Quando a arte dá voz à inclusão social

PorDulcina Mendes,18 jan 2026 9:30

Em Cabo Verde, a arte tem-se afirmado como um poderoso instrumento de inclusão social, capaz de quebrar preconceitos e abrir caminhos para que pessoas com deficiência possam expressar talentos, emoções e capacidades, seja através da dança em cadeira de rodas, da pintura ou do teatro. A experiência do bailarino Flávio Gomes e o trabalho realizado pelo Mon na Roda, Colmeia, Acarinhar e Acrides demonstram-no.

O bailarino Flávio Gomes é um atleta paralímpico, dançarino do “Mon na Roda”, grupo criado em 2010. Além disso, Flávio é também técnico de frio e climatização.

Flávio Gomes conta que a dança em cadeira de rodas, no início, foi um bocadinho espantosa, porque era algo que via apenas na televisão e não imaginava que fosse implementado em Cabo Verde.

Recebeu o convite da presidente Miriam Medina para ser bailarino do grupo e aceitou de imediato. “Então, através da presidente Miriam Medina, que foi ter connosco no local de treino do Comité Paralímpico, onde treinam os atletas paralímpicos, foi-nos feito o convite, que aceitei desde aquele momento e até hoje estou no grupo”.

O bailarino conta que, na primeira apresentação do grupo, não tinha noção do impacto que causaram na sociedade. “Era uma coisa estranha. Era a primeira vez que subia ao palco para dançar, e ainda mais em cadeira de rodas, sendo que nem eu nem os meus colegas tínhamos qualquer bagagem na dança”.

Mas conseguiram fazer com que o público saísse satisfeito e emocionado com o que viu no espectáculo. “Fizemos coisas que sentimos que o público saiu satisfeito, e outros acabaram por chorar, porque era algo que nunca tinham visto. Então, foi uma coisa satisfatória para nós”.

Flávio sublinha que já tinha muitos anos como atleta paralímpico, pelo que o seu corpo já estava preparado para um desafio.

“A única coisa que o meu corpo não tinha era a técnica da dança em cadeira de rodas, pelo que tinha de exigir muito de mim mesmo. Antes de estrear na dança, via muitos vídeos e fazíamos adaptações a um andante ou a um cadeirante”, assegura.

Além disso, relata que teve muito apoio de bailarinos como Mano Preto e Elisabeth Fernandes (Bety), do grupo de dança Raiz di Polon.

Desafios

Segundo Flávio, o desafio que tem enfrentado é não ter uma cadeira adequada para a dança em cadeira de rodas.

“Para dançar em cadeira de rodas, exige-se uma cadeira bem leve. E a cadeira que temos não é apropriada para a dança, por isso esforçamo-nos muito. Uma cadeira profissional de dança, se não estou em erro, pesa dois quilos, e a nossa pesa oito quilos; a diferença é muita. Então, temos de nos esforçar mais para ter um movimento de cadeira mais suave”.

Shows

Além de actuar na Gala Internacional de Dança em Cadeira de Rodas, um evento de dança realizado pelo Mon na Roda, que acontecia anualmente na Cidade da Praia antes da Covid-19 e que, aos poucos, tem retomado o seu ritmo de realização,

Flávio Gomes, juntamente com os seus companheiros do grupo, tem participado em vários espectáculos no país e, inclusive, já representou Cabo Verde diversas vezes, tendo conquistado medalhas.

“Já fizemos muitos espectáculos em Cabo Verde e já estivemos fora do país mais de cinco vezes para representar Cabo Verde. Já ganhámos medalhas de ouro, bronze e prata, em representação do nosso país, na modalidade Dança em Cadeira de Rodas, que é uma dança desportiva, pois agora está inserida na área do desporto. Então, mudaram o contexto, passando agora a ser dança desportiva”, destaca.

O bailarino conta que sempre que representaram Cabo Verde tiveram uma boa prestação. “Estamos bem classificados e já entramos na categoria mundial, que também ganhámos.”

Mudança

Com a dança, Flávio acredita que o país tem tido alguns avanços e que não existem barreiras para pessoas com deficiência.

“A dança mudou muitas coisas na minha vida, porque tive mais reconhecimento da sociedade, na qual recebo sempre palavras de incentivo e dizem que estão muito contentes com o trabalho que fazemos, não só eu, mas também os meus colegas. Então, com isso, sinto que algo mudou”, garante.

