Jornalista Silva Roque lança primeiro livro de poemas

PorAntónio Monteiro,11 nov 2018 7:14

​Depois de uma luta ingente consigo próprio, eis que o poeta e jornalista António Silva Roque, nas vésperas de completar 50 anos de vida, resolve por fim dar a conhecer em forma de livro os poemas que vem escrevendo desde os 10 anos. Laranja Sumarenta é o título do livro e será lançado no mês de Dezembro, revela-nos nesta conversa o jornalista.

Finalmente o primeiro livro de António Silva Roque.

Não direi que se trata do meu primeiro livro, porque tenho publicações dispersas por algumas antologias e quem participa numa antologia tem livro publicado. Na verdade nunca pensei em compilar os meus poemas em livro. Alguns amigos e editores tal como Giordano Custódio, Larissa Rodrigues, Danny Spínola e o Dr. Corsino Fortes andavam interessados neste livro, mas não conseguiram mover-me para uma publicação. Agora, nas vésperas de fazer 50 anos, mudei de ideia e este livro será, se calhar, o meu tributo final. Faço anos no dia 29 de Dezembro e o livro poderá ser lançado nessa data com garantia de patrocínio da Promotora e de duas câmaras municipais. Inicialmente o título era Espermas de Sol, mas para meu espanto e minha alegria o meu amigo Vadinho [Valentinuos Velhinho], foi a minha casa oferecer-me um livro dele, Pasárgadas de Sol, eu disse, ‘isso cheira a plágio’, mas foi mera coincidência. Apesar da coincidência, resolvi mudar o título para Laranja sumarenta.

Que grandes temas aborda o livro?

São questões de carácter existencial. A vida foi sempre para mim algo inquietante. Será que a vida tem algum sentido? O que é a morte? O que é o amor? Tudo é transitório nesta vida. A existência é uma coisa transversal, todos nós temos uma existência. Eu tenho essa inquietação existencial, mas tenho também uma inquietação vivencial. Você pode estar num momento feliz da sua vida, é um momento vivencial; mas também pode estar a passar por uma fase difícil, é também um momento vivencial. Portanto, uma dimensão boa e uma dimensão má da vida.

Quanto à estrutura interna como classifica os seus poemas?

Têm um forte pendor romântico, resultante da minha própria personalidade. Assumo-me como um romântico incorrigível. Sempre fui assim desde criança. Eu li os melhores românticos que há nesta vida: Florbela Espanca e o próprio Fernando Pessoa. Foram românticos incorrigíveis que nos transmitiram lições importantes. Uma coisa que eu não gostaria de deixar escapar nesta entrevista é o meu estado de saúde que é algo relevante para mim. Não sei se estou a fazer um apelo a seja quem for, mas tenho os meus familiares e colegas. Não quero destacar ninguém em particular, mas há pessoas que te marcam. Se eu lhe disser que não devo qualquer ao Mariozinho Fernandes é porque eu não quero pagar ao Mariozinho, o nosso colega de trabalho, ao Levy Salomão, à Hermen Tavares Alfredo, à Dinora Almeida, ao Camilo, ao Orlando Rodrigues, ao Óscar Monteiro e a outros, mas são esses que no fundo me têm apoiado nesta travessia do deserto, porque não sei se vou escarpar desta. Estou numa situação muito precária, debilitado. Eu fui sempre abnegado, continuarei a sê-lo, mas a minha situação de saúde é precária. Estou em tratamento e espero ver ainda o meu livro publicado antes… Espero que não seja uma publicação póstuma.

Obviamente que não será. Que significado tem para si este livro?

Tem um significado extraordinário, porque eu escrevo desde os meus dez anos. Se lhe disser, ninguém vai acreditar: eu escrevo como um doido. Tenho centenas de versos, pois escrevo todos os dias. Tenho um cacifo cheio de papéis e tenho ali tudo o que tenho escrito em todos esses anos. O meu pai, o meu cunhado e muitos amigos insistiram que eu publicasse. Lembro-me do saudoso Mário Fonseca, ele dizia-me ‘mas para quê é que a gente escreve poesia? A poesia não tem o significado de um alfinete’. Eu respondi-lhe, ‘então porquê é que perseguem os jornalistas e os poetas?’ Ovídio Martins com os seus poemas de intervenção deu um enorme contributo para a libertação de Cabo Verde, não digo que o seu contributo tinha sido maior que o de Amílcar Cabral, mas todos eles estavam na linha da frente. Curiosamente, a poesia de Ovídio Martins continua a ter um impacto que o próprio pensamento de Cabral já não tem. Eu às vezes questiono a função utilitária da poesia, mas tem, sim senhor. Evidentemente que há pessoas que não gostam, mas no fundo não há quem não goste de poesia. Quando você gosta de uma música, você está a gostar de poesia.

