Jotacê à conversa: “O cabo-verdiano vive de sonhos, a nossa força é alimentada pela nossa capacidade de sonhar" - Leila Leite

PorExpresso das Ilhas,2 fev 2020 8:59

É nascida e criada no misticismo da folia do Rei Mômo. Mnininha d’Soncent, desde cedo “abraçou” a Escola de Samba Tropical, onde já fez de tudo um pouco, desde aderecista, figurante de ala, até entrar para a direcção, que hoje integra. Paulatinamente foi-se tornando uma figura do Carnaval, pelo qual se diz apaixonada. Está às vésperas de realizar o sonho de uma vida inteira; desfilar como Porta-Bandeira da sua Escola de Samba do coração. Deixem rufar os tamborins e abram alas, que vai passar a Porta-Bandeira. Na Passarela do Samba mindelense... Leila Leite.

A pergunta acaba por ser clichê, de tanto ser feita a todos aqueles que gravitam em torno do Carnaval, mas vamos lá: De onde vem a tua ligação com o Carnaval?

Literalmente do berço. Quando nasci, encontrei o Carnaval em casa, por assim dizer. Somos todos grandes amantes do Carnaval. O meu pai esteve sempre muito envolvido com o evento. Por vários anos empurrou os andores do Grupo Estrelas do Mar, ajudou nos desfiles e tomou parte nas festas. A minha mãe, por seu turno, foi uma das fundadoras do Grupo Infantil Mnin de Nôs Terra e no final da década de 80 ajudou a criar a Escola de Samba Tropical, cuja direção integrou por muitos anos e onde até à data de hoje, desfila todos os anos, como integrante da nossa ala mais nobre e carismática; a Velha Guarda. Acresce a tudo isto, o facto de ter como madrinha a figura mais icónica do Carnaval em todo o Cabo Verde; Luísa Morazzo. Não havia muito por onde “escapar”.

Como foi desfilar no Samba Tropical pela primeira vez? E já agora, quando foi isso? Lembras-te do enredo?

Não me lembro do ano, nem do enredo. Creio que seria um tema com uma vertente tropical, pois da fantasia lembro-me muito bem; fui vestida de Hawaiana. Só sei que foi há bastante tempo. Foi uma emoção enorme. Não dormi na véspera, provavelmente no dia do desfile, também não e possivelmente nem no dia seguinte. Desde a fundação da Escola de Samba Tropical, sempre quis desfilar, mas não podia, por ainda não ter idade. Assim sendo, logo que me foi permitido, não me fiz rogada e comecei aí um périplo que leva já mais de 20 anos. Tirando os anos em que estive fora de São Vicente, o meu programa da noite de Segunda Feira de Carnaval foi sempre o mesmo. Cheguei até a organizar e gerir uma ala, antes de entrar para a direcção. O desfile sempre foi à noite, pelo que, para nós mais novos, era uma coisa de adultos. No entanto, muito antes de desfilar, já estava envolvida com a preparação do desfile. Na altura, os artefactos e adereços usados, eram feitos em casa e eu sempre colaborei com essa parte, o que por um lado, me agradava muito, mas por outro, era uma espécie de tortura. Ajudar na confecção e depois ver outros desfilar com o fruto do meu trabalho, era angustiante. Ainda para mais, na época os desfiles eram de dois em dois anos.

Em 2013, quando a Escola de Samba Tropical comemorou 25 anos, no desfile das Bodas de Prata, lembro-me de te ver a ti, a tua mãe, o teu avô, tias e primos, todos a desfilar, exalando alegria. Não é muito comum verem-se quatro gerações do mesmo “clã” se assim se pode dizer, participar de forma tão activa no Carnaval. Será caso para dizer que é genético? Que está realmente no sangue?

A alegria e o gosto pela dança estão profundamente enraízados em todos nós. É algo intrínseco à nossa natureza. A minha família, principalmente do lado materno, encara o Carnaval com muita seriedade e paixão. Desde o meu avô, que é sobejamente conhecido no meio mindelense, pela alegria, espontâneidade e elegância no dançar, até ao meu saudoso tio Manuel d’Novas, um dos ex-libris da música caboverdiana, ele próprio um dos mais renomados e profícuos compositores da Escola de Samba Tropical. Muita gente sequer sabe disso, mas alguns dos nossos desfiles iniciais, foram embalados por composições do nosso Poeta Maior.

