…. Num bairro do amor, também se pode viver só

PorPaulo Lobo Linhares,14 jun 2020 19:09

Esta semana, um dos mais preciosos cantautores português fez 70 anos.

Usando uma expressão de Mia Couto – o homem que tem uma enorme capacidade de “fabular” completou 70 voltas ao Sol.

Perito em falar de emoções e desenhar estórias, que depois canta e conta, o imaginário do compositor passa por estrelas-do-mar, constrói bairros do amor em terras dos sonhos, pede permissão para rir… mas por vezes também se sente só…

Falo de Jorge Palma.

Tudo começa quando a mãe do pequeno Jorge inscreve o filho em aulas de piano. Desde logo, mostra apetência e gosto pelo instrumento e a caminhada vai dar ao conservatório. Abraça a música erudita. Na adolescência apaixona-se pelo mundo das canções populares britânicas e americanas. Surgem nomes que virão a ser influência de Palma para o resto da carreira como Bob Dylan – provavelmente um dos maiores contadores de estórias – característica que virá marcar Palma.

Outro território fértil, onde Palma colhe inspiração, é a literatura. Acredito que o facto de ter começado a navegar na música através do embalo da música erudita, depois ter passado pelo encanto dos cantautores, associado à paixão literária - foi a receita para a formação do artista.

Segue-se o período de viagens pelo mundo, para também fugir à guerra, onde absorve novas experiências que vai acumulando para voltar uns anos depois para Portugal. Aliás, a paixão de Palma pelo mundo e pelas viagens leva com que, mais tarde, passe uma temporada em várias capitais europeias, a tocar como músico de rua. Terá confessado ter sido uma experiência musical marcante.

No seu quinto álbum – “O Lado Errado da Noite”, explode o seu primeiro grande êxito – o tema “Deixa-me Rir” - marco da música popular portuguesa.

Fecha a década de 80 com outro álbum marcante…por muitos críticos considerado o melhor álbum do músico e um dos grandes da música portuguesa – “Bairro do Amor” – cujo tema que dá nome ao disco, é de uma lindíssima grandeza onírica.

Se fecha uma década com um álbum de excelência, abre a nova com um projecto de enorme beleza, sentimento e intimismo. No álbum “Só”, Palma revisita os seus temas, mas num formato de excelência – voz e o encanto do instrumento que sempre o acompanhou - o piano. Voz e piano para momentos da mais pura envolvência. Palma parece que veste os temas que tinha antes apresentado de forma mais “pop”, com bonito veludo, onde propõe que nos sentemos nas mais confortáveis almofadas, para nos entregarmos às letras e ao embalo do piano do artista.

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Temas como a beleza de “Estrela do Mar” a profundidade de «O Meu Amor Existe» e «Só» a esperança de «A Gente Vai Continuar», «Frágil» os sonhos e cores do «Bairro do Amor» e da «Terra dos Sonhos», o reflectir de “Deixa-me Rir» e o folk contado em estória do «Jeremias, o Fora-da-Lei». Tentei fazer o exercício de escolher menos temas para destaque, tendo-se traduzido em tarefa impossível…

Mais tarde será a época dos projectos pontuais que reúnem grupos de músicos onde Palma aparece, como por exemplo Palma’s Gang e Rio Grande.

Continua a editar, em instrumentações e formatos que se encostam mais a um possível “mainstream”, contudo sempre recheados da poesia de Palma.

Deixo então como proposta o álbum “Só”, para ouvir e viajar em experiências, como tantas vezes Palma fez com a sua música…

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 967 de 10 de Junho de 2020. 

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Autoria:Paulo Lobo Linhares,14 jun 2020 19:09

Editado porSara Almeida  em  15 jun 2020 12:54

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