Podia falar-nos da génese do livro sobre Nhelas Spencer?
Trata-se de uma ideia que eu acalentava já há bastante tempo, por duas ordens de razões. Primeiro, o compositor em si mesmo, como sendo um dos mais icónicos, um dos mais emblemáticos na galeria cabo-verdiana de compositores. E segundo, porque o Nhelas trabalhou alguns anos comigo, quando eu era director-geral da animação cultural e depois dos assuntos culturais. Nutrimos alguma amizade e admiração um pelo outro, principalmente por essas duas razões. Este trabalho surge também na sequência de alguns anteriores que eu já tinha produzido mais ou menos neste domínio. Trata-se de três compositores da Boa Vista. Posso citar o Mané Razuedje, que é o autor da Avezinha de Rapina, entre outras composições que foram gravadas por Kiki Lima e Jalonga na Boa Vista e outros, embora ele tenha permanecido em grande anonimato e desconhecimento. Fiz um trabalho também sobre o Djidjungue, António Lima, que é autor da morna 27 de Setembro e também de muitas outras composições. Fiz de Adão de Jovita que foi lançado em Dezembro último. Três compositores da Boa Vista que não teriam chances, não fazem parte das preferências daqueles que gravam música cabo-verdiana, muitas vezes por desconhecimento temático. Então eu fiz questão de escrever sobre eles, preservar-lhes a memória na biografia deles e transcrever na pauta as suas músicas, para ficar um registro diferente, para além do discográfico, que a maioria deles não tem acesso. Então, nesta sequência, veio agora a quarta obra, sobre Nhelas Spencer, cuja motivação são aquelas que eu apontei inicialmente.
É autor de biografias sobre grandes nomes da música cabo-verdiana e o coautor César Monteiro também. Foi este o pressuposto para a produção do livro a duas mãos?
A associação do César nasceu do seguinte jeito: quando tive a ideia, e reconhecendo o trabalho que ele vem fazendo no âmbito da sociologia da música e da etnologia e etnografia, resolvi associá-lo. Ele escolheu como campo, digamos, a situação do Daniel Spencer, familiar, ambiental, o percurso de vida dele, para se poder compreender a dinâmica e a temática das composições. Enquanto que, no meu caso, eu faço um tratamento transversal dele, tocando em vários aspectos, do poético ao músico e ao psicológico, a sua inserção no meio e transcrevendo alguns itens importantes do que foi o desempenho dele enquanto meu colaborador da Direcção-Geral da Animação Cultural, onde, de facto, cimentámos uma amizade muito forte de admiração e de companheirismo.
Qual é a grandeza do compositor Nhelas Spencer?
Nhelas é um indivíduo que fala relativamente pouco. Mas ele é um observador atento, ele sabe ler e colher os filões essenciais do sentimento e da percepção cabo-verdiana das coisas, põe-se no lugar dos sujeitos, lê, interpreta, elabora, reelabora, recria. Aliás, houve quem dissesse inclusivamente se o Nhelas com algumas das temáticas que ele legou aos cabo-verdianos e que ele socializa, que ele comunica, muitas vezes deixa escondida a percepção que ele parece não ter de si mesmo e do seu valor. Portanto, ele parece uma pessoa extremamente modesta e não é pela via da conversa que nós logramos este entendimento. Nesta ordem de ideia, ele aparece sobretudo como um telúrico. Ele tem composições icónicas como Torrãodi Meue Nha Terra Escalabrode: é um telúrico e um observador social. E sendo observador social, há que extrapolar que eventualmente será a forma de ele colaborar com as suas reflexões e as suas mensagens, para os vários ordenamentos que a sociedade cabo-verdiana precisa.
O livro está dividido em duas partes. A primeira parte é da autoria do sociólogo César Monteiro e a segunda parte da autoria do músico e compositor Eutrópio Lima da Cruz. O que diferencia as duas abordagens?
César Monteiro faz uma investigação de terreno. Ele contactou dezenas de pessoas, familiares, enquanto que eu não. Eu escrevo a partir daquilo que percepciono dele como compositor-fenómeno. O que resulta da experiência de alguns anos que ele teve trabalhando comigo e do desempenho que ele teve. Portanto, por isso que a minha intervenção é mais transversal. Enquanto que a do César é uma investigação de terreno com uma linha, seguindo os itens que eu enunciei há bocadinho: a biografia, a integração e o mundo das relações sociais do Nhelas.
Como trabalharam juntos e conhece as composições de Nhelas Spencer há várias décadas, por que só agora foi chegado o momento de coordenar e escrever a biografia do músico salense?
Bom, primeiro eu tinha na galeria aqueles autores de Boa Vista mais antigos do que ele e menos beneficiados pela sorte, porque o Nhelas tem sido um dos preferidos pelos cabo-verdianos que gravam. Portanto, ele está acautelado. Enquanto que aqueles outros menos felizes não têm tido essa sorte. Então, preferi começar por eles, até por serem mais antigos, alguns dos quais são até colegas do pai dele.
Por que a escolha recaiu sobre Manuel Faustino como apresentador da obra?
Vários nomes foram elencados. Alguns escusaram por indisponibilidade, Manuel Faustino aceitou. Ele é uma pessoa que se tem revelado também como um bom leitor, um bom pronunciador, um bom processionador das coisas. Também é um amigo comum. Tudo isso fez com que a escolha soberana recaísse sobre ele.
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Retificação
Na entrevista concedida por mim, esta quarta-feira, edição n.º 1273 do Expresso das Ilhas, a propósito da escolha do apresentador do livro sobre Nhelas Spencer, quis dizer, isso sim: que a escolha recaída sobre o Dr. Manuel Faustino, o primeiro e o único a ser convidado, foi unânime entre os autores Eutrópio Lima da Cruz e César Monteiro, desde a primeira hora, dentre vários outros nomes possíveis.
Pela formulação tornada pública, as nossas sinceras desculpas.
Eutrópio Lima da Cruz
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