IPC desenvolve projecto “Olaria Tradicional”

PorSheilla Ribeiro,18 out 2020 8:50

O Instituto do Património Cultural (IPC) está a desenvolver o projecto “Olaria Tradicional”. A iniciativa visa analisar, de forma científica, o papel deste ofício que usa o barro ou argila como matéria-prima enquanto património cultural imaterial no domínio do artesanato tradicional cabo-verdiano. Outros objectivos são permitir um desenvolvimento sustentável e também promover os fazedores desta actividade.

Em declarações ao Expresso das Ilhas, a técnica superior do IPC, Ana Samira Silva, revelou que o projecto tem, sobretudo, como foco levar a cabo um trabalho de investigação sobre a olaria tradicional, enquanto património imaterial de Cabo Verde.

“Neste projecto, o trabalho de investigação visa dar a conhecer as técnicas e todo o conhecimento a volta dessa prática, nomeadamente a dimensão simbólica associada, trazer ao conhecimento do público as técnicas e toda a história a volta da olaria tradicional. Ao mesmo tempo, dentro da política e da função do IPC trabalhar o plano de salvaguarda prevenindo ou minimizando o risco de perda ou de adulteração dessa mesma prática”, explicou esta técnica que trabalha na direcção de património imaterial do IPC.

O propósito é fazer o trabalho de investigação que implica a salvaguarda da memória relativa a olaria, e trabalhar com as oleiras no sentido de se criar infra-estruturas que permite preservar a memória.

Segundo Ana Samira Silva, vai-se ter um espaço museológico de promoção e de preservação da memória.

“Porque, como um espaço museológico, vamos preservar esta memória e enquanto prática ao longo do tempo, existem um conjunto de alterações de inovações ou de novos contextos de produção que as pessoas também podem visualizar no mesmo espaço. É ter as informações da memória, ao mesmo tempo visualizar esta mesma prática no dia-a-dia com as oleiras”, especificou.

Importância

Silva conta que a olaria teve um papel determinante no empoderamento das mulheres oleiras, detentoras do saber fazer ancestral de confecção das loiças de barro.

“São práticas tradicionais feitas essencialmente por mulheres, claro que alguns homens foram entrando ao longo do tempo. Temos um modelo tradicional de empoderamento das mulheres. Porque vamos encontrar, ao longo dessa história mulheres que trabalharam o barro e com esse trabalho sustentaram as suas famílias e fizeram a sua vida”, destaca.

Actualmente, o país conta com três centros activos do artesanato tradicional. Um em Fonte Lima, concelho de Santa Catarina, Trás-os-Montes em Tarrafal de Santiago e Rabil na Ilha de Boa Vista. Comunidades rurais, onde as principais actividades económicas incidem sobre a agricultura e a pecuária, secundarizadas pelo trabalho de barro.

A olaria tradicional é vista, no projecto, como artesanato feminino com elevado potencial para o desenvolvimento sustentável nos locais identificados como centros de produção, pretendendo sublinhar o papel do género no ciclo de produção e comercialização das loiças de barro, sem descurar o seu papel e o seu impacto no contexto social, cultural e económico das famílias.

“Temos uma produção tradicional que ao longo do tempo, e sobretudo no início, veio a dar respostas às necessidades utilitárias do homem cabo-verdiano. Porque tudo que o homem precisou no mundo rural e precisa, foi confeccionado com o barro”, informa.

Com este projecto, o IPC pretende promover as actividades tradicionais em Cabo Verde, dando a conhecer a memória, as técnicas associadas e divulgar no sentido de tornar estas actividades referências ou produtos de promoção das próprias comunidades.

“Isto vai permitir um desenvolvimento sustentável, a promoção dos fazedores destas actividades e vai permitir ao país ter um roteiro de visita onde as pessoas, turistas e nacionais podem ter pontos de referências de visita”, profere.

No plano de salvaguarda, o Projecto visa a implementação de estratégias estruturantes, nomeadamente, através da construção de um “Centro Interpretativo de Olaria Tradicional”, edições de Catálogos e conteúdos em vídeos, bem como o inventário de base comunitária.

A iniciativa prevê ainda, sob os auspícios da Unesco, a realização de uma oficina de capacitação das jovens da localidade e arredores na prática do ofício e para a sua salvaguarda enquanto bem patrimonial.

“Neste momento, vamos já no final deste ano editar o catálogo que é precisamente para além do estudo que é mais amplo e mais complexo, ter num catálogo, de uma forma sintética e mais atractiva, o ciclo de produção da olaria tradicional que as pessoas podem conhecer através da fotografia, através de descrição mais sintéticas, mais claras sobre esta prática para além de preservar também a memória das mulheres fazedoras da olaria e posteriormente também a construção do museu em si, do centro interpretativo da olaria de Fonte Lima”, garantiu. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 985 de 14 de Outubro de 2020.

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Autoria:Sheilla Ribeiro,18 out 2020 8:50

Editado porAndre Amaral  em  19 out 2020 9:39

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