Livro “Cabo Verde: Percursos, Ruturas e Paradoxos” de Júlio Correia apresentado hoje na Praia

PorAntónio Monteiro,27 fev 2026 9:59

“Cabo Verde: Percursos, Ruturas e Paradoxos” é o primeiro livro da autoria de Júlio Correia que será apresentado esta sexta-feira na Praia. Ao Expresso das Ilhas o antigo governante explicou a génese do livro que lança um olhar crítico e analítico sobre cinco décadas da nossa história (1975-2025). “Não tive qualquer preocupação em glorificar ou denegrir períodos da nossa história recente”, justifica.

O que quis dizer-nos com este livro e este título?

O título é provocador porque a história recente de Cabo Verde está longe de ter sido um percurso linear. Defendo que o país se construiu através de muitas tensões, muitas com efeitos não previstos. Os pilares da reconstrução nacional, definidos no programa do primeiro governo de 1975, evoluíram de tal forma que acabaram por gerar dinâmicas próprias e incubar a mudança política. O que foi pensado para consolidar a jovem nação criou, gradualmente, as condições da abertura. A mudança não surge como negação do passado, mas como resultado dos seus próprios paradoxos. A provocação do título serve também para desafiar leituras simplistas da nossa história. Ao longo das páginas, procuro mostrar que cada decisão tomada no período pós-independência, mesmo quando guiada por objectivos claros, acabou por produzir efeitos inesperados que reformularam a sociedade e a política cabo-verdiana. O livro não é uma crónica de sucesso, nem uma narrativa de falhas. É uma tentativa de compreender como as tensões e ambiguidades do percurso histórico se transformaram em motores de transformação.

Qual foi a sua opção para lançar o livro neste momento?

Não é propriamente uma decisão deste momento. O livro vem sendo pensado há vários anos. Talvez só agora tenha reunido as condições certas para o escrever. O distanciamento da vida política e o regresso à academia deram-me tempo, serenidade e, sobretudo, liberdade interior para reflectir com maior frieza e objectividade. A distância temporal também ajuda: permite olhar os acontecimentos sem a pressão do imediato e com maior densidade analítica. Este livro é, em grande medida, fruto desse tempo de maturação e de distanciamento crítico. Além disso, este momento permite-me colocar o livro no contexto de reflexão mais amplo sobre Cabo Verde. Não se trata apenas de revisitar o passado, mas de abrir espaço para pensar os desafios do presente e as oportunidades do futuro. Estar fora da política activa tornou possível escrever com liberdade, sem a necessidade de agradar a qualquer corrente ou interpretar os acontecimentos de forma defensiva. O livro nasce dessa serenidade, mas também de um compromisso com a verdade e a análise rigorosa.

Por que a escolha de Silvino da Luz como prefaciador, e Arnaldo Andrade e Felisberto Vieira como apresentadores?

A escolha do comandante Silvino da Luz tem uma dimensão pessoal e política. Na minha juventude, era o político que eu gostaria de ser quando fosse adulto. Impressionava-me a sua energia, o seu pragmatismo e a esperança que transmitia. Era um homem que falava para convencer, com grande capacidade de oratória, mas sobretudo com foco na resolução concreta dos problemas. Sempre o vi como uma figura que emprestou seriedade e sentido prático à acção política. Convidá-lo para prefaciar o livro é, ao mesmo tempo, um reconhecimento dessa referência e um gesto de coerência com a minha própria formação política. Quanto a Arnaldo Andrade e Felisberto Vieira, a escolha tem a ver com percurso e pensamento. Partilhámos anos de debate, de responsabilidades e de reflexão sobre Cabo Verde. São personalidades com experiência, competência e sentido crítico, com quem mantive uma convivência política próxima. Conhecem o meu percurso e eu conheço o deles. Pareceu-me natural que fizessem parte deste momento, porque o livro também é fruto dessas longas conversas e dessas vivências comuns. Além da dimensão pessoal, quis também criar um painel de apresentação que reflectisse diversidade de experiências e olhares sobre Cabo Verde. Silvino da Luz traz a referência histórica e o pragmatismo político, enquanto Arnaldo Andrade e Felisberto Vieira contribuem com memória institucional e reflexão crítica. O conjunto permite que o lançamento do livro seja, em si mesmo, um espaço de debate sobre o país e sobre como se lê a história, mantendo o espírito do que o livro propõe.

Quais são os momentos mais significativos analisados no seu livro? E porquê a sua divisão em lustros?

