A Produção Cultural na Praia Maria

PorManuel Brito Semedo,29 abr 2021 8:46

A Vila da Praia foi elevada à categoria de cidade a 29 de Abril de 1858 e fixada nela definitivamente a residência do Governador-Geral. Até então a Capital da Província era na Vila da Praia Santa Maria no tempo das brisas e, no tempo das águas, em qualquer das outras ilhas que fosse acordada pelo Governo-Geral em Conselho. Assim aconteceu com as ilhas da Boa Vista e Brava.

Capital da Província

Por altura dos anos Oitocentos, a Praia Maria seria um pequeno burgo com uma actividade intelectual e cultural significativa, fomentada por uma elite local letrada constituída pelo clero, funcionários públicos, comerciantes e proprietários. É assim se explica que aqui se tenha fundado a primeira Escola de Ensino Primário, em 1817; para cá transferida da ilha Brava a Escola Principal de Instrucção Primaria de Cabo-Verde, em 1856; e criado o primeiro Lyceo Nacional da Provincia de Cabo-verde, em 1860.

Havia a Sociedade Drama­tica do Theatro Africano e a Sociedade Dramatica do Theatro D. Maria Pia de Saboya, fundadas, respectivamente, em 1867 e 1868; a “Sociedade Gabinete de Leitura”, em 1870; a Bibliotheca e Museu Nacionaes de Cabo Verde, em 1871; a “Associação Literária Grémio Caboverdeano”, em 1880; e o “Grémio Literário Cabo-verdiano”, em 1900. Há ainda notícias de ter havido, em 1893, uma “Sociedade Recreativa Praiense”, e, em 1899, uma “Tuna Praiense”, com realização de espectáculos regulares no Theatro Africano.

A par disso, publicava-se na Praia o Boletim Official do Governo da Província, com colaboração literária na “secção não oficial”. Na sua decorrência, viria a surgir nesta cidade o primeiro jornal não oficial, Independente (Praia, 1877-1889). É significativo ainda o facto de os periódicos não oficiais publicados em Cabo Verde de 1842 a 1910, num total de dezanove, doze serem nesta cidade.

Teatro

Nesse ano de 1869, tomado aqui como referência porque foi o ano da abolição oficial da escravatura, em que a ilha de Santiago tinha uma população de cerca de quarenta mil habitantes, funcionavam na Cidade da Praia, em simultâneo, dois teatros – o Theatro de D. Maria Pia de Saboya, cuja primeira pedra fora lançada em 1863, e o Theatro Africano, inaugurado em 1868.

O Theatro de D. Maria Pia de Saboya, cujo nome foi atribuído em homenagem à princesa italiana casada com o Rei D. Luiz I, “o Popular” (1861-1889), surgira por iniciativa de alguns oficiais e oficiais subalternos do Batalhão de Artilharia na Província, portanto, naturais do Reino, como forma de “mitiga[r] as saudades da mãe pátria e nos indemniza[r] em parte dos soffrimentos que não poucas vezes nos acarreta a insalubridade d’este paiz”.

O grupo abriu uma subscrição para começar o edifício do teatro e, a 21 de Março de 1863, na Rua do Quartel-General, no local destinado à construção, foi realizado um acto solene do lançamento da primeira pedra, presidido pelo Governador-Geral Conselheiro Carlos Augusto Franco (1860-1864), assinalado com foguetes e música do Batalhão de Artilharia.

Passados quatro anos, o edifício ainda não estava acabado pelo que a 6 de Julho de 1867 se constituiu a “Associação Igualdade”, com o fim de “contribuir para que se conclua o theatro [D. Maria Pia] e o estudo recreativo e proficuo da arte dramatica.

Com um novo fôlego, a “Associação Igualdade” organizou na Sociedade Recreativa saraus mensais com o propósito de angariar fundos em benefício do teatro. Só em Junho subiram ao palco três peças, seguindo-se um novo espectáculo em cada um dos meses de Julho, Agosto e Setembro. Os actores eram todos “curiosos” e, portanto, amadores, pelo que é de se realçar a dinâmica cultural existente, bem assim o interesse do público praiense.

