Pedro Gregório Lopes e as Ressonâncias e Flutuações no Oceano da Memória

PorChissana Magalhães,5 mai 2019 6:12

O título de primeiro arquitecto cabo-verdiano acompanha-o sempre. Desenhou, entre tantas outras obras, o emblemático edifício Galerias e a muito popular Pracinha da Escola Grande (Praça António Lereno, ex- Luis de Camões). Foi também o primeiro arquitecto distinguido com o Prémio Nacional de Arquitectura, atribuído pela Ordem dos Arquitectos de Cabo Verde. Aos 85 anos provou que ainda era tempo da “primeira vez” e inaugurou, no ano passado, a sua primeira exposição de pinturas em Mindelo. Agora, repete o feito na cidade da Praia. Pedro Gregório Lopes apresenta “Ressonâncias e Flutuações no Oceano da Memória” como “uma espécie de reencontro” consigo mesmo.

Entre as suas primeiras memórias, memórias de infância, há uma que ilustra o seu especial interesse pela singularidade de cada cor. Aos cinco anos, sabe lá como, conseguiu juntar 15 tostões e com eles tenta comprar um lápis de cor amarela. Chegado à loja, a decepção: não pode comprar o lápis à unidade, tinha que ser uma caixa inteira. 

“Em criança, em São Nicolau, brincando com o barro e com os lápis, comecei a ter noção de que tinha habilidade para o desenho”, recorda Pedro Gregório Lopes quando na manhã de sexta-feira (26) o encontramos no Palácio da Cultura Ildo Lobo em preparativos para a sua exposição. 

“Ressonâncias e Flutuações no Oceano da Memória” teria inauguração naquela mesma tarde, enquadrada no ciclo “Talentos Consagrados” criado pela gestão do espaço cultural para dar ao público uma possibilidade de contacto com os artistas plásticos com carreiras já cimentadas, e vice-versa. E ainda que esta seja apenas a segunda exposição, dúvidas não há quanto a talento, do mais do que consagrado do arquitecto, que só o é porque o seu engenho para o desenho e para a escultura cedo foi percebido e encorajado. 

“Ganhei uma bolsa para estudar Belas Artes quando terminei o liceu. No liceu eu continuei a manifestar essa habilidade para o desenho. Fazia desenhos e algumas esculturas, e o fundo pedagógico da escola ajudava-me na compra de material. Principalmente gesso, que eu usava nas minhas esculturas. E isso veio a dar-me a possibilidade de ganhar uma bolsa para ir estudar na escola de Belas Artes do Porto”. 

Chegou a Portugal em 1953 e cedo transferiu-se das Belas Artes para a Arquitectura. Na recta final da formação e chegado o momento do estágio curricular uma reviravolta que teria profundo impacto na sua história: o então governador de Cabo Verde desafia-o a regressar a Cabo Verde e a fazer aqui o estágio. 

“Vim fazer o estágio em Cabo Verde, não por vontade própria mas, porque o governador de Cabo Verde, Silvério Marques, sabendo que eu estava de férias em São Vicente mandou-me chamar ao palácio e perguntou-me se eu não queria fazer o estágio de arquitectura aqui, na Praia. Isso em 1959. Ele insistiu comigo e eu disse que não. Como é que eu vinha cá fazer o estágio?! Aqui não havia arquitectos nem nada. Então ele disse-me uma frase desarmante: “se vocês que são aqui da terra não vêm trabalhar na vossa terra, quem o fará? E eu respondi: “ganhou”. Eu disse-lhe que vinha por um ano. E esse um ano já são 60”. 

Nas memórias do arquitecto está bem clara a sua predilecção pelo desenho à pena. E a grande apreciação que a sua ilustração do poema de Jorge Barbosa “Pretinha dos Picos” contou desde sempre em várias paragens. “Um desenho muito simples, de traços escuros e grossos”, caracteriza modestamente, explicando ainda que esse célebre desenho surgiu-lhe por influência de um documentário a que assistira sobre arte rupestre em África. 

“Depois de o ver cheguei a casa, eram cerca de meia-noite, ou uma hora, e comecei a desenhar e a deitar papéis ao chão. E no fim escolhi esse desenho... Continuei a desenhar, e mesmo lá na escola [de Belas Artes] era conhecido por saber desenhar”. 

Os seus desenhos podem ser encontrados na revista Suplemento Cultural do Boletim de Cabo Verde – do qual foi fundador e colaborador juntamente com os escritores Yolanda Morazzo, Carlos Alberto Monteiro Leite, Aguinaldo Fonseca e outros – e mais tarde algumas gravuras para o próprio Boletim. Colaborou ainda com a revista cultural Ponto & Vírgula. 

A transição do desenho para a pintura demorou a fazer-se. Foi só há poucos anos que, já reformado como arquitecto, reiniciou o namoro com as cores. Desta vez não em forma de lápis coloridos mas das tintas transferidas da paleta para as telas. 

Questionado sobre o que tira desse fazer, responde: “Talvez uma certa calma”. “Uma espécie de reencontro comigo mesmo. Até porque eu considero que qualquer objecto artístico é resultado de experiências interiores, feitas em silêncio. Não exigem palavras e nem elas são necessárias”. 