Os momentos mais significativos do livro não são apenas eventos políticos, mas fases de transformação dos pilares do desenvolvimento, da reforma agrária à administração pública, da educação à saúde e à política externa. Analiso como estas áreas evoluíram de forma inesperada, produzindo efeitos que ultrapassaram as intenções iniciais. Dividi o livro em lustros porque cinco anos é o tempo mínimo para perceber mudanças reais na implementação das políticas, captando deslocações subtis, mas estruturais. Num país como Cabo Verde, nada acontece de imediato; tudo é cumulativo, e é nesse movimento que se revelam paradoxos essenciais. Um dos mais fascinantes é a tensão gradual entre o partido como força dirigente e a cidadania em crescimento. Em 1975, o PAICV era a referência decisiva: quadros, programa, mobilização. Mas com a massificação da educação e a formação de quadros, a cidadania começou a emergir como actor autónomo. As pessoas começaram a ler, a pensar e a discordar; a participação deixou de depender exclusivamente do partido. A abertura política não foi, portanto, uma ruptura planeada, mas o resultado inesperado dessas dinâmicas. Este percurso evidencia um paradoxo essencial: aquilo que o partido planeou para consolidar o Estado acabou, em muitos casos, por gerar a própria transformação que limitava a sua tutela. A educação, por exemplo, ensinou mais do que competências técnicas; ensinou a pensar criticamente, a questionar, a participar. A leitura do livro convida o leitor a perceber que a história não é feita apenas por decisões top-down, mas por interacções complexas entre intenções, efeitos e cidadania. É esta dialética entre poder e sociedade que constitui o núcleo analítico da obra.

Como se apresenta o país real e o país retórico no seu livro.
No livro, quando falo do “país real” e do “país retórico”, estou a referir-me a uma clivagem que se tornou estrutural na nossa vida pública. Quem assiste hoje às discussões parlamentares fica frequentemente com a sensação de que os partidos não estão apenas em desacordo: parecem habitar realidades distintas. Sobre a mesma matéria, os entendimentos são por vezes diametralmente opostos, como se os factos de base não fossem comuns. A realidade sobre a qual se debate deixa de ser partilhada; cada um proclama a sua narrativa, muitas vezes distante das experiências concretas da sociedade. O Parlamento tende a funcionar segundo um guião previsível: se um diz “sim”, o outro tem de dizer “não”. Instala-se uma lógica binária que simplifica o complexo e transforma o debate num ritual de antagonismos. Esse teatro político produz calor, mas raramente produz clarificação. A linguagem é usada não apenas para argumentar, mas para enquadrar, distorcer ou dramatizar, o que contribui para uma erosão do debate substantivo. O resultado é que o país retórico, aquele que se anuncia nos discursos — vai ganhando autonomia face ao país real, aquele que os cidadãos vivem no quotidiano. Essa discrepância torna-se ainda mais evidente quando confrontamos a retórica da estabilidade e da maturidade democrática com dificuldades práticas persistentes: bloqueios institucionais, incapacidade de gerar consensos mínimos sobre matérias estruturantes, captura de cargos e decisões por lógicas estritamente partidárias. O interesse colectivo acaba frequentemente subordinado a estratégias de afirmação identitária ou de diferenciação política. Ao mesmo tempo, a fiscalização cidadã é frágil. Os partidos raramente são avaliados de forma sistemática pela execução das políticas públicas; nos ciclos eleitorais, o debate tende a concentrar-se nas cores, nos símbolos e nas lealdades, mais do que nos resultados concretos. Assim, o país real, com os seus problemas administrativos, as suas ineficiências, as suas frustrações quotidianas, acaba por desaparecer atrás do país retórico, que é mais sonoro, mais mobilizador e mais simples. A minha tese é que esta dissociação não é apenas um problema de estilo político, mas um desafio institucional e cultural. Uma democracia plural não pode viver de monólogos paralelos. Sem uma base mínima de realidade partilhada e sem compromisso duradouro em torno do bem comum, o risco é termos um regime formalmente pluralista, mas encerrado em lógicas internas que pouco dialogam com a complexidade do país que dizem representar.

Não podendo colocar questões sobre todas as matérias tratadas no livro, escolho apenas mais dois capítulos. Primeiro: Depois do reajustamento: golpe como acto fundador da soberania cabo-verdiana. Porquê é que o golpe foi o acto fundador da soberania cabo-verdiana?

