“O exercício da função política sempre me ofereceu ingredientes para criação literária”

PorChissana Magalhães,10 mar 2019 13:07

“A sedutora tinta das minhas noutes” é o novo livro de Jorge Carlos Fonseca, uma selecta de textos poéticos – uns inéditos, outros de livros anteriores do autor – que coube ao também poeta, e Prémio Camões 2009, Arménio Vieira. Décima publicação da colecção poética Rose is a rose is a rose, da Rosa de Porcelana Editora, “A sedutora tinta das minhas noutes” traz ainda textos de fortuna crítica sobre o conjunto da obra poética deste que é um dos cultores da poesia surrealista na literatura cabo-verdiana.

A selecção dos textos para este livro foi feita pelo poeta Arménio Vieira. Ficou satisfeito com o resultado ou há algum texto que preferia que não tivesse sido incluído?

 Bem, o Arménio Vieira fez a selecção da parte dos textos poéticos. É a terceira parte, o livro está dividido em três partes: há uma antologia, textos que vêm de outros livros meus; há essa parte de inéditos e uma parte de escritos críticos por parte de poetas, de gente ligada à literatura, que faz uma avaliação dos livros “Silêncio Acusado de Alta Traição e Incitamento ao Mau Hálito Geral”, “Porcos em Delírio” e “O Albergue Espanhol”. Essa parte da antologia foi feita pelo Arménio, que se disponibilizou a fazê-lo e fê-lo com inteira liberdade. Naturalmente, se fosse eu a fazer a minha antologia as escolhas não seriam exactamente as mesmas. Dei-lhe toda a autonomia. Apenas terei dito algo como “olha, no “Porcos em Delírio” gostaria de ter o texto “tal”, e por acaso esse já fazia parte da sua escolha. Mas terá escolhido alguns que, provavelmente, eu não teria incluído aqui. O Arménio Vieira além de ser um amigo é um grande poeta.

E um bom leitor. 

Sim, sim. Porque para ser um grande poeta tem que ser um bom leitor de poesia. Portanto, as escolhas dele têm sempre o selo de um grande poeta, de uma pessoa muito culta, de um Prémio Camões. E só por isso [os seus] serão critérios de alguma valia.

É um livro que foge do padrão. Estes seus últimos livros são um pouco atípicos, náo seguem um estilo único, não se encaixam num género único... 

Depende do que se entende por atípico… Seja a parte dos inéditos, seja a que consta dos livros anteriores, são o tipo de trabalho literário e poético que pouco tem a ver com a literatura e poesia feita, por exemplo, pelos claridosos. Neste sentido representa uma ruptura estética, formal e material. Este livro, a maneira como está composto, pode dar ao leitor uma noção do percurso do escritor. E são contextos de vários livros, e portanto posso tentar encontrar se há continuidade, se há rotura, se há evolução, ou se há transformação literária ou estética. Creio que, do ponto de vista dos instrumentos e da visão do que é literatura, do que é poesia, creio que há continuidade. Mas, naturalmente, estes inéditos têm uma parte talvez diferente dos primeiros livros; têm uma prosa diarística e que são excertos que retirei de um trabalho muito mais vasto, que estou ainda a escrever e que é uma espécie de diário de bordo de mim mesmo. É um livro que recolhe pensamentos, reflexões, anotações do meu dia-a-dia como Presidente, como escritor, como cidadão. É um livro heterodoxo no seu teor porque tem os textos que integrei, de cariz mais poético, mas tem também textos e anotações de registos. Por exemplo, de encontros com outros Presidentes de República, de audiência a um ministro, encontros com sindicalistas, uma sessão de um espectáculo... Naturalmente terá elementos que têm a ver com o meu percurso, com a minha vida, com a visão que tenho da minha escrita, da escrita dos outros, e também do Cabo Verde político, social e cultural. Como este ano talvez venha a ser publicado um outro livro – que é uma entrevista que me fez o José Cunha, uma entrevista literária e que talvez saia este ano – provavelmente deixarei esta espécie de diário para o próximo ano, a par de um livro com as crónicas que publiquei durante muitos anos no A Semana, no Expresso das Ilhas, etc.

Tem uma vasta obra literária académica, sobretudo na área do Direito, mas apenas quatro livros de poesia, tendo publicado o primeiro livro a solo em 1995. Nos últimos tempos tem estado bastante mais produtivo nessa área. Tem a ver com o contexto actual, de termos novas editoras com bastante dinâmica, ou também sente-se mais inspirado? 

