Nove décadas depois, a revista Claridade e as ideias nela expressas permanecem como parte fundamental da memória colectiva nacional, ajudando a descodificar o ser cabo-verdiano.
Foi precisamente este o caminho que percorreu a sessão comemorativa que aconteceu esta terça-feira, na Universidade do Mindelo (UM), palco da apresentação da cátedra criada pela Universidade de Estudos Internacionais de Roma e do lançamento do novo livro de Manuel Brito-Semedo.
“Pensar Cabo Verde” era a proposta em 1936 e é a proposta hoje, diz o antropólogo.
“Eles [os Claridosos] fincaram, e a expressão é mesmo deles, de Manuel Lopes, fincaram os pés na terra para pensar Cabo Verde. Este é um marco importante. Não é que antes não se tivesse falado de Cabo Verde, mas não era de uma forma estruturada”.
A edição dos nove números da Claridade – revista de artes e letras prolongou-se ao longo de 34 anos, assumindo o desafio de conhecer o passado, compreender o presente e projectar o futuro. A publicação é um símbolo agregador da forma crioula de existir.
“E isto é importante. Marcar hoje a importância da Claridade para o que serve hoje e para nos projectarmos. Nós passamos por períodos marcantes, em termos do processo da nossa formação enquanto nação e enquanto país independente. Antes de haver bandeira, nós já éramos uma nação, já tínhamos uma literatura (...). Então, não é só um momento de memória, mas um reconhecimento e uma projecção para o futuro. Isto tem futuro, é o que estamos a dizer”, estabelece o autor.
Não há coincidências e foi por isso que Manuel Brito-Semedo escolheu os 90 anos de Claridade para concretizar uma ideia antiga e lançar ‘Para uma história das ideias cabo-verdianas’, a sua nova obra de ensaio. O lugar da palavra é a sua essência.
“É de 1936 a 2026. É uma ousadia chegar ao tempo presente, porque nós não temos distanciamento para perceber as coisas. Organizei em torno de momentos que são marcantes na mudança das ideias. Seis ensaios para mostrar cada um desses momentos, cada um desses regimes da palavra. ‘Teorizo’ a partir da nossa realidade, marco períodos que não têm directamente a ver com os regimes políticos”, resume.
‘Para uma história das ideias cabo-verdianas’ atravessa quase um século de história, cruzando o tempo e as suas nuances, para lá do circunstancial.
“E de 2020 a 2026, fica tudo saturado de palavras, toda a gente fala, ninguém ouve. Há uma intensificação da produção do discurso e há um ambiente digital. Há pluralidade, mas nem sempre se traduz em aprofundamento conceptual”, comenta.
Publicado pela Rosa de Porcelana Editora, o livro terá uma nova sessão de apresentação esta quinta-feira (26), na Praia – 18:00, no auditório do Banco Interatlântico. A propósito das nove décadas claridosas, o editor, Filinto Elísio, sublinha a importância de se compreender o que representa a Claridade “para a identidade cabo-verdiana”.
“Temos de olhar um pouco para a trajectória da Claridade, perceber que tem ressonâncias ainda importantes para o presente, tem pistas que ainda são insuperáveis para construirmos o futuro. Carece de um olhar mais diverso, mais plural, não só cabo-verdiano, mas do mundo para a Claridade”, projecta.
“A Claridade é, sobretudo, um fenómeno cultural de viragem e de recentramento em relação a Cabo Verde e em relação ao mundo. Cabo Verde tem de viver sempre nesta dualidade entre si próprio”, acrescenta.
Cátedra
Precisamente nesse caminho de abrir o movimento claridoso ao mundo, a Universidade de Estudos Internacionais de Roma anunciou, na segunda-feira, a cátedra Claridade, através da qual pretende fomentar a investigação em torno dos claridosos, mas também de outros autores cabo-verdianos.
Para a reitora, Mariagrazia Russo, a revista é um marco decisivo da construção de uma identidade autónoma e soberana.
“Uma revista que, mais do que uma publicação literária, foi um verdadeiro marco fundacional da consciência cultural cabo-verdiana. Claridade abriu caminhos firmes, enraizados na realidade concreta das ilhas, e lançou as bases de uma profunda emancipação cultural, social e política”, acredita.
A UM é a parceira local da iniciativa académica. Risanda Soares, professora da instituição de ensino superior, não duvida da “excelente oportunidade” que agora se abre.
“Será um ganho extraordinário o que a universidade põe à disposição dos cabo-verdianos, dos investigadores, dos nossos estudantes. [Uma forma de] mostrar que estamos a acompanhar e a resgatar um momento histórico da nossa identidade e do pensamento cabo-verdiano, dando-lhe visibilidade”, declara.
Surgida em Março de 1936, a Claridade – revista de artes e letras teve em Baltasar Lopes, Jorge Barbosa, Manuel Lopes e João Lopes o seu núcleo dinamizador. O último número foi editado em 1960.
*com Lourdes Fortes
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1269 de 25 de Março de 2026.
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