Brito-Semedo à conversa com Djosinha - Djosinha (1934-2026): a voz que se tornou parte do país

PorAntónio Monteiro,13 jun 2026 8:54

Há vozes que se escutam e outras que se tornam parte do país. Djosinha, nome artístico de José Vieira Duarte, pertence a esta segunda categoria. Falecido no passado dia 5 de Junho, aos 92 anos, na sua cidade natal do Mindelo, Djosinha deixa uma marca profunda na história da música cabo-verdiana.

A sua voz atravessou gerações, acompanhou partidas e regressos, animou palcos, navios, rádios e comunidades da diáspora. Mais do que um cantor, foi um intérprete da memória colectiva cabo-verdiana. Esta conversa com Brito-Semedo, emitida no dia 25 de Maio, no Podcasts / Vozes e Histórias, assume hoje um significado especial. Foi a última grande entrevista concedida por Djosinha a um órgão de comunicação social. Nela revisita a infância no Mindelo, os primeiros passos no Cinema Eden Park, a passagem pela vida marítima, a integração no histórico Voz de Cabo Verde, as digressões internacionais, os anos de rádio nos Estados Unidos e a relação singular que sempre manteve com o público. Ao longo do diálogo, emerge um homem que nunca separou a música da comunidade. A sua arte não se limitava à interpretação vocal; era também presença, comunicação e partilha. Djosinha cantava para as pessoas e com as pessoas. Foi essa capacidade de transformar o espectáculo em encontro humano que lhe garantiu um lugar singular no património cultural cabo-verdiano. Cabo Verde reconhece o percurso de Djosinha. São Vicente reconhece o seu percurso. Reconhecem-no também as comunidades emigradas que durante décadas encontraram na sua voz uma forma de proximidade com as ilhas. Ao republicarmos esta entrevista, não prestamos apenas homenagem a um artista. Preservamos um testemunho. Escutamos uma voz que ajudou a contar Cabo Verde a si próprio e ao mundo. Fica o registo de uma vida longa, intensa e generosa. E permanece a voz. Porque há vozes que passam. E há vozes que permanecem. 

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Manuel Brito-Semedo (MBS): Djosinha, muito obrigado por ter aceite este convite. Quando olha para trás, onde começa verdadeiramente a sua história com a música?

Djosinha: A minha história com a música começou na cidade do Mindelo. Aos sete anos, actuei pela primeira vez no Cinema Eden Park, graças ao grande esforço do guitarrista Olavo Bilac, que já não se encontra entre nós há muitos anos. Foi ele quem insistiu com Tony Marques da Silva, grande pianista, para que me ouvisse.

MBS: Conheci-o apenas através da música.

Djosinha: Olavo Bilac insistiu muito. Tony Marques da Silva, talvez por causa da minha idade e do meu tamanho, hesitou inicialmente. Acabou por perguntar-me o que eu queria cantar. Respondi que queria cantar Deusa do Asfalto, música brasileira interpretada por Nelson Gonçalves. Tony admirou-se com a escolha e perguntou-me em que tonalidade queria cantar. Pedi-lhe que me desse uma tonalidade. Ele escolheu uma tonalidade difícil, mas aceitei. Comecei a cantar e, passados poucos minutos, disse-me que eu seria a estrela da noite. O espectáculo era no dia seguinte. Pediu-me que dissesse à minha mãe para me arranjar sapatos e roupa adequada. Foi a primeira vez que calcei sapatos. Naquela noite, o público do Eden Park aplaudiu aquele pequeno gigante.

MBS: Que ambiente musical encontrou no Mindelo da sua infância? Falou de Olavo Bilac e de Tony Marques. O que o formou enquanto cantor e intérprete?

Djosinha: Encontrei no Mindelo muitos músicos. Conheci o pai de Luís Morais, o Musa, o Tifefa Clarinete e grandes tocadores de violão. Entrei nesse ambiente muito cedo. Musa foi dos que mais insistiram em dizer que eu tinha qualidades. A minha mãe, porém, não gostava muito da ideia de eu andar naquele meio. Aconselhava-me sempre a ter calma.

MBS: Imagino a preocupação da sua mãe. Era ainda menino, entre homens crescidos, numa época em que a música era muitas vezes associada à paródia e à vida nocturna.

Djosinha: Eu morava na Rua de São João, frente ao Dibla e à Adega do Leão. Mais abaixo havia uma barbearia com oito ou nove barbeiros, que cortavam cabelo até às cinco da tarde. A partir dessa hora começava a batucada brasileira. Eu sentava-me no chão a ouvir. A minha mãe, preocupada, ia buscar-me, enquanto a malta lhe dizia para me deixar ficar. Era assim quase todos os dias.

