Estava em preparação a realização de uma simultânea na Praça Nova, conduzida pelo Grande Mestre (GM) António Fernandes, actual campeão de Portugal (e que na altura também o era). A Carolina insistia comigo que também queria jogar nessa simultânea, coisa para o qual eu não estava muito inclinado, pois uma criança de 4 anos, só com os conhecimentos básicos do jogo, facilmente se iria fartar de estar sentada tanto tempo e, como é natural nos primeiros movimentos deste tipo de evento, com períodos de espera entre o último lance realizado e a chegada, novamente, do simultaneador ao nosso tabuleiro.
Tanto insistiu que o GM António Fernandes, um amigo de longa data, veio falar comigo dizendo-me para deixá-la jogar e que quando ela mostrasse indícios de já estar enfadada eu que lhe fizesse um sinal que ele resolveria a questão.
E assim foi, lá anui a que a Carolina jogasse a simultânea, que se realizou no espaço ocupado pelo quiosque da Praça Nova, expediente encontrado perante a recusa da Câmara Municipal de S. Vicente em não nos autorizar a realizar a actividade no espaço público da referida Praça.
A simultânea iniciou, com uma excelente moldura humana, tanto de jogadores como de espectadores. Muitos curiosos, alguns deles turistas, iam passando e perguntando pelo que se estava a passar, ficando admirados pelo facto de um GM e campeão de Portugal, estar em Cabo Verde a fazer uma simultânea.
A Carolina esteve sempre entusiasmada com a sua participação até á altura em que conseguiu rocar. A partir daí, como se já tivesse cumprido a sua missão ao ter executado a regra básica que aprendera, começou a demonstrar sinais de quem já estava a ficar enfadada. Fiz sinal ao GM António Fernandes e, quando chegou à mesa dela, olhou para o tabuleiro atentamente e numa voz muito séria disse-lhe:
- Estou a ver que este jogo está muito complicado e por isso proponho empate.
A minha filha olhou para ele, com um ar também muito sério e ripostou:
- Mas eu quero ganhar!
O GM, quase que deu um salto surpreendido com a resposta da petiza.
Após alguns minutos de argumentação, a Carolina lá aceitou o empate, não muito convencida de ter tomado a decisão certa, e só ficando satisfeita com essa decisão no fim da simultânea, quando teve conhecimento que todos os outros jogadores tinham perdido com o GM e só ela é que tinha conseguido empatar.
Esta história aconteceu no dia 29 de Novembro de 2008, e vem a propósito para assinalar a passagem dos 10 anos após a realização do Festival de Xadrez de S. Vicente, do qual a referida simultânea fez parte.
Este Festival, foi uma das formas de comemorar o 21.º aniversário da Associação de Xadrez de S. Vicente e foi o evento que trouxe o xadrez nacional para a ribalta servindo como alavanca para o que a partir daí se passou, pois foi depois da realização desse Festival que o xadrez nacional começou a ser sentido e encarado doutra forma e com a consciência que era possível fazer mais.
E durante estes 10 anos fizeram-se muitas coisas.
Começou com o despertar da Associação de Xadrez de Santo Antão, com a realização de várias competições em S. Vicente, primeiro, e no Sal, depois.
Os dois Festivais de Xadrez da Boa Vista também apareceram na sequência da “agitação” que S. Vicente trouxe em 2008 ao xadrez cabo-verdiano. Vieram as oficializações das Associações do Sal e da Praia, para finalmente em 2016, 8 anos depois do Festival de S. Vicente, a fundação da Federação Cabo-verdiana de Xadrez e a sua adesão à FIDE.
Dez anos após o início da viragem de página do xadrez crioulo, tivemos a estreia da nossa selecção nacional, com a participação numa Olimpíada de Xadrez, competição já há muito sonhada pelos xadrezistas nacionais.
Para se escrever a história do xadrez em Cabo Verde destes 10 anos que medeiam os dias de hoje e a realização, em 2008, do festival de Xadrez de S.Vicente, seriam certamente necessárias muitas folhas. Estou consciente de ter sido parte activa dessa história e de ter sido um dos principais protagonistas dela.
Não posso deixar de relembrar que além de simultâneas, sessões de análise, torneio de partidas rápidas, todos com a participação do GM António Fernandes, o “prato principal” do Festival de há 10 anos, foi o Torneio Comemorativo do 21.º Aniversário da AXSV, onde participaram dois jogadores de S. Vicente (o falecido Alessandro Mazzonni e Luís Fernandes) e dois jogadores da Praia (António Monteiro e José Domingos Andrade).
Texto originalmente publicado na edição impressa do expresso das ilhas nº 890 de 19 de Dezembro de 2018.