Museu Virtual da Música Cabo-verdiana poderá tornar-se um projecto de referência

PorAntónio Monteiro,27 fev 2021 5:46

Já está disponível na internet desde início deste mês o primeiro Museu Virtual da Música Cabo-verdiana, um projecto da autoria da jornalista e antropóloga brasileira Gláucia Nogueira. O Museu Virtual resulta em parte de Cabo Verde & a Música – Dicionário de Personagens, uma obra publicada em 2016, fruto de 20 anos de investigação, com cerca de mil entradas de músicos, intérpretes, produtores e compositores. Mas o Museu Virtual é muito mais do que isso, pois vai além dos textos e fotografias que o livro apresenta.

Terá vídeos, áudios de música e entrevistas, recortes de jornais e outros materiais impressos e uma parte com quizes para as pessoas testarem os seus conhecimentos sobre a música de Cabo Verde”, avança Gláucia Nogueira. 

De facto, o Museu Virtual agora disponibilizado na internet, diz a autora, é apenas uma versão inicial daquilo que será no futuro. Não contando com financiamento público nem privado, Gláucia Nogueira pretende dentro de dias lançar uma campanha de crowdfunding [financiamento colectivo] com vista a conseguir mobilizar um montante que permita manter o museu virtual em funcionamento nos dois primeiros anos. “Vou levar muitos meses a colocar www.caboverdeamusica.online da maneira como imagino. Bom seria se pudesse ocupar-me só deste projecto, mas não posso, porque preciso trabalhar em outras coisas para viver”, observa a investigadora.

Você lançou recentemente o primeiro Museu Virtual da Música Cabo-verdiana. Que materiais estão disponíveis neste Museu?

Neste momento zero do museu virtual, estou introduzindo textos e fotos, que em grande parte resultam de Cabo Verde & a Música – Dicionário de Personagens. E também links de vídeos e áudios onde os leitores podem encontrar aquilo que está a ser apresentado em texto. Por exemplo, quem consultar a página de determinado compositor, vai encontrar nessa mesma página vídeos com diferentes interpretações das suas músicas. Há também uma bibliografia e uma filmografia, sempre sendo atualizadas; textos sobre os géneros musicais estão a ser introduzidos pouco a pouco. Mas ainda falta muita coisa. Os instrumentos, por exemplo. Este é realmente um momento zero deste projecto, ainda não está tudo lá.

Afirmou que o Museu Virtual é um projecto que vai além do seu Dicionário de Personagens que já é em si uma obra monumental. Porquê?

Justamente pelo facto de ser um projecto multimedia. Vai além de texto e foto, que é o que um livro apresenta. E poderá atingir pessoas em todo o mundo, num mesmo instante, dado estar disponível na internet. Terá recortes de jornais e outros materiais impressos; trechos de entrevistas em áudio; uma parte com quizzes para as pessoas testarem os seus conhecimentos sobre a música de Cabo Verde; recursos interativos e até lúdicos. E outras ideias que tenho, que a seu tempo serão anunciadas. Não se trata de colocar o dicionário na internet, não é isso. No dicionário alguns aspectos são mais aprofundados, e um dia espero poder fazer uma nova edição, revista e aumentada. Cada um tem as suas características.

Sabemos que o Museu Virtual que já está disponibilizado na internet é apenas uma versão inicial do que este projecto será no futuro. O que virá depois?

De modo abrangente, gostaria que no futuro o URL www.caboverdeamusica.online venha a ser uma referência em termos de informação para todos os que se interessem pela música de Cabo Verde.

Para que público foi pensado o Museu Virtual?

Bem, na internet o público é sempre o mais amplo que se possa imaginar. Por outro lado, um museu é um espaço em que a linguagem deve ser acessível a todos os que o visitem. Assim, sem que seja uma coisa, com todo o rigor nas informações que veicula e com todo o respeito pelas fontes, o museu virtual pretende ser um local de pesquisa que atenderá aos interesses de diferentes públicos. Por exemplo, um aluno do liceu, um universitário, um investigador, um jornalista, um turista à procura de informações sobre Cabo Verde, um cabo-verdiano que queira saber mais sobre os seus artistas preferidos, os emigrantes saudosos da terra, os seus descendentes em busca de um vínculo identitário, etc. Acredito que o museu virtual terá um público bastante heterogéneo e a forma como é feito procura levar isso em conta.

Falou na prestação de serviço para investigadores e estudantes. Como se processará esta prestação de serviço?