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Olhando para as mais de 3 décadas de existência da Escola de Samba Tropical, que mudanças vês ao longo do tempo e como avalias a evolução?

Temos uma história muito bonita, de muito brilho e esplendor, mas também de muita luta e sacrificio. Desfilámos muitas vezes com muitas limitações de recursos, em anos dificeis, em que o contexto social e político era adverso, mas sempre pugnámos por tentar trazer alegria ao nosso povo e elevar o nome da nossa cidade e cultura coletiva. Houve alturas em que os apoios institucionais foram muito escassos, embora nunca tivessem cessado por completo. Com o tempo e com muita obstinação, fomos crescendo, ganhando outra solidez, em termos organizacionais e de estrutura, até chegarmos aos dias de hoje, onde muita gente, dentro e fora do país, cabo-verdianos e não só, programam as suas férias, de modo a poderem desfilar ou ver desfilar a Escola de Samba Tropical. O carnaval de São Vicente atingiu um nível qualitativo muito elevado, com todos os grupos oficiais a aprimorarem cada vez mais a forma de trabalhar e a apresentarem desfiles cada vez mais sumptuosos. Hoje o nivelamento é claramente por cima e a Escola de Samba Tropical, ao ser tida como referência, acabou por contribuir para esse engrandecimento global do evento. O Carnaval mexe com a nossa cidade de uma forma que mais nenhum outro evento ou fenómeno social faz. Peguemos no exemplo das baterias; hoje temos mais de mil jovens, espalhados pelos vários grupos oficiais e de animação, a aprender a tocar, ativamente envolvidos na aprimoração rítmica e interessados em evoluir. Muitos acabam posteriormente por estudar música. Mais importante do que isso, enquanto estão na batucada, não estão envolvidos noutras coisas menos positivas. É importante alimentar esta paixão que o Carnaval desperta, para que possa alastrar-se a um número cada vez maior de pessoas, pois só quem está envolvido, compreende o que é esta festa. Tenho um colega de trabalho, que sempre me disse não entender porque é que o Carnaval mexe comigo desta forma, até que a dada altura, há dois ou três anos, fez uma cobertura documental e uma reportagem da preparação, bastidores e desfile do GC Vindos do Oriente e aí, veio ter comigo e disse: Agora Sim! Ficou claro porque é que o Carnaval te torna “outra pessoa”. Entendi perfeitamente esse amor.

A Escola de Samba Tropical é claramente uma referência do Carnaval, não só em São Vicente, como a nível nacional, mas é também uma instituição fortemente engajada em outros quadrantes da sociedade. Fala-nos um pouco desse lado social e filantrópico.

É inegável a vertente social e filantrópica da Escola de Samba Tropical. É algo que a minha geração, quando chegou, já encontrou. Vem da génese do Grupo. As fundadoras sempre cultivaram o hábito de se juntarem para ajudar quem precisásse, particularmente os mais velhos. Há alturas do ano em que as pessoas, duma forma geral, estão mais sensibilizadas e é normalmente aí que incidem as nossas ações de cariz social. A título de exemplo, na Páscoa, tradicionalmente visitamos e levamos donativos a Lares de Idosos, de crianças desfavorecidas e também ao Centro de Apoio aos Doentes Mentais. No fundo, a nossa própria filosofia de existência, acaba por nos impelir a este tipo de postura. Pode parecer clichê, mas a Escola de Samba Tropical é mais do que um Grupo Carnavalesco, é uma verdadeira família. Os valores pelos quais nos norteamos, passam pela união, pela solidariedade e pelo prazer de ajudar. O culminar da nossa forma de estar acabou por se materializar recentemente com a atribuição por parte do Governo do Estatuto de Instituição de Utilidade Pública. É fruto de muito trabalho e dedicação a uma causa que nos engrandece a todos: O CARNAVAL MINDELENSE.

Este ano recaiu sobre ti a responsabilidade de transportar o pavilhão da Escola de Samba Tropical, o símbolo maior da agremiação. Como é ser Porta-Bandeira?