Entretanto, em 1875, não se tendo concluído a construção do edifício e estando extinta a “Sociedade Dramatica”, o Conselho Municipal da Praia “faz saber que, no domingo, 8 d’agosto, pelas 11 horas da manhã, será adjudicado a quem maior lanço offerecer o fôro de terreno do extincto theatro de D. Maria Pia, medindo uma área de seiscentos e oitenta tres metros quadrados, avaliado no fôro annual de 20$000 réis.

Ao que tudo indica, o Theatro Africano foi organizado por um grupo rival do anterior, constituído por filhos das ilhas. Este teatro era propriedade da “Sociedade Dramatica do Theatro Africano”, fundada a 29 de Junho de 1867, com o “intuito [de] construir um edifício adequado, proprio e decente para representações dramaticas, bailes, soirèes e todos os outros divertimentos analogos, onde os accionistas se reunam [...] para gosarem de taes recreações, desenvolvendo e radicando o gosto pela arte dramatica.

Meio ano após a constituição da “Sociedade Dramatica” foi realizado, a 1 de Janeiro de 1868, um espectáculo de inauguraçãodo Theatro Africano, de que Artiaga Souto Maior (1853-1923), Conservador da Biblioteca Pública, faz uma pormenorizada e elucidativa descrição do edifício:

“Este pequeno e elegante theatro foi construído na Cidade da Praia, capital da província de Cabo Verde, por iniciativa de alguns cavalheiros, que se constituiram em sociedade, em 1867, tendo estatutos approvados pelo governo.

Foi o theatro edificado em ponto central da cidade, e temos ouvido dizer a muitos visitantes que é o melhor e mais elegante das provincias ultramarinas. A sala do espectaculo é em forma oval, cortada na parte do proscenio. Tem oito frizas do lado esquerdo, a geral do lado direito e uma só ordem de 14 camarotes. A plateia accommoda 110 pessoas. O panno de boca representa a praça de Luiz de Camões em Lisboa, e foi pintado por Rambois e Cinati. O tecto é pintado a oleo e o resto da sala a branco com frizos e figuras douradas.

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O Theatro Africano teve uma longa vida de actividades mas marcada por muitas vicissitudes. Em 1897, o Banco Nacional Ultramarino executou uma hipoteca contra a “Sociedade Dramatica do Theatro Africano”, pondo o edifício à venda em hasta pública, pelo que a Sociedade deve ter desaparecido por essa altura. O teatro continuou, porém, como entidade privada e foi ali que, na noite de 28 de Agosto de 1931, se realizou o sarau musico-literário em homenagem ao poeta José Lopes. Dois anos mais tarde, já com o nome de Teatro Virgínia Vitorino,foi o lugar escolhido pelo jornalista e poeta Pedro Monteiro Cardoso para proferir uma conferência em defesa da língua crioula.

Gabinetes de Leitura

Félix Monteiro (1986) é de opinião que o primeiro gabinete de leitura foi aberto na Praia em 1853, com estatuto devidamente aprovado, seguindo-se-lhe vários outros. O escritor português Travassos Valdez (1864) informa que, na sua passagem pela Ilha de Santiago em visita de estudo, teve informações que na “Sociedade Esperança” os habitantes e os viajantes podiam passar algumas horas agradáveis, quer em jogos lícitos, quer na leitura de jornais políticos e literários, nacionais ou estrangeiros.

Em 1870 foi fundada a sociedade “Gabinete de Leitura da Praia”, com o fim de “proporcionar aos associados, em casa conveniente e adequada, a leitura de livros e publicações periodicas, tanto scientificas como literarias, de mais apreço e merito, e especialmente as que forem consagradas a assumptos de instrução seguindo-se a criação de vários outros gabinetes de leitura em quase todas as ilhas do arquipélago.

O Gabinete de Leitura da Praia teve, porém, vida curta. Devido ao desinteresse dos sócios, que não pagavam as quotas mensais – uma prestação de quinhentos réis para os sócios ordinários e mil e duzentos réis para os sócios extraordinários – nem terem comparecido à reunião da assembleia-geral, convocada para 12 de Março de 1871, foi considerado dissolvido, tendo a direcção da sociedade posto à disposição do Governo-Geral os fundos e os livros existentes. Por Portaria de 13 de Maio, o governador ordenou que os livros fossem entregues à Bibliotheca e Museu Nacionaes, inaugurada um mês antes,a fim de aumentar o seu espólio.