Entre “Porcos em Delírio” e “O Albergue Espanhol” passaram-se 18 anos. Não quer dizer que em 18 anos não escrevi ou publiquei. Participei em dezenas de antologias e obras colectivas, fui escrevendo… Mas, há dias no programa da RTP, “Mar de Letras”, o jornalista perguntou: “Daqui a menos de três anos deixa de ser Presidente. Vai ter mais tempo livre, vai escrever num ritmo mais intenso?” E eu respondi: as coisas não são assim. Quando falamos de literatura, e sobretudo de poesia, podemos ter muito tempo livre e não escrever nada e podemos ter uma actividade profissional muito intensa e escrever muito. O tempo da criação literária não tem a ver com o tempo formal, com as horas. Isto é, para quem escreve a noção de que o dia tem 24 horas pode ser uma noção convencional, artificial. Um poeta pode ter a capacidade de esticar o dia e ele ter 36 horas, ou 48 horas. Eu, para escrever literatura, não tenho um momento para isso. Ando sempre com caderninhos e já preenchi dezenas deles. E tanto escrevo estando a almoçar ou a jantar como posso estar numa conferência e redigir. Como tenho o azar ou a sorte de dormir pouco, eu aproveito as noites. Mesmo a dormir… Acontece-me acordar e, às escuras, rabiscar textos que depois não consigo decifrar. Os pretextos para a escrita, os ingredientes para a poesia podem surgir-me, por exemplo, nesta conversa que estou a ter consigo.

Consegue então quase que estar em duas dimensões em simultâneo… 

Sim, é quase isso. Portanto, é um período em que estou a editar mais. Mas também estou sempre a escrever muito. Estou a escrever muita poesia mas também, como Presidente, eu tenho que, quase todos os dias, escrever discursos, mensagens, aberturas de conferências, tenho que estudar dossiers… Mas é possível fazer-se isso tudo. 

Falávamos há pouco da diferença dos seus primeiros livros de poesia para este. Uma das diferenças, parece- -me, é que os primeiros livros tinham um certo cunho político que estes últimos já não tanto (neste último, a parte inédita). 

Estes inéditos têm aquela estrutura formal da poesia, linhas cortadas... Mas os que parecem ser prosa também são poesia. Esta prosa diarística supõe que recortei partes que, por sinal, não têm pretextos de factos políticos mas inserem-se, como já disse, num trabalho mais vasto. Pode ser um acaso. Desde criança até hoje vivo de algumas paixões: a paixão pela poesia, a paixão pela política, pelo direito criminal e a paixão pelo futebol. E então comigo passa-se o seguinte: tenho a noção de que a poesia – se é que ela é literatura também, Eduardo Lourenço teria dito que a poesia é literatura que provém do nada. Eu, estando de acordo com ele, diria que melhor seria dito que provém de tudo – pode-se fazer poesia com tudo. O pretexto pode ser o desenho de uns lábios, um olhar, uma paixão por uma mulher… Mas também pode ser um facto politico, um facto social, a erupção vulcânica, uma visita a Chã das Caldeiras. O exercício da função política sempre me ofereceu ingredientes, pretextos, para criação literária. Naturalmente que, se for ver a poesia que publiquei em 1976 nos Jogos Florais – foi a primeira vez que, creio eu, poemas meus foram editados – era de poemas em que mais visivelmente se encontrava material político. Eram poemas que falavam da revolução, da chuva que cai ou não cai, de poços de petróleo em São Vicente, do apartheid, da revolução no Zimbabué. Mas tenho a noção de que sempre procurei – mesmo trabalhando um facto político – trabalhá-lo poeticamente procurando, tentando pelo menos, fazer um trabalho estético e não panfletário. É natural que com o tempo essa oficina laboral poética se tenha aprimorado. Mais tranquilidade, vamos amadurecendo… e por isso pode dar a sensação de que, sobretudo os inéditos neste livro ou uma parte de “O Albergue Espanhol” possam tender fugir à função política traduzida em versos e em prosa diarística. Mas o bichinho da política, dificilmente poderei afastá-lo. 

Assumiu há pouco uma tentativa de distanciar-se da estética literária dos claridosos. Uso um excerto deste “A sedutora tinta das minhas noutes” – “Sinto uma retração estranha ao querer começar um conto. (…) Obrigar Julieta, Tiago ou Nhô qualquer coisa a falar da ribeira que secou, a oficiar-nos que os três filhos não são príncipes, a massacrar-nos com a sua casinha caiada de amarelo, branco, ou com o seu feliz ou infeliz quotidiano” – para lhe perguntar se é uma crítica aos claridosos, e a outros que se lhes seguiram – ou antes uma espécie de murro na mesa pelo direito à metáfora e à universalidade? 

