“Com o trabalho árduo e sério que a equipa tem desempenhado no âmbito do projecto, é muito gratificante saber que conseguimos chegar aos 22 municípios”, afirmou.
Segundo a responsável, o foco do programa é dotar crianças e jovens de ferramentas que contribuam para a formação de cidadãos mais conscientes e participativos, promovendo a transformação social através da arte.
Indira Monteiro Lima explicou que o crescimento do programa também se reflecte no orçamento. “Em 2017, o BA-Cultura arrancou com 11 milhões de escudos. Em 2026, conta com um financiamento do Tesouro de 35 milhões de escudos, valor que, ainda assim, se revelou insuficiente face à procura”.
A esse montante juntam-se cerca de oito mil contos provenientes de parcerias institucionais. Entre os parceiros estão a ENAPOR, a Compal, o Instituto do Turismo de Cabo Verde, o Fundo Mais e a Garantia Seguros.
“Os parceiros têm acreditado no projecto. Todos os anos, o orçamento revela-se insuficiente, o que demonstra a forte procura existente”, explicou.
Recentemente, foram ainda integradas mais duas escolas beneficiárias, uma no município dos Mosteiros (ilha do Fogo) e outra em São Domingos (ilha de Santiago), elevando o número total de alunos abrangidos para 4.660 em todo o país, sendo 2.559 do sexo feminino e 2.101 do sexo masculino.
Instrumentos musicais
Além da bolsa, desde 2025 o programa tem reforçado a entrega de instrumentos musicais às escolas e associações beneficiárias. Em 2026, foram encomendados instrumentos a produtores nacionais, todos residentes em São Vicente, incluindo guitarras, cavaquinhos, violões e kits de batucada.
“Temos dado resposta aos projectos que vão entrando, conforme as nossas disponibilidades. No ano passado, já financiámos algumas associações, bem como as câmaras municipais, ao nível de instrumentos, e, para este ano, também temos alocado uma verba para poder dar resposta a esses pedidos”, indica.
A coordenadora explicou que, apesar da aposta nos fabricantes locais, foi necessário recorrer ao mercado internacional para adquirir instrumentos como teclados, baterias e flautas, cuja produção não existe no país.
“Tivemos que recorrer a instrumentos do mercado internacional porque, infelizmente, aqui em Cabo Verde, só temos estes três instrumentos, mas precisamos de muito mais, como teclados, baterias e flautas, que são instrumentos que, a nível nacional, não conseguimos produzir. Por isso, é que tivemos que recorrer a instrumentos internacionais”, esclarece.
Além das escolas integradas no programa, o BA-Cultura tem igualmente apoiado outras escolas e câmaras municipais com a disponibilização de instrumentos, de acordo com as possibilidades orçamentais.
Formação
Indira Monteiro Lima reforçou que, entre os principais desafios apontados, está a necessidade de reforçar a formação dos responsáveis e formadores das escolas BA-Cultura. Embora Cabo Verde disponha de forte tradição e “saber fazer” na área artística, a formação académica especializada ainda é limitada.
“Para poder dar mais ferramentas, nós estamos a recorrer a formações ao nível da música, da dança e do teatro, para poder dar mais ferramentas aos nossos formadores”, revela.
A coordenação assegura ainda um acompanhamento próximo das escolas e associações beneficiárias. “Conhecemos todos os nossos beneficiários e mantemos uma relação muito próxima, o que contribui para o sucesso do programa”, afirmou.
Conforme Indira Monteiro Lima, actualmente cerca de 90% das escolas que iniciaram o percurso com o BA-Cultura continuam integradas no programa, sendo as desistências consideradas residuais.
De acordo com a coordenadora, o projecto está já apropriado pela sociedade civil, ao ponto de a divulgação do edital anual, lançado sempre em Dezembro, acontecer sobretudo por via do “boca-a-boca”, dada a elevada procura e a limitação de resposta.
“Penso que já estamos numa fase em que nem é preciso fazer a divulgação, nem é preciso comunicar atempadamente o lançamento do edital, porque eles já sabem a data. Como é uma data fixa, já temos a data fixa de Dezembro para o lançamento do edital, e após Dezembro, em Janeiro do ano seguinte, as escolas organizam-se, preparam-se e comunicam umas às outras a existência do programa”, salienta.
Contributo
Indira Monteiro Lima afirma que o BA-Cultura tem igualmente desempenhado um papel relevante na salvaguarda do património cultural cabo-verdiano.
“Muitas escolas trabalham exclusivamente com repertório tradicional, contribuindo para a preservação de géneros como a Morna. Se não fizermos, acabamos por perder. Uma das responsabilidades do BA-Cultura é preservar o que é nosso”, destacou.
Para o futuro disse que a meta passa por continuar a expandir e fortalecer o programa, com a ambição de contribuir para a criação de verdadeiras escolas de arte em Cabo Verde.
“O BA-Cultura é uma via para a transformação social. Vamos continuar a melhorar e a trabalhar para atingir esse objectivo”, concluiu a coordenadora.
Questionada se o BA-Cultura veio para ficar, Indira Monteiro Lima garante que o programa não é só do Ministério, mas sim de Cabo Verde.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1268 de 18 de Março de 2026.
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