Esta é uma possibilidade que coloco, pois com alguma frequência sou contactada por pessoas de diferentes partes do mundo, que não conheço e souberam do meu trabalho ao fazer as suas pesquisas, para ajudar a esclarecer coisas, dar ideias, etc. Tenho estado sempre disponível, mas penso que poderia fazer disto um serviço, que seria útil às pessoas e ajudaria a financiar o museu virtual. Uma espécie de agência de pesquisas, digamos assim, ou um centro de documentação, que poderia até ir além da parte musical, abrangendo outras áreas da cultura, história e não só. É uma ideia que poderia vingar, havendo procura. Porque ao longo destes anos, acabei por formar um imenso arquivo. Pesquisando não só para os meus próprios trabalhos sobre a música mas também para outras atividades.

Toda a imprensa tem referido que o Museu Virtual é resultado dos 20 anos de investigação para a escrita do Dicionário de Personagens. Conte-nos os pormenores.

Bem, o que veio a ser o dicionário começou com o meu trabalho como jornalista em Portugal em meados dos anos 1990, prosseguiu depois ao longo da década de 2000 já residindo em Cabo Verde e ficou concluído com o formato de dicionário por volta de 2013. Depois foi o tempo de tratar da edição. Portanto, foram cerca de 20 anos o tempo que levou a ser feito. Mas o museu surge já oito anos após o fim da redação do dicionário e cinco anos após a publicação. Nos últimos cinco anos houve também a elaboração da tese de doutoramento, que concluí recentemente. Então, a ideia de fazer um museu virtual é um resultado disso tudo. Houve um momento em que pensei: e depois da tese, o que vou fazer sobre a música de Cabo Verde? E então começou a germinar esta ideia, acredito que há uns três anos.

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Como é que uma brasileira vai parar na investigação da música cabo-verdiana?

Acasos da vida, não sei. Eu trabalhava na agência Lusa em Lisboa, no início da década de 1990, e comecei a colaborar com o Novo Jornal Cabo Verde. Ocupava-me sobretudo da parte cultural. Depois decidi conhecer Cabo Verde, vivi alguns meses na Praia em 1994, nesse mesmo ano regressei ao Brasil e três anos depois já estava outra vez em Portugal, e aí já com um projecto de investigação sobre a música de Cabo Verde. Inicialmente não sabia o que seria, mas tinha a consciência de que havia muita coisa para descobrir nos arquivos, e muita coisa para produzir enquanto informação a partir desses materiais, de entrevistas, de vivências em espaços musicais cabo-verdianos. A música de Cabo Verde fez-me voltar à universidade, fui estudar antropologia, fiz mestrado, doutoramento, tudo com foco em diferentes temas dentro da música cabo-verdiana. Cabo Verde deu-me assuntos para toda a vida.

O Museu da Música Cabo-verdiana não tem financiamento público, nem privado. Como é que consegue sustentar este projecto?

Dentro de poucos dias vou iniciar uma campanha de crowdfunding [financiamento colectivo] e espero conseguir mobilizar um montante que permita manter o museu virtual em funcionamento nos dois primeiros anos. Desde Abril do ano passado estou a trabalhar nisto. Espero que com o tempo surjam patrocinadores, institucionais e também entre as empresas. Por outro lado, tenho alguns apoios não financeiros, como a cessão de imagens por parte de fotógrafos; de dados por parte de outros investigadores. A música de Djinho Barbosa que apresenta o site tem a sua utilização cedida como uma forma de apoio. E o Expresso das Ilhas, que está a ajudar a divulgar com um banner na sua homepage, que muito agradeço. São ajudas inestimáveis, importantíssimas sobretudo nesta fase inicial, que não é fácil. Mas enfim, depois de ter conseguido editar o dicionário – o que num primeiro momento chegou a me parecer algo intransponível – tenho fé que também desta vez a campanha de angariação de fundos será um êxito. Não posso desanimar, difícil não é impossível.

Tem referido que o Museu Virtual é uma obra em construção. Irá nos próximos tempos dedicar-se unicamente ao projecto, ou será mais um estímulo para escrever novos livros sobre a música cabo-verdiana?

Vou levar muitos meses a colocar www.caboverdeamusica.online da maneira como imagino. Bom seria se pudesse ocupar-me só deste projecto, mas não posso, porque preciso trabalhar em outras coisas para viver. Por outro lado, como concluí recentemente o doutoramento, tenho para publicar o livro que resulta da investigação que realizei neste âmbito, que é sobre as músicas e danças europeias do século XIX em Cabo Verde – como se instalaram no arquipélago e tornaram-se uma “tradison di terra”. Por outro lado, o século XIX é um período fascinante do ponto de vista histórico e cultural em Cabo Verde, ainda pouco explorado e conhecido, uma vez que não é abrangido pelos volumes já publicados da História Geral de Cabo Verde. Algo neste âmbito seria também um trabalho interessante. Mas tudo tem seu tempo.

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Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1004 de 24 de Fevereiro de 2021. 

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Autoria:António Monteiro,27 fev 2021 5:46

Editado porClaudia Sofia Mota  em  5 mar 2021 10:15

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