Artesãos entre a criatividade e a esperança

PorDulcina Mendes,4 set 2021 9:02

Os nossos artesãos tiveram que se reinventar para poder driblar esta fase difícil que o mundo está a enfrentar, ditada pela pandemia da COVID-19.

Para perceber melhor as dificuldades por que passaram os artesãos durante esta pandemia, o Expresso das Ilhas conversou com o presidente da Praia Arte (Associação dos Artesãos da Praia), Cláudio Ramos, e o artesão Beto Diogo, nos Paços do Concelho da Câmara Municipal da Praia, onde decorreu até sexta-feira, 27, uma exposição de artesanato.

Quando chegamos aos Paços do Concelho para conversar com Cláudio Ramos, primeiro aproveitamos para espreitar os produtos que estavam à mostra e de seguida fomos ter com o artesão que não estava à nossa espera, mas que nos recebeu com toda a simpatia.

Cláudio Ramos é um artesão com mais de 30 anos de experiência nesta área, e tem o artesanato como fonte de rendimento.

O artesão contou-nos que conseguiu criar os seus três filhos graças ao artesanato. “O artesanato foi sempre a minha fonte de rendimento há mais de 30 anos”, revelou.

Aprendeu a trabalhar com o artesanato, no final dos anos 80, no então Centro Regional de Artesanato, na Praia, onde fica actualmente o Museu de Arqueologia.

Cláudio Ramos afirmou que conhece muito bem essa área, graças à experiência que acumulou durante anos e que por isso já vivenciou as fases por que o artesanato já passou, pelo menos na Cidade da Praia.

“Conheço uma fase em que o artesanato era difícil e a de hoje em que os artesãos da Praia lideram o artesanato nacional. Diferente das ilhas da Boa Vista e do Sal, que são zonas turísticos, que têm mais artesanato senegalês”, avalia.

“Na Praia, os artesãos dominam o artesanato nacional, justamente com o trabalho que a associação tem feito. Começamos a promover feiras só para os artistas nacionais o que fez com que ganhássemos esse espaço de artesanato na capital do país”.

Para o presidente da Praia Arte, o que precisam na Praia, neste momento, é de um espaço permanente para mostrarem os seus trabalhos. “Um espaço permanente é uma lacuna que ainda não preenchida na Cidade da Praia, porque a Praia precisa”.

Depois de terminarmos a nossa conversa com Cláudio Ramos, o artesão Beto Diogo surgiu à porta dos Paços do Concelho e aproveitamos para falar com ele.

O artesão que fundou em 2011 o “Atelier Beto Diogo”, é mentor do projecto Artes em Cabedal e ambientalista. Disse à nossa reportagem que estava de partida para a ilha do Fogo, onde vai ministrar uma acção de formação para os jovens do concelho de Santa Catarina e que de seguida pretende fazer o lançamento oficial do seu novo atelier móvel.

Pandemia

Sobre a pandemia, Cláudio Ramos disse que atravessaram momentos difíceis, porque muitos artesãos da Praia só vendem quando há feiras. “Durante esta pandemia passamos por muitas dificuldades, é preciso termos um parceiro mais directo do Estado como a Câmara Municipal e os ministérios da Cultura e do Turismo”.

“A pandemia trouxe muitas dificuldades, temos artesãos que já têm uma estrada no artesanato nacional, conseguem algum trabalho para conseguirem sobreviver, mas neste momento todo o artesão trabalha para a manutenção da sobrevivência. Hoje em dia temos muitas dificuldades, porque se não há turista é complicado”, indica.

Conforme Cláudio Ramos, com a pandemia conseguiram realizar três exposições na Cidade da Praia, “esta é a terceira exposição que estamos a realizar, tínhamos feito uma feira na Pracinha da Escola Grande e nos Paços do Concelho da Câmara Municipal da Praia”.

Beto Diogo, por seu lado, contou-nos que foi muito afectado pela pandemia, e para driblar a situação teve que fazer outras coisas em paralelo, como ministrar formação para entrada de alguma receita.

“Durante a pandemia fiz somente uma exposição no âmbito da comemoração do Dia Mundial do Ambiente, ministrei uma formação na Câmara Municipal de Tarrafal do Santiago, onde aproveitei para fazer uma exposição”, conta.

Conforme disse, os artesãos não foram abrangidos pelo lay off, por isso tiveram que lutar e colocar a criatividade em prática para poderem driblar a situação. “O país depende do turismo e tudo está fechado, embora as coisas já comecem a abrir aos poucos. Penso que tudo voltará à normalidade e o sector da cultura, mais concretamente o artesanato pode retomar a sua pujança”.

URDI

A Feira de Artesanato e Design (URDI) acontece, este ano, nos dias 24 a 28 de Novembro, sob o lema “Imaginar Futuros” e, neste sentido, estão a decorrer as inscrições para esta edição do concurso de design, promovido no âmbito do Salão Created in Cabo Verde.

Deste modo, foi lançado o Edital KLARIDAD, Imaginar Futuros, que convida os designers, artesãos, arquitectos e demais criativos no país e na diáspora a conceber um projecto de design cuja reflexão recai sobre qual o contributo do design para o futuro de Cabo Verde. “De que forma as tecnologias artesanais, que temos à nossa disposição, poderão operar de maneira a responder a desafios futuros”? 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1031 de 1 de Setembro de 2021. 

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Autoria:Dulcina Mendes,4 set 2021 9:02

Editado porAndre Amaral  em  18 set 2021 23:21

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