Além disso, sublinhou que a dança mudou a sua vida no sentido de mostrar à sociedade que também são capazes. “Somos capazes de dançar de outra forma: dança adaptada. Então, fico satisfeito nessa parte, porque sinto que mudou alguma coisa”.

Nesta linha, Flávio assegura que a arte contribui muito para a inclusão social, porque, quando se vê uma pessoa com deficiência a dançar, fica-se arrepiado, ao observar movimentos que outra pessoa pode dizer que ela não é capaz de fazer, mas consegue.

“Então, sinto aquele frio na barriga, mesmo sabendo que estou na dança em cadeira de rodas. Quando vejo isso, digo: uau, é possível, eu também consigo. Então, vejo que qualquer tipo de arte tem um contributo positivo para a sociedade”, realça.

Palco

Apesar de alguns avanços, o bailarino acredita que ainda há cenários que precisam ser mudados e, como exemplo, aponta o palco de dança, principalmente o de dança em cadeira de rodas, que tem de ser melhor preparado.

“Normalmente, convidam-nos para actuar, mas esquecem-se de que o cadeirante precisa de espaço. Então, colocam bateria, guitarra, piano à volta e deixam-nos um espaço pequeno para dançarmos”, relata.

Com isso, disse que já aconteceu, num show, acabarem por não dançar, por causa do espaço disponível no palco. “Falamos com o responsável para saber se não havia forma de retirar as coisas do palco, e ele disse que não. Então, dissemos que também não iríamos fazer algo apenas para ficar sentados na cadeira de rodas para as pessoas nos aplaudirem, sabendo que não fizemos nada”.

Para o bailarino, com a dança querem passar a mensagem de que são capazes de fazer algo, e não ficar sentados na cadeira de rodas para o público os aplaudir sem fazer nada.

“Então, acabámos por desistir de fazer aquela actuação. Precisamos muito de mudar a nossa mentalidade neste sentido, porque a dança em cadeira de rodas tem de ter espaço suficiente para o dançarino se movimentar”, defendeu.

Flávio Gomes assegura que as pessoas com deficiência também são capazes de fazer algo. “As pessoas com deficiência também têm os seus direitos, nomeadamente o de expressar os seus sentimentos, o que pode ser através da dança, da pintura e de qualquer tipo de arte”.

Inclusão através da arte

O Mon na Roda, fundado em Julho de 2010 pela socióloga Miriam Medina, tem como objectivo a inclusão de pessoas com deficiência, por meio da dança e de outras artes. Desde a sua criação, o grupo tem mudado a vida de Flávio Gomes e de outros jovens por meio da dança. Além disso, o grupo tem trabalhado a questão da acessibilidade.

A Acarinhar (Associação das Famílias e dos Amigos das Crianças com Paralisia Cerebral) nasceu no ano de 2007 e é uma das primeiras instituições cabo-verdianas vocacionadas para a melhoria das condições de vida de crianças com paralisia cerebral.

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A Associação foi distinguida em Dezembro do ano passado (2025) como uma das iniciativas vencedoras do Top 16 do Programa ArtCultura Nexus, com o projecto Centro de Capacitação para Inclusão. O ArtCultura Nexus surgiu com a missão de transformar o sector artístico e cultural.

O ArtCultura Nexus tem como objectivo promover o empreendedorismo inclusivo e sustentável: incentivar a criação de negócios culturais que integrem a inovação e a tecnologia; capacitar grupos vulneráveis — empoderar mulheres, pessoas com mobilidade reduzida e jovens, ampliando as suas oportunidades no sector; estimular soluções tecnológicas — incentivar a incorporação de inovações tecnológicas nos negócios culturais; e garantir a continuidade do projecto — criar um fundo sustentável por meio do reembolso dos financiamentos concedidos.

Segundo a Acarinhar, esta conquista reafirma o seu compromisso com a inclusão social, o empoderamento de jovens com paralisia cerebral e a promoção de oportunidades reais para uma participação plena e digna na sociedade.

A Acarinhar também marcou presença na feira de artesanato, que decorreu na Praça Alexandre Albuquerque, no passado mês de Dezembro, onde apresentou os trabalhos realizados por seus jovens.

Fundada em 2014, a Colmeia (Associação de Pais e Amigos de Crianças e Jovens com Necessidades Especiais) tem promovido a inclusão de jovens com diversidade e de jovens com transtornos do neurodesenvolvimento.

Segundo a presidente da Colmeia, Isabel Moniz, a arte é uma das formas de promoção para trabalhar a aptidão, mas também o desenvolvimento intelectual e a motricidade fina.