Acredita na imortalidade que os livros outorgam aos seus autores?

Eu acredito que sim. Toda e qualquer obra é um marco na existência do homem, da sua passagem por este mundo. Pode até não ter valor estético, mas se se publicar mil exemplares, há-de sobreviver pelo menos um exemplar. E daqui a cem anos o exemplar poderá cair nas mãos de um leitor qualquer e ele interrogar-se-á ‘quem era este fulano, nunca ouvi falar dele’. Essa interacção já traz qualquer coisa, pode até levá-lo a pesquisar para saber quem foi esse fulano.

Portanto, para si o valor estético de uma obra é relativo.

Eu costumo dizer que toda e qualquer obra tem um sentido estético, relativo ou absoluto, mas o poeta não se define pela qualidade do verso, define-se pela condição. Temos poetas cujos versos não têm sentido estético, não são criativos. No fundo o autor pensou, reflectiu e fica sempre qualquer coisa dele na obra. Como disse, o poeta define-se pela condição: é um homem capaz de chorar a morte de uma borboleta; capaz de se compadecer vendo uma criança sem uma bolacha e é capaz de querer acabar com a miséria no mundo. O poeta não é homem, é uma entidade superior ao homem. Na verdade, ele poderá não ter sentido estético na sua escrita, mas sendo poeta pela condição, já não é homem, é um ser diferente.

É conhecido como divulgador da música cabo-verdiana, sobretudo a morna. Que papel desempenha a música na sua arte poética?

Sem dúvida, eu escrevo sempre ao som dos solos de Humbertona e de Beethoven. Nasci numa casa onde havia vários discos e passava a vida a ouvir música. Em casa não vejo televisão, ouço só música. Faço um jeito no violão, mas vendi o violão para comprar um fugão (Risos). De modo que não tenho violão neste momento e observo agora um certo recato. Quase que não saio de casa. Sou também cultor da música. Tenho parcerias com o Tó Tavares e com o Jorge Tavares. São músicas que vão ser divulgadas a seu tempo. Há cantoras conhecidas que já pediram temas meus para interpretarem, mas não mexi uma palha.

Tem composições na gaveta?

Tenho cerca de 15 composições, mas não foram ainda divulgadas. Como já disse, tenho parcerias com o Tó Tavares e o Jorge Tavares.

A autoria da letra da morna “Regasu (Seiva)” é-lhe atribuída. Confirma?

Há o seguinte, eu trabalhei com o Tó Tavares na Escola Pentagrama. Um dia, estando eu o Tó e o Orlando Pantera juntos, numa brincadeira disse-lhes ‘nhos badiu nhos ta fazi sô funaná, nhos ka ta fazi morna’. Então o Pantera e o Tó meteram umas notas e depois reunimo-nos. A morna Seiva é da autoria do Pantera e eu participei apenas na arquitectura da letra, portanto na metaforização do discurso. Participei. Quando me encontrei com o Pantera pela última vez mostrei-lhe um jornal que na altura se publicava em São Vicente que trazia uma entrevista com o Manuel D’Novas em que este dizia que o maior compositor jovem de Cabo Verde era o Orlando Pantera. Ele ficou radiante e disse-me, ‘tenho de lhe confessar uma coisa, o Mário Rui levou todas as composições que nós gravamos em Assomada numa cassete. Eu não recebi um centavo dele e atribuiu-me a autoria de todas aquelas músicas e esqueceu-se que a morna Seiva tem três autores. Você escreveu a letra e eu e o Tó Tavares introduzimos a melodia’. Mas o Tó Tavares e o Antero Veiga podem explicar isso melhor. São coisas que eu não gostaria que fossem tratadas assim, porque não sei se vale a pena até porque não assumo a autoria desta morna.

Pelo que entendi a letra é sua.

Sim, apenas a letra. Foi um favor que o Pantera me fez em ter metido a melodia.

Voltando à venda do violão. Como é essa história?

