão de informação e conversa com a sociedade civil, estudantes e artistas locais sobre este património linguístico.

No mesmo dia, a Livraria Pedro Cardoso, na cidade da Praia, realiza um debate aberto sobre o tema.


Vox Pop

O Presidente do Instituto do Património Cultural (IPC) anunciou que o instituto está a trabalhar numa proposta para a oficialização da Língua Cabo-Verdiana no quadro da revisão constitucional que deverá acontecer nos próximos tempos. Primeiro vão trabalhar o dossier para a classificação da Língua Cabo-verdiana como património imaterial nacional. O Expresso das Ilhas falou com algumas pessoas para saber o que acham dessa medida anunciada pelo IPC . Todos estão de acordo em que ela merece ser classificada como património imaterial nacional, mas em relação à sua oficialização as opiniões divergem.

Alberto Barbosa, Vendedor

Acho que sim, deveríamos apostar na língua crioula como património imaterial nacional porque é o nosso selo e de certeza é o nosso maior marco que ressalta a nossa cultura quotidiana. Aprovado como património imaterial, as pessoas que nos visitam terão a probabilidade de saber mais e aprender a nossa língua-mãe. Em relação à oficialização da língua materna, acho que necessita de um estudo mais aprofundado visto que cada ilha tem um tipo de crioulo. Neste caso, a oficializar requeria uma gramática nacional. No entanto, acho que o melhor era ver a adaptação e o enquadramento das pessoas das ilhas, usando ou expressando um crioulo universal e também, se calhar, oficializar de acordo com as semelhanças. E não sou contra, mas acho que requer um estudo apropriado para esta realização seja concretizada.

Cristalino Vaz, Pastor Evangélico

Não creio muito nisso. Precisamos criar um debate sério e descomplexado sobre esse tema. Precisamos valorizar o que é nosso. O crioulo é uma língua com várias diversidades e sotaques, cada ilha e região tem a sua particularidade, então está na hora da nossa língua materna se afirmar. A medida de reconhecer a nossa língua como património imaterial nacional é louvável, mas oficializar o crioulo é algo que deveria ser feito há muito tempo. Vários países do mundo têm mais que duas línguas oficiais. As pessoas acham que ao oficializar o crioulo vamos deixar o português para trás, mas isso não é verdade, a língua portuguesa é uma língua internacional e é esta língua que nos tem projectado além-fronteiras.

Ariana Martins, Advogada

Acho muito importante a classificação da Língua Cabo-verdiana como património imaterial nacional pelo facto do crioulo revelar toda a nossa identidade e acaba por ser a veia impulsionadora da expressão dos sentimentos do povo cabo-verdiano ao longo dos tempos. Quanto à sua oficialização, acho que não vai acontecer pois penso que ainda existe um longo caminho a percorrer, somos um arquipélago, cada ilha com a sua variante linguística, pelo que seria prudente investigar mais para concluir se de facto é um imperativo ou não oficializar o crioulo.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 847 de 21 de Fevereiro de 2018.

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Autoria:Dulcina Mendes,24 fev 2018 10:39

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  24 fev 2018 10:39

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