Segundo uma nota da embaixada de Cabo Verde em Portugal, neste romance de Dina Salústio, encontram-se, sem dúvida, pedaços da vida da mulher que batizou Serrano, conhecedora de todos os segredos do vale, origem desta breve narração, chegados ao nosso conhecimento através de processos que juramentos obrigam a calar.
“Uma jovem que não encontrou homem, mulher, bandido ou animal que fosse, que a tivesse chamado filha, que a tivesse feito mulher e por isso, para se vingar, amaldiçoava as criaturas do lugar que, por cumplicidade, tinha traçado o seu destino e a conheciam por Louca de Serrano”, relata.
A mesma fonte conta que ciclicamente, aparecia no povoado por artes desconhecidas, para desaparecer do mundo visível dos vivos quando completava os 33 anos e já tivesse visto tudo o que tinha para ver, e ouvido tudo o que queria ouvir. Depois voltava a aparecer, filha de gente nenhuma, de lugar e tempo nenhum, criança, mulher.
Conforme a mesma fonte, estão ainda no livro o registo de Filipa que, de acordo com aquilo que a avó materna contou para um advogado, carregava o nome como promessa feita pelo pai ao santo da sua devoção, San Martin, numa manhã que se prolongou por vários dias de gritos, confusão e incertezas sobre o sucesso de um parto dito prematuro.
“Filipa, uma menina amarrada ao silêncio nos melhores anos da sua infância que, quando finalmente livre, não deixou que um dos seus lados de mulher tivesse voz. Esta é, sem dúvida, a lembrança de um tempo sem nome e sem história, como muitas que envolvem mulheres e homens em todas as épocas e lugares e asfixiam de tanto encanto, ou geralmente, de tanta impiedade”, relata.
Nascida na Ilha de Santo Antão, Dina Salústio foi Professora de Primaria, Assistente Social e Jornalista, exercendo em Portugal, Angola e Cabo Verde.
A autora é sócia-fundadora da Associação dos Escritores Cabo-verdianos, da Sociedade Cabo-verdiana de Autores, membro fundador da Academia Cabo-verdiana de Letras e do PEN Clube de Cabo Verde, é ainda membro da Academia Sergipana de Letras (Brasil) e Vice-Presidente da Sociedade Brasileira da Cultura Latina para Cabo Verde.
Foi galardoada, dentre outros, com o 1º Prémio de literatura infantojuvenil de Cabo Verde (1994), o Prémio em literatura infantojuvenil dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (2000), Prémio Rosália de Castro para a Literatura em Língua Portuguesa - PEN Galiza, Espanha (2016), Prémio RDP Africa Literatura para a Lusofonia (2021).
Dina Salústio é autora de vários livros de contos, crónicas, romance, infantojuvenil e ensaio, publicado pela Rosa de Porcelana “Veromar” (2019) e “Uma menina de cristal e outras crónicas” (2023).
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