A Porta-Bandeira talvez seja a figura do Carnaval que mais me fascinou desde sempre. Lembro-me perfeitamente de ficar horas a fio, vendo as porta-bandeiras da Escola de Samba Tropical desfilar e sonhando em um dia poder estar no lugar delas, de modo que o desfile este, para mim, será sobretudo a realização de um sonho de uma vida inteira e por uma feliz coincidência, o nosso enredo deste ano versa sobretudo sobre o SONHO. Por outro lado, tenho plena consciência de que sou vista em São Vicente, como uma pessoa do Carnaval, o que faz acrescer também a responsabilidade que recai sobre os meus ombros.

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Fala-nos um pouco do processo de preparação.

Tenho dividido a minha prepa­ração em duas vertentes: uma física e outra de cariz mais técnico. Tenho treinado bastante no ginásio e na rua, visando um fortalecimento muscular e um aumento da capacidade cardiovascular, para poder suportar as exigências das nossas sete ruas de folia. Na parte técnica, senti necessidade de algum aprimoramento, pelo que recorri a um coreógrafo, o Walter, que é bailarino contemporâneo. Temos apren­­dido muito com ele, em termos de postura corporal, manuseamento da bandeira e harmonia de movimentos em geral. Vamos fazer alguns ensaios focalizados nas ruas do desfile, para além de participarmos nos ensaios regulares na nossa quadra. Outro aspecto que me tem ajudado é a amizade que estabeleci com a Lucinha Nobre e o Marlon Lamar, Primeiro Casal da Portela, no Rio de Janeiro e que têm vindo regularmente a São Vicente ministrar workshops técnicos. Numa viagem recente ao Brasil, marquei uma reunião com eles e com a ensaiadora deles, a Viviane Martins, uma pessoa encantadora, e pude aprender muito com todos eles. Para além disso, assisto vários videos tanto dos desfiles do Brasil, como dos nossos também, onde os casais de Mestre-Sala e Porta-Bandeira, embora não tenham tanta desenvoltura técnica, acabam por ser mais próximos do público. Como nos conhecemos todos uns aos outros, existe uma interação espontânea entre foliões e quem assiste.

Sonhar com Cabo Verde no Coração é a proposta da Escola de Samba Tropical para 2020. Sem levantar muito a ponta do véu, o que é que os amantes do Carnaval poderão esperar no dia 24 de Fevereiro?

O cabo-verdiano vive de sonhos, a nossa força é alimentada pela nossa capacidade de sonhar. Trazer essa realidade sonhada para as ruas da cidade é a nossa grande proposta para 2020. O importante é que todos os foliões sintam que estão a realizar um sonho e que se entreguem de corpo e alma. Mais do que desfilar, neste Carnaval é fundamental que todos sintam, todos vivam e todos vibrem fortemente com este tema tão especial e simbólico.

O crescimento deste evento, que é hoje a maior manifestação cultural coletiva de Cabo Verde, tem trazido algumas mudanças e tem certamente outro tipo de exigência a nível logístico. Achas que São Vicente está preparada para produzir e albergar um Carnaval com as dimensões que vem assumindo?

Como foliã, sou obrigada a dizer que não. O nosso Carnaval cresceu significativamente e a cada ano que passa, torna-se mais dificil confiná-lo ao espaço onde decorre atualmente. É com uma profunda tristeza e dôr de alma que reconheço que a médio e longo prazo, acabaremos inevitavelmente por ver o desfile ser transferido para um recinto próprio. Para que o possamos tornar no espetáculo grandioso que queremos e dar-lhe sustentabilidade, enquanto produto turístico, é necessário que haja um espaço com outras condições. Ganham os criadores, ganham os foliões e ganha quem assiste, embora eu confesse que, emocionalmente vai-me fazer muita falta ver o meu povo espalhado pelas artérias da cidade. É especial poder desfilar, passando pelos locais onde circulo normalmente no meu dia-a-dia. Mudar isso implicará eventualmente, senão uma perda, pelo menos uma alteração A da identidade do nosso desfile. Pode até ser que saiamos a ganhar e eu acredito que sim, mas no início vai custar um pouco. A cidade em si, precisa estruturar-se melhor para albergar um evento das dimensões que o Carnaval vem assumindo. São necessários mais hotéis, mais restaurantes, mais e melhores alternativas de transporte e também melhores condições de trabalho para que os grupos possam materializar da melhor forma as suas propostas criativas.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 948 de 29 de Janeiro de 2020.  

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Autoria:Expresso das Ilhas,2 fev 2020 8:59

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  5 abr 2020 23:21

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