Pedro Gregório Lopes também encara a experiência da arte plástica como uma representação do próprio criador. “O sopro do ser ou, ao mesmo tempo, o ser do sopro. Um bocado esquisito. A calma e compreensão daquilo que se passa dentro de nós”. E completa que tudo isso se traduz em cor e movimento, sem temas pré-definidos e deixando tudo fluir naturalmente. 

“Começo, às vezes, sem saber o que vou fazer. A primeira cor sugere ou exige outra cor, e vou andando. Inicialmente, eu era mais figurativo – formas humanas, sobretudo – mas ultimamente estou praticamente a destruir a forma humana. À procura apenas da cor ou a concretização desta vibração. E por isso dei esse título à exposição – Ressonâncias e Flutuações no Oceano da Memória”. 

E acaba por resumir todo o processo e o resultado como “uma viagem interior, depois exposta”, que alguns poderão gostar e outros não. 

A filha, que o acompanhava nos preparativos da mostra, é a responsável por esta revelação pública das telas produzidas pelo arquitecto. Foi dela a ideia da exposição, que primeiro aconteceu em Mindelo, no ano passado. A pedido de muitos amigos está agora no Palácio da Cultura Ildo Lobo, onde permanece até 26 de Maio.

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O Arquitecto

Sem hesitar, o arquitecto recorda o seu primeiro trabalho, ao regressar a Cabo Verde, em 1959, depois de concluída a formação. “Foi o painel no salão nobre do Liceu Domingos Ramos. É de Outubro de 1960”. 

Aponta também, não com a mesma vivacidade, a sua última obra de arquitectura: a Escola Secundária dos Picos. 

Alguma coisa que gostaria de ter desenhado antes de se retirar?, perguntamos. A resposta acaba por levá-lo a uma reflexão sobre a arquitectura em Cabo Verde: 

“Eu suponho que fiz aquilo que devia fazer, segundo as oportunidades que eu tive e a necessidade que se tinha de algum projecto. Mas sempre com uma preocupação: tentar fazer as coisas de acordo com as necessidades reais do país e das pessoas. O que muitas vezes me levou a perder clientes, por não atender à vontade de exibição pessoal de cada um. Repare, temos uma economia extraordinariamente fraca, ainda hoje, apesar do desenvolvimento que se está a notar. De modo que, o que o arquitecto deve fazer, do meu modo de ver, é atender às necessidades fundamentais da população. E não servir-se da profissão como montra de exibição e de vaidade, de poder… Na arquitectura era necessário um espaço para habitar. Habitar com qualidade e com conforto. O que me leva a dizer que, actualmente, a arquitectura em Cabo Verde tem uma forma ecléctica e esse eclectismo terá a ver com as diferentes formações que as novas gerações tiveram, em países diferentes. E cada um quer mostrar que é capaz de fazer coisas diferentes”. 

Reformado há alguns anos, o decano dos arquitectos cabo-verdianos mostra algum pesar pela forma como a sua retirada se deu: “Arquitectura, parei. Até pelo seguinte: nós temos uma cultura estranha em Cabo Verde, quando estamos a chegar a determinada idade, as pessoas, a população, não sei… é a maneira de ser… Tentam pôr o individuo já de idade na “prateleira”. Depois o individuo deve ter a coragem de saber o momento de parar. Achei que devia parar”. 

Sobre a arquitectura cabo-verdiana diz ainda que hesita em lhe atribuir uma identidade própria. 

“Parece-me que ainda não. Ela poderá vir a definir-se, talvez, se a nova geração de arquitectos tiver a coragem de voltar atrás e analisar o que foi a arquitectura em Cabo Verde sem arquitectos, que para mim baseia-a na ideia de iluminação correcta, a ventilação e os materiais correctos a usar nesse tipo de clima. Temos uma luz bastante intensa; qualquer nesga, qualquer abertura ilumina um espaço. E muitas vezes quando não se respeita isso criam-se zonas muito quentes e desconfortáveis. Isso dispensaria, talvez, os grandes painéis de vidro que vemos hoje. Não tenho nada contra o vidro mas, este deveria ser protegido de modo a evitar que o sol batesse directo e aqueça demasiado o ambiente”. 

Por fim, defende a necessidade de se fazer um estudo sobre a arquitectura antiga de Cabo Verde. “Não para repetir as coisas mas, para tirar as lições e tentar inventar processos que correspondam às necessidades climáticas do país e à sua economia”. 

Professor de Desenho, arquitecto da Câmara Municipal da Praia e depois do Ministério de Obras Públicas, foi em 1981 que Pedro Gregório Lopes abriu as portas do ateliê em nome próprio. Pelo edifício-sede do banco BCA na ilha do Maio, ganhou em 2007 o Prémio Nacional de Arquitectura, atribuído pela Ordem dos Arquitectos de Cabo Verde.

Texto originalmente publicado na edição impressa do expresso das ilhas nº 909 de 01 de Maio de 2019.

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Autoria:Chissana Magalhães,5 mai 2019 6:12

Editado porSara Almeida  em  6 mai 2019 8:19

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