Quando eu era garoto, o meu pai comprou-me um violão alemão; depois casei-me, mas nos primeiros tempos não tínhamos nada lá em casa. Tínhamos um campingaz e a minha mulher disse-me ‘vamos desenrascar com o campingaz até termos dinheiro para fogão’. Mas como eu emprestava o violão aos meus amigos e o violão não parava lá em casa, um dia ela disse-me ‘já que o violão não para aqui em casa o melhor é mesmo vendê-lo e comprar o nosso fogão’ (Risos). Assim vendi o meu violão para comprar um fogão – pelo menos não passa pela cabeça de ninguém pedir emprestado um fogão.

Tem feito programas de apoio à candidatura da morna a património da humanidade. Porque é que faz esse trabalho?

Sabe, eu sempre acredito nas coisas. Podia ter sido a divulgação do funaná, do batuku porque acho que os nossos valores identitários têm lugar cativo no mundo. Temos estado a perder oportunidades. Por exemplo, quando o Zezé di Nha Reinalda deu um concerto no Olympia Paris, antes da Cesária, nós perdemos uma grande oportunidade de projectar o funaná. Depois veio a Cesária e, numa conjugação de esforços com o Djô da Silva, conseguiu projectar a morna e a música cabo-verdiana. Como disse atrás, nós temos valores identitários que têm lugar cativo no mundo. Eu acredito na morna como um dos géneros mais expressivos, porque revela a nossa mundividência, a nossa alma colectiva, o amor, a saudade – os traços que caracterizam a personalidade do homem cabo-verdiano.

Qual é o critério na escolha dos intérpretes da morna no seu programa?

Estou constantemente a ouvir música. Escuto um CD e digo ‘isto tem jeito de ser representativo’. Escolho de forma aleatória, mas com a precaução de não banalizar, porque todos os cantores da morna, não são cantores da morna. Interpretam morna, mas não são cantores da morna. Obviamente que não excluo ninguém. O importante é o tema, o conteúdo e a linha melódica.

Voltando ao livro Laranja Sumarenta. Quem é o público-alvo?

Todos vós, quem queira ler, mas também com um afecto muito especial à minha falecida mãe e ao meu pai. Não sei se o livro terá uma função utilitária, mas o certo é que vai sair; já tenho garantia de patrocínio da Promotora e de duas câmaras municipais. Se o meu estado de saúde permitir, até o mês de Dezembro teremos a obra publicada.


Discurso sobre o amor impossível

E fomos felizes cantamos juntos a canção de pássaros da noite e da saudade. Bebemos o fruto o aroma do vento. Fomos empoleirar na coluna da solidão do medo e do silêncio.

E fomos jovens. Com asas do sol subimos os degraus de toda a angústia. Fomos os únicos tripulantes da nave louca que nos transportava. Inventamos a hora e a sombra porque Setembro era o fim.

Então começamos a navegar respirando os alísios da distância. Novembro entra pela porta. Soprava a melodia de uma prece de desespero enquanto um fogo morria nos teus olhos nascendo. E por fim o bosque de acácias rubras floria num tempo de chuva e do deserto. Intensa calmaria deixava sobre os ombros nus, a frescura do fogo e madrugada. Fui buscar a guitarra e a flauta do silêncio.

Entre ruina e morte procurei a chave do equinócio. No labirinto da busca encontrei uma prostituta anónima assobiando a eterna canção de amor, que nunca teve, e foi mais justo e mais humano. Olhamos friamente. Depois, um alvoroço tomou conta do meu corpo cantou mornas e raízes e loucura. A tarde floriu nos meus olhos. Clarões de uma infância longínqua. Beijos e cravos no jardim de uma adolescência sublime. Na minha fonte coroada de estrelas e espuma a vida a cantar seu cântico de luz e seiva.

Eu e tu presas da mesma saudade. Presas da mesma lei e do mesmo código. Assim fomos amordaçados e enclausurados. Todavia nada nos impediu de ser pássaros a rara altura os ombros. Pelos atalhos do bosque, da nossa angústia, procuramos a fogueira e a guitarra. E vogais na cartilha do amor. Soletramos o deserto e o bosque. Assobiei uma morna no crepúsculo da madrugada e jurei no altar da nossa dor a eternidade da nossa infância renascida.

In Laranja Sumarenta

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 883 de 31 de Outubro de 2018.

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Autoria:António Monteiro,11 nov 2018 7:14

Editado porrendy santos  em  13 nov 2018 15:44

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