Biblioteca e Museu Nacionais

Recua aos primórdios do estabelecimento das ordens religiosas na antiga Ribeira Grande, no retiro conventual, embora de privada utilidade, a organização de uma “sumptuosa” biblioteca, que, com os azares dos tempos, a pirataria e os assaltos vieram destroçar, desfazendo-se os seus restos ainda pelo século dezanove (Figueiredo, 1951).

Só mais tarde, em 1857, a Portaria de 28 de Março viria ordenar aos Governadores-Gerais das Províncias Ultramarinasque“promovessem a fundação de uma Livraria das principais obras de História, administração, qualidade e de outros assumptos que teem relação mais ou menos imediata com a governação do Estado”.

Os passos efectivos para a materialização dessa Portaria foram dados, primeiro, com a inscrição de uma verba precisa na Tabela de Despesas, para o ano fiscal de 1870-1871, para a dotação de uma Biblioteca e Museu na capital da Província e, na sua sequência, com a publicação de uma Portaria do Governo-Geral, datada de 14 de Janeiro de 1871, que criava uma Comissão Directora da Biblioteca e Museu Nacionais.

No sábado de 8 de Abril de 1871, entrou em funcionamento, num compartimento do rés-do-chão do Quartel-General da então residência do Governador-Geral, a Bibliotheca e Museu Nacionaes de Cabo Verde – a única então em toda a África portuguesa tendo sido designado encarregado da guarda e conservação da Biblioteca e Museu, de 1871 a 1876, o ilustre poeta e romancista Guilherme Augusto da Cunha Dantas (Brava, 1849-1888), com o salário de 400 réis diários.

Em 1887, “tornando-se necessario dar nova fórma á administração da bibliotheca publica d’esta provincia, de modo que se concilie o seu aproveitamento simultaneo para uso do publico e para o ensino official”, foi determinada a sua incorporação na Escola Principal de Instrucção Primaria, continuando a estar depositados na mesma biblioteca os exemplares destinados à organização do museu provincial.

Em 1892, “estando completamente arruinados alguns dos artigos, a cargo da escola principal, que pertenceram ao antigo museu, os quaes, pelo seu mau estado de conservação ou pouco valor, não foram em occasião opportuna removidos para o museu Colonial de Lisboa”, foi nomeada, pela portaria n.º 256, de 4 de Outubro, uma comissão para proceder ao exame e classificação de todos esses artigos, tendo o Governador-Geral determinado que fossem guardados os que pelo seu valor estimativo e estado de conservação pudessem servir de exemplares no ensino da escola, vendido em hasta pública os que tivessem algum interesse para o público e inutilizados os completamente arruinados ou sem valor. Por outro lado, em 1893, estando extinta a Escola Principal, esta Biblioteca Pública foi anexada à Secretaria-Geral do Governo.

A Biblioteca da Praia viria a servir como modelo e estímulo para as bibliotecas municipais que, a partir de então, surgiriam nas outras ilhas. Dessas, a mais importante foi a do Mindelo, na ilha de S. Vicente, inaugurada em 1882.

Capital da República

Praia faz hoje parte da rota das Cidades Magalhânicas – ponto de passagem de Fernão de Magalhães na sua viagem de circum-navegação ao globo de 1519 até 1522 – tendo também sido ponto de paragem do Beagles, tendo o naturalista Charles Darwin (1809 – 1882) aqui registado no seu diário de viagem algumas espécies animais e vegetais.

Passados 163 anos, a Praia de hoje é uma cidade com marcas culturais fortes como o Atlantic Music Expo, o Kriol Jazz Festival, o festival da Gamboa, o Grito Rock, a Noite Branca, entre outras, que lhe fizeram ganhar o titulo de Cidade Criativa, atribuído pela UNESCO, e de segunda Cidade mais Cool de África, por agrupamento de agências turísticas europeias. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1013 de 28 de Abril de 2021.

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Autoria:Manuel Brito Semedo,29 abr 2021 8:46

Editado porDulcina Mendes  em  7 mai 2021 5:19

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