“A arte trabalha também a parte da aptidão, porque acaba por motivar os jovens com transtornos do neurodesenvolvimento. Através da arte, conseguimos trabalhar a motricidade fina. Naturalmente, cada jovem que está aqui tem acompanhamento psicológico. Trabalhamos com três psicólogos: psicólogo educacional, psicólogo clínico e psicólogo familiar”, cita.

Na verdade, a Colmeia começou com a pintura em quadros. Depois surgiu a oportunidade de receber o apoio do programa Bolsa de Acesso à Cultura, uma aposta do Governo na inclusão social de crianças e jovens cabo-verdianos através da arte.

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“Nem pensamos em candidatar-nos ao BA-Cultura, quando éramos apenas eu e uma neuropsicóloga. Questionámo-nos como criar uma resposta voltada para a reabilitação funcional. Recebemos um e-mail do BA-Cultura dirigido a escolas e respondemos que não éramos uma escola, mas um centro em construção, com um espaço pequeno”, conta.

Disse ainda que, a partir daquele momento, pensaram em usar a arte para trabalhar a reabilitação funcional. “Elaborámos o projecto, explicámos e enviámos a candidatura, que foi seleccionada. Foi uma excelente decisão, porque a habilitação e a reabilitação passam pelo estímulo. Sem estímulo, não há progresso. A arte ajudou-nos a trabalhar a motricidade grossa e fina.”

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Actualmente, a Colmeia tem jovens que pintam, que fazem bolsas, carteiras, sapatos, bijuterias e vestuário. Inclusive, no show do músico e compositor Princezito, que aconteceu no dia 23 de Dezembro do ano passado (2025), na Cidade da Praia, foi realizado um desfile de vestuário e uma exposição dos trabalhos realizados pelos formandos da Colmeia.

Já a Acrides — “Associação Crianças Desfavorecidas” — que trabalha há 26 anos na promoção e defesa dos direitos e deveres das crianças, foi fundada em Janeiro de 1998.

Conforme a presidente da Acrides, Lourença Tavares, a inclusão através das artes permite trazer outras vertentes para a vida da criança. “Aumenta o interesse no estudo, a criança autovaloriza-se mais e faz com que a pessoa descubra o que pode fazer melhor”.

Lourença Tavares sublinha que a arte permite à criança ou jovem descobrir em si próprio aquilo de que é capaz de fazer. “Inclusão através da arte é estar no grupo, estar no meio. Então, aprende-se a valorizar-se e a estar com o outro. E, com o digital, a inclusão através da arte também passa por saber usar a internet. A internet é boa, mas também tem muita coisa negativa, e é preciso saber defender-se desse lado negativo.”

Tavares conta que, quando a Acrides começou os trabalhos, foram os artistas e restaurantes que ajudaram a mantê-la de pé.

“Temos Tcheka, Nancy Vieira, Lura, que lançou o seu CD connosco. Temos Tete Alhinho, Terezinha Araújo e muitos outros. Fazíamos ‘Jantar de Gala’ e eles participavam. Na parte de artistas plásticos, temos Domingos Luísa, Tutu Sousa, e leiloávamos os quadros deles”, lembra.

A presidente da Acrides disse ainda que, além disso, havia seis restaurantes e outros parceiros que ajudaram a Acrides a chegar onde está hoje.

Impacto da arte

Para Isabel Moniz, a arte tem um impacto muito grande no desenvolvimento e no neurodesenvolvimento. “É motivadora e estimuladora. Reabilitação, habilitação e estímulo caminham juntos. Por isso existe a arte-terapia. A arte ajuda também os adultos, trabalhando a motivação, as emoções e a tristeza”.

Lourença Tavares avançou que este ano o teatro vai ser o instrumento de trabalho da Acrides. Pelo que vão fazer animação comunitária com base no teatro, para poder ajudar as famílias. Por isso, espera-se que tenha um grande impacto na sociedade, sobretudo na família, para que esta seja também multiplicadora.

“Este ano, também queremos, à semelhança do ano passado, trabalhar juntamente com as igrejas, que têm um poder forte na transmissão de mensagens. Acho que, neste momento, o mundo precisa disso: o valor do eu enquanto pessoa. Não precisamos ter vaidade na profissão que temos, mas sim ser o mais útil possível, mais do que ser importante”, assegura.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1259 de 14 de Janeiro de 2026.

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Autoria:Dulcina Mendes,18 jan 2026 9:30

Editado porJorge Montezinho  em  18 jan 2026 10:19

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