Quando sustento que o golpe na Guiné-Bissau, em 1980, foi um acto fundador da soberania cabo-verdiana, não estou a valorizar o golpe em si como método político. Estou a sublinhar o seu efeito estrutural sobre Cabo Verde. A cisão teve um impacto ontológico: alterou a própria definição do sujeito político cabo-verdiano. Até então, a soberania era pensada num horizonte partilhado. A independência de 1975 fora construída sobre a ideia de unidade Guiné-Cabo Verde, legitimada pela luta conduzida pelo Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde [PAIGC] e pela liderança de Amílcar Cabral. Havia um destino político comum projectado para o futuro: duas realidades históricas distintas que se conformariam progressivamente num Estado de princípios unitários. O golpe desmorona esse edifício simbólico e estratégico. Não apenas rompe uma aliança; dissolve a arquitectura mental que sustentava a narrativa mobilizadora do pós-independência. A partir desse momento, Cabo Verde perde o horizonte de um destino partilhado e é forçado a olhar para dentro. A soberania deixa de ser pensada como parte de um projecto bi-nacional e passa a exigir um espaço político próprio. Surge a necessidade de constituir um novo sujeito político, com agenda, prioridades e fundamentos ajustados à condição insular, demográfica e económica do arquipélago. A fundação do Partido Africano da Independência de Cabo Verde [PAICV] não é apenas uma reorganização partidária; é o sinal de que o projecto nacional precisa de autonomia conceptual. Esse momento impõe uma reconfiguração profunda do Estado e da elite dirigente. Combatentes da liberdade, quadros formados numa lógica unitária, referências simbólicas e institucionais — tudo é submetido a revisão. A agenda de soberania é renovada: já não se trata de completar uma unidade histórica sonhada, mas de consolidar um Estado viável por si mesmo. Cabo Verde vê-se compelido a reinventar-se como projecto autosuficiente, a recuperar o fio da sua própria historicidade sem nostalgia e sem euforia. Há aqui uma passagem decisiva: de uma nação mobilizada por um sonho partilhado para uma nação obrigada ao realismo. O golpe retira a mística da unidade e coloca no centro a responsabilidade interna. Obriga a reencontrar símbolos, fundamentos e prioridades capazes de sustentar uma comunidade política recomposta. Nesse sentido, paradoxalmente, a ruptura externa funciona como momento fundador interno. A soberania cabo-verdiana deixa de ser apenas proclamada e torna-se existencialmente assumida. É evidente que o golpe dá razão aos negacionistas que sempre se opuseram à ideia da unidade entre Guiné e Cabo Verde.

O sociólogo Niklas Luhmann no seu livro Sistemas Sociais tem um importante capítulo dedicado ao tempo. Você tem também um capítulo que aboda esta mesma matéria. Qual o seu novo conceito do tempo?

No meu capítulo sobre o tempo, a inspiração em Niklas Luhmann, sobretudo em Sistemas Sociais, não está numa definição abstrata, mas numa deslocação conceptual: o tempo não é apenas cronologia, é operação. Não é o relógio; é a ordem das decisões. A realidade oferece sempre mais possibilidades do que qualquer sistema consegue absorver. Um país pequeno como Cabo Verde está inserido num mundo de complexidade exponencial: múltiplas pressões económicas, sociais, tecnológicas e geopolíticas. Diante desse excesso, o tempo torna-se o mecanismo que permite reduzir a complexidade. Decidir é escolher dentro de um horizonte temporal limitado. Adiar é também decidir, mas é decidir pela acumulação do problema. O meu argumento é que, entre nós, o tempo ainda não foi plenamente assumido como recurso estratégico. A gestão do tempo revela a qualidade de um sistema. Quando um cidadão entra num serviço público e ouve “volta amanhã”, isso não é apenas um atraso administrativo; é uma operação sistémica. É a manifestação de uma cultura organizacional em que o tempo do outro é apropriado como instrumento de poder. O agente administrativo demonstra autoridade não porque resolve, mas porque pode fazer esperar. Não porque tenha já a solução para amanhã, mas porque pode impor o adiamento. Essa prática revela um défice cognitivo mais profundo: a incapacidade de compreender que cada adiamento aumenta a complexidade futura. O tempo não gerido transforma-se em acumulação de pendências, frustração social e perda de confiança institucional. E não é um fenómeno exclusivo do sector público; no privado também se verifica essa displicência. Marca-se uma consulta para as quatro e às seis ainda se espera, como se o tempo do outro fosse infinitamente disponível. Comparado com contextos onde o tempo é tratado como activo central de produtividade e coordenação social, essa diferença é decisiva. Em sistemas mais eficientes, o respeito pelo tempo é parte da ética institucional. O tempo organiza expectativas: permite previsibilidade, coordena acções e reduz incerteza. Quando o tempo é desvalorizado, instala-se a arbitrariedade. O meu conceito, portanto, é simples e exigente: tempo é a estrutura invisível das decisões. É o mecanismo através do qual um sistema selecciona o que tratar agora e o que pode esperar. Uma sociedade que não internaliza essa lógica corre o risco de viver permanentemente no adiamento. E um país que naturaliza o “volta amanhã” não está apenas a atrasar processos; está a comprometer a sua própria capacidade de se autogovernar num mundo que não espera.