MBS: O Mindelo dessa época parece uma escola aberta, com a rua, a rádio, o cinema e os encontros informais.

Djosinha: Quando era criança, encontrei no Mindelo uma forte influência brasileira e também a presença da música cubana.

MBS: Estamos a falar de que anos?

Djosinha: Nasci em 1934 e, em 1938, já ouvia esses músicos.

MBS: Era precisamente isso que queria situar. Mais do que uma profissão, ser músico era já uma forma de pertença. A sua voz nasce num meio em que a música organizava a vida, aproximava as pessoas e dava forma à experiência colectiva. Avancemos então para a sua entrada no conjunto Voz de Cabo Verde, momento que marcou uma viragem na sua vida e também na própria música cabo-verdiana. O que mudou nessa altura? E o que fazia antes?

Djosinha: Antes era marítimo. Quando o Voz de Cabo Verde apareceu em Roterdão, eu estava no Japão, embarcado. Um dia, o primeiro oficial chamou-me com um telegrama da companhia. Dizia que, se eu quisesse ir para a Holanda, deveria ser imediatamente colocado num avião. O oficial perguntou-me se eu cantava. Respondi que sim. Disse-me que havia um grupo em Roterdão que precisava de mim. Não fui logo. Saímos do Japão para o Brasil, depois passámos por Cabo Verde, pelo Mindelo, e seguimos para Roterdão. Quando cheguei, disseram-me que estavam lá Luís Morais, Morgadinho, Franco Cavaquinho, Toy de Bibia, Jean Dalomba e outros músicos. Estavam na Bélgica. Fui ter com eles, cantei, e foi fantástico. Pedi-lhes apenas que esperassem alguns dias, porque precisava de ir a São Vicente tratar de um assunto importante. No regresso, juntei-me ao grupo.

MBS: Estamos nos inícios da década de 1960. A sua vida mudou: deixou uma actividade marítima estável para integrar um grupo musical. Como viveu essa fase de viagens, digressões e contacto com o público fora de Cabo Verde?

Djosinha: Para mim foi fantástico. Foram momentos agradáveis e de grande emoção. A primeira viagem do Voz de Cabo Verde foi para Lisboa, onde actuámos numa noite de fim de ano. Logo depois viajámos para Cabo Verde, para São Vicente. Chegámos a 2 de Janeiro de 1965 e fomos recebidos como os Beatles.

MBS: O seu repertório integrou diferentes influências. Como construiu esse estilo aberto, que cruza morna, coladeira e outras sonoridades?

Djosinha: Cantávamos mornas, coladeiras, cúmbias, música brasileira, italiana e latina. Eu, Luís Morais e Toy de Bibia fizemos uma transformação profunda no conjunto. O repertório inicial não teria, certamente, o mesmo alcance. A minha entrada trouxe também muitos discos que eu tinha trazido de barco, sobretudo cúmbias e música latino-americana muito ritmada. Sentávamo-nos desde as nove da noite até às três ou quatro da manhã. Luís Morais escrevia e nós escolhíamos as músicas. A partir de 1972, quando já não existia o Voz de Cabo Verde, continuei a cantar aqui e ali. Fiz digressões importantes em Angola, país onde fui muito bem recebido. Em Luanda tive uma aceitação fora de série. Fiz espectáculos que ficaram na memória. Para mim, cantar nunca foi apenas cantar. Sempre procurei actuar para o público, cantar, dançar e fazer as pessoas cantarem comigo. Isso nem sempre se encontrava nos grupos cabo-verdianos. Em Luanda fiz um espectáculo marcante, em que rasguei a minha camisa em palco.

MBS: Essa tornou-se uma das suas marcas.

Djosinha: Sim. No dia do meu primeiro espectáculo em Luanda, cinco minutos antes de entrar em palco, perguntei ao guarda do edifício se tinha uma lâmina. Ele estranhou, mas trouxe-me uma. Fiz quatro cortes na camisa, fechei o casaco e entrei. Nem os meus colegas sabiam. A música era It’s a Man’s Man’s Man’s World, de James Brown, que tínhamos ensaiado durante três ou quatro meses. Quando chegou o momento mais alto, comecei a abrir a camisa. O público reagiu de forma extraordinária. No intervalo, algumas raparigas vieram buscar pedaços da camisa.

MBS: Fixou-se nos Estados Unidos, mas manteve uma ligação constante à comunidade cabo-verdiana. O que significa cantar para a diáspora?