Este excerto está neste livro, suponho que faz parte de “O Albergue Espanhol”, e é um excerto de um romance que tentei escrever em 1979 e que era sobre a Cidade da Praia mas que me desaparecem, em grande medida. Escrevi-o num período muito particular da minha vida – 1979 foi o tempo político do chamado fraccionismo de cariz trotskista, em que estive envolvido, e é um período em que escrevi muito. Foi um dos períodos em que produzi mais, embora tenha publicado pouco. E na altura estava a escrever um romance. Tinha já muita coisa escrita. Manuscritos e também folhas dactilografadas. Nessa altura, por razões políticas tive que sair de Cabo Verde e com a vida que levei boa parte disto desapareceu. Consegui vir a encontrar umas trinta folhas dactilografadas deste romance e aproveitei parte deste em “O Albergue Espanhol”. Isto que citou é parte deste texto. Significa que já nessa altura eu tinha essa postura e essa visão crítica, talvez um pouco provocatória, em relação ao modo de fazer literatura de então. E então pode sugerir-se uma espécie de contracorrente, contraponto, de postura crítica em relação sobretudo à prosa de ficção e também certo tipo de poesia que tem a ver com os claridosos. Mas tenho a noção de que qualquer visão que se faça dos claridosos tem que ser uma visão contextualizada. Eles são de um tempo diferente e, desde que comecei a escrever entendi que, se é necessário o “fincar os pés no chão” como bandeira dos claridosos, o meu tempo era um outro tempo. Um tempo de se fazer verdadeiramente literatura e então – não sei se estaria aqui a citar Jorge Luis Borges ou outro autor – interessam-me menos as histórias, interessa-me mais a literatura, a criação estética, a procura de novos modos de trabalhar a palavra, a procura de novas musicalidades, novas sonoridades. O que não exclui que trabalhemos o concreto, o real. Porque se for a “O Albergue Espanhol” vai encontrar referências a Padjigal, a Burbur, e mesmo nestes excertos de prosa diarística pode encontrar por exemplo textos com referência a “chuviscos em Caboco de Cosco. Muita água em Marrador (…)”. Referindo-me a sítios de Santo Antão. Depois salto para a Ilha Brava… O modo de tratamento, o modo de uso e construção das palavras, é que procuro fazê-lo do modo que para mim é literatura. Literatura para mim implica causar espanto, dar lugar à imaginação e à criatividade. Portanto, não preciso descrever se a casa tem quatro paredes, se são caiadas de branco… Muitas vezes uso esse tipo de discurso mas, evidentemente, numa postura de contraponto, de crítica em função de uma outra literatura que eu penso que deve ser feita. 

A metáfora é então, no seu caso, não uma camuflagem para dizer certas coisas mas antes esse exercício de ir contra o óbvio, contra o linear.

Sim, é um instrumento. João Vário disse que sou exclusivamente e ostensivamente surrealista. José Luís Hopffer Almada diz que sou o inventor do surrealismo cabo-verdiano. Não sei se isso será verdade. O facto é que muito cedo convivi com o surrealismo. Li o manifesto do surrealismo de [André] Breton com menos de 20 anos de idade e marcou-me. Os instrumentos como o uso da metáfora, as combinações surpreendentes, a escrita automática, a combinação imprevisível de palavras, sons inauditos… Uso muito estes instrumentos e estas técnicas no meu labor literário. Evidentemente que o surrealismo usou muito isto, mas hoje em dia há muito gente que não é surrealista e que usa esse tipo de instrumentos para a criação literária. 

Surrealismo é mais do que apenas criar um texto non sense, não é? Não é qualquer texto que, só por ter algo de absurdo, se pode classificar como surrealismo… 

Claro que não. Até lhe conto uma anedota: há alguns anos havia um jornalista novo, e que fazia umas crónicas e procurava fazer coisas de maneira diferente. O Arménio Vieira era re-writer nesse jornal e um belo dia, enquanto fazia a correcção dos textos, chamou atenção a esse jornalista por achar que o texto tinha algumas imprecisões - havia coisas pouco compreensíveis, expressões que pareciam absurdas, e então corrigiu. O jornalista não ficou satisfeito com o Arménio e disse: “Se fosse o Zona* a escrever isso diria que é porque ele é surrealista. Como sou eu… não sei escrever a língua portuguesa!”. [risos] E é isto. Não basta escrever “esquisito”. Implica o domínio de certas técnicas e implica cultura literária. Fazer de forma criativa, imaginativa, com um salto qualitativo. Para mim, se a literatura tem uma função, ela deve servir para colocar a humanidade num nível de avanço, para além do tempo em que ela é feita. É procurar estar mais à frente do nosso tempo, mas de uma forma que represente elevação de espírito. 

*Zona é a alcunha de Jorge Carlos Fonseca

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 901 de 05 de Março de 2019.

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Autoria:Chissana Magalhães,10 mar 2019 13:07

Editado porChissana Magalhães  em  23 mar 2019 23:22

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