José Tomaz Veiga, num dos seus livros, escreve que há momentos em que a história parece acelerar. É também uma metáfora do tempo.

Quando José Tomaz Veiga fala desses momentos em que a história parece acelerar, ele está a tocar numa dimensão qualitativa do tempo. Não é o tempo do calendário, nem o tempo biológico que mede a vida; é o tempo como intensidade decisória. Há conjunturas em que as decisões se encadeiam com tal densidade que a realidade se transforma rapidamente. A aceleração histórica é, no fundo, a aceleração das decisões e das suas consequências. É nessa linha que situo o meu argumento. O tempo não é aquilo que passa; é aquilo que estrutura o que pode ser decidido. Uma sociedade sobrevive à complexidade não porque controla todos os factores, mas porque sabe seleccionar, em cada momento, o que tratar e o que adiar. O problema entre nós é que o adiamento se tornou cultura organizacional. O “volta amanhã” não é apenas um atraso administrativo; é a institucionalização do inacabado. Não significa que amanhã haverá solução, significa que hoje não se decidiu. Quando o tempo deixa de ser entendido como mecanismo de coordenação e passa a ser visto como algo elástico, disponível, quase irrelevante, o sistema começa a perder capacidade de resposta. Cada adiamento interrompe cadeias de efeitos. O tempo tem retroacções: uma decisão tomada hoje reorganiza expectativas, activa recursos, mobiliza trabalho e cria confiança. Uma decisão adiada produz o inverso, paralisa, desmobiliza e corrói a credibilidade. Posso falar com a experiência de quem exerceu funções executivas. Quando um presidente de câmara decide licenciar uma obra hoje, essa decisão não é um acto isolado. No dia seguinte, o proprietário pode iniciar os trabalhos; pedreiros, engenheiros, electricistas entram em acção; circula rendimento; reduzem-se índices de desemprego; a paisagem urbana transforma-se; a arrecadação municipal pode aumentar. Há uma cadeia de retroalimentação quase imediata. Se essa decisão é adiada indefinidamente, toda essa cadeia fica suspensa. O tempo, aí, não é neutro, é produtivo ou destrutivo. É por isso que digo que ainda não interiorizámos plenamente o tempo como recurso estratégico. Dispor do tempo dos outros de forma indiscriminada é uma forma subtil de poder, mas é também um sinal de fragilidade sistémica. Num mundo em que as interdependências são rápidas e densas, atrasar decisões significa perder oportunidades cumulativas. A aceleração histórica de que fala José Tomaz Veiga não é um fenómeno mágico; é o resultado de sistemas que conseguem alinhar decisão e oportunidade. Quando aprendermos que cada momento de decisão tem impacto em múltiplos sistemas, emprego, investimento, confiança, coesão social, começaremos a compreender que o tempo não é o que nos atrasa. É o que nos permite avançar, se soubermos operá-lo.

O seu livro, Cabo Verde, Percursos, Ruturas e Paradoxos, como o título indica, fala de várias rupturas na nossa história recente. Enquanto compositor, temos na nossa música, percusro ou ruptura?