Djosinha: Cantar para a diáspora tem um significado muito forte. Quando comecei a cantar nos Estados Unidos, entrei num grupo chamado Matchona. O nome vinha de um grogue que, segundo se dizia, andava a causar mortes. O grupo era interessante, mas também ali acabei por introduzir uma transformação musical. Comecei a levar músicas que os músicos ainda não conheciam. Tocávamos todas as sextas-feiras, sábados e domingos, sempre com as devidas autorizações.

MBS: A sua vida é rica e muito diversificada. O programa de rádio Caminho para Cabo Verde tornou-se uma referência. O que procurou construir através dessa ligação com o público durante tantos anos?

Djosinha: Havia um senhor chamado Danilo Henriques, médico, que tinha estudado em Portugal e fazia esse programa. Mas faltava-lhe material musical para sustentar a emissão. O director da rádio considerou necessário encontrar alguém ligado à música e chamou-me. Disse-me que havia um programa dedicado à comunidade cabo-verdiana e perguntou se eu podia assumir essa responsabilidade. Respondi que nunca tinha feito rádio. Ele disse-me que eu aprenderia. Comecei com meia hora. Depois passou para uma hora, duas horas e, mais tarde, três. Foi assim que ganhei experiência.

MBS: Durante quantos anos fez esse programa?

Djosinha: Durante 42 anos. Houve momentos muito difíceis. Cheguei a ficar cerca de dois dias dentro do edifício da rádio sem poder sair, por causa de um temporal e da neve que bloquearam as portas.

MBS: O mar define a trajectória, mas é a música que sustenta a ligação. Entre partida e regresso, a voz mantém a continuidade. A distância não rompe a pertença, reorganiza-a. Como define a sua forma de comunicar com quem o escuta?

Djosinha: Comecei a aprender isso com o grupo musical dos Marques da Silva: Tony Marques, Lulu Marques, Josa Marques. Eram todos Marques. Cantei com eles várias vezes. Tony dizia-me sempre que eu dançava bem e que devia continuar, sem parar.

MBS: Isso leva-me a outra pergunta: o que distingue um cantor de um intérprete completo, como é o seu caso?

Djosinha: Há muitos cantores, em Cabo Verde e na diáspora, com vozes lindíssimas. Mas nem todos têm o dom de entrar em palco e estabelecer contacto directo com o público. Há poucos dias fiz um espectáculo no Jotamonte que foi fora de série. Entrei, comecei a cantar e depois desci para a plateia. Cantei para as pessoas e elas cantaram comigo.

MBS: Vi dois trechos desse espectáculo e foi precisamente isso que me encantou.

Djosinha: Essa é a minha forma de ser. Há técnica, naturalmente. Tenho 70 anos de carreira, embora pudesse dizer 80, se contar desde os sete anos de idade. Nesse espectáculo anunciei que queria despedir-me do palco, mas o público reagiu dizendo que ainda queria ver Djosinha muitas vezes. Na verdade, quero apenas abrandar o ritmo. Há viagens muito longas. Já fiz Nova Iorque-Joanesburgo, cerca de 14 horas de voo. É pesado. Mas Cabo Verde é diferente.

MBS: O que permanece quando se fecha um ciclo dessa dimensão? Lembranças?

Djosinha: Permanecem lembranças e recordações de pessoas próximas. Lembro-me de uma vez em que fui cantar ao Monumental, em Lisboa. Havia na assistência um cabo-verdiano que não pisava Cabo Verde havia 50 anos. Quando comecei a cantar uma daquelas mornas antigas de B. Leza, ele desatou a chorar. Aproximei-me, pus o microfone de lado e perguntei-lhe por que chorava. Ele respondeu: tocaste no meu coração com essa morna.

MBS: O palco encerra um tempo, a obra abre outro, a memória transforma-se em permanência. A despedida não apaga o percurso; consolida-o. Que mensagem deixa aos músicos mais jovens?

Djosinha: Gostaria de dizer aos jovens que continuem. Cada geração tem o seu estilo, mas deve lembrar-se sempre de que a cultura cabo-verdiana precisa de estar em primeiro plano. Tenho recebido o carinho de muitos jovens, que me cumprimentam e reconhecem o meu percurso. O que lhes peço é que continuem a apoiar-se uns aos outros e que nunca esqueçam a cultura cabo-verdiana.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1280 de 10 de Junho de 2026.

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Autoria:António Monteiro,13 jun 2026 8:54

Editado porAntónio Monteiro  em  13 jun 2026 10:26

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