O meu livro fala de percursos e de rupturas. Na música cabo-verdiana, eu diria que temos sobretudo um percurso, mas um percurso atravessado por mutações profundas. A nossa música nunca foi estática; ela sempre reflcetiu os contextos, as circunstâncias históricas, os estados de espírito colectivos. A morna, a coladeira, o funaná nasceram de experiências concretas: seca, emigração, distância, esperança, resistência. A música foi sempre uma forma de organizar emocionalmente o tempo difícil. Como compositor, sinto que hoje estamos diante de uma nova complexidade. Antigamente, quando cantávamos Sodade, a distância era física e quase absoluta. A emigração significava anos sem ver o rosto da pessoa amada. A saudade tinha espessura temporal: era ausência prolongada, silêncio, cartas que demoravam meses. Hoje, com um clique, vemos quem está em Boston ou em Lisboa. A tecnologia alterou a experiência da distância. A saudade continua a existir, mas já não é a mesma. É uma saudade instantânea, paradoxal: estamos conectados, mas nem sempre estamos próximos. O compositor tem de traduzir essa nova condição. A música, portanto, acompanha as transformações do tempo social. Vivemos num período de aceleração tecnológica, de globalização intensa, agora atravessado pela inteligência artificial. Isto cria um desafio inédito. Hoje qualquer pessoa pode escrever algumas frases e pedir a um sistema que componha a melodia, faça o arranjo e até produza uma voz convincente. Isso democratiza, mas também banaliza. Surge uma explosão de produção musical, uma espécie de florescência desordenada. Eu não tenho uma atitude condenatória em relação à inteligência artificial. A história mostra que toda inovação provoca primeiro desconfiança, depois excesso, e finalmente selecção. Haverá um momento de purificação. Tal como nas redes sociais parecia que todos éramos jornalistas, mas o jornalismo profissional não desapareceu — reinventou-se. Na música acontecerá algo semelhante. A tecnologia pode simular sons, mas não vive experiências. Não atravessa crises, não sente a seca, não experimenta a emigração, não carrega memória afectiva. A música cabo-verdiana sempre foi uma resposta aos tempos difíceis. Nos períodos de maior escassez material, surgiram algumas das nossas composições mais densas e mais universais. A arte foi uma forma de transformar vulnerabilidade em identidade. Hoje os tempos difíceis são outros: fragmentação cultural, excesso de informação, ansiedade digital, perda de referências. O compositor tem de captar essa nova inquietação. Enquanto compositor, vejo o desafio como uma convocação. Precisamos de aprofundar o conteúdo, não apenas multiplicar a forma. A inteligência artificial pode gerar sons, mas não substitui a experiência humana que dá sentido à música. A nossa diferenciação continuará a estar na capacidade de pensar, de sentir e de transformar circunstância em linguagem poética. Portanto, na música cabo-verdiana há continuidade — porque mantemos uma linha identitária — mas há também uma ruptura silenciosa na forma como o tempo, a distância e a criação são vividos. Cabe aos compositores decidir se serão apenas operadores de ferramentas ou intérpretes críticos do seu tempo. Eu acredito que sobreviverá quem conseguir fazer da complexidade contemporânea matéria estética autêntica.

Como está a sua consciência depois de ter escrito este livro?

Escrever este livro foi um processo de maturação e reflexão, e sinto-me em paz com o que produzi. Não tive qualquer preocupação em glorificar ou denegrir períodos da nossa história recente. O que apresento é a minha visão, mas também a minha experiência como alguém que esteve precocemente envolvido na vida política activa ao longo de mais de 40 anos. O livro é, em primeira linha, da minha consciência: tem um compromisso comigo próprio, e não com o que outros possam pensar ou querer ouvir. Se a minha tese provocar reflexão, discussão ou mesmo discordância, isso já cumpre o seu propósito, porque significa que o leitor está confrontado com uma leitura crítica e não com dogmas. Procurei olhar para a sociedade cabo-verdiana com rigor e frieza, analisar e interpretar, mas sem pôr nada em crise; a intenção foi colocar a minha leitura à disposição, com honestidade intelectual e serenidade. Não escrevi para agradar, nem para justificar ou condenar decisões passadas. O livro é fruto da minha experiência, mas também de um olhar crítico e distante, capaz de identificar paradoxos e tensões que só se revelam com o tempo. É, em essência, um livro da minha consciência: um compromisso com a reflexão independente e com a leitura atenta da trajectória de Cabo Verde, sem receio de questionar convicções consolidadas ou desafiar interpretações habituais.

Versão completa da entrevista publicada no jornal Expresso das Ilhas na edição 1265, de 25 de Fevereiro de 2026.

Concorda? Discorda? Dê-nos a sua opinião. Comente ou partilhe este artigo.

Autoria:António Monteiro,27 fev 2026 9:59

Editado porClaudia Sofia Mota  em  27 fev 2026 15:36

pub.
pub
pub.

Últimas no site

    Últimas na secção

      Populares na secção

        Populares no site

          pub.