A psicologia do erro

PorAntónio Monteiro,12 jan 2020 14:43

​Podia começar a crónica desta forma: para nós outros a alegoria é um erro estético. Meu primeiro propósito foi escrever «a alegoria não é outra coisa que um erro da estética», mas logo notei que a sentença comportava uma alegoria.

Uma simples análise destas três linhas revela-nos que o processo do nosso pensamento não é linear, senão que está sujeito a vaivéns e defeitos típicos, dependendo a sua magnitude de caso para caso e de pessoa para pessoa. O erro é um desses defeitos típicos da actividade intelectual: a ele não escapam nem os mais conceituados decisores – desde o desventuroso treinador de futebol que para o desespero dos adeptos insiste em manter o traiçoeiro zero a zero e acaba por sofrer um golo no último segundo da partida, até o político que volta as costas à própria base perseguindo uma miragem qualquer. Existem poucos trabalhos dedicados a esta temática, não assim no xadrez, e ainda bem, porque é o que nos interessa nesta coluna. Desde Isaac Asimov sabemos que o erro é relativo e que o desenvolvimento da ciência muito deve ao erro. No caso do xadrez o erro tem um valor pedagógico fundamental para o aperfeiçoamento da técnica. O aforismo do sempre espirituoso Tartakower “no xadrez apenas aprendemos com os erros” é indiscutível, mas não seria melhor e mais confortável aprendermos com erros alheios? E porque não de consagrados mestres como Capablanca (quem pensaria) e outros? No jogo dos reis nem os próprios reis estão imunes à distracção do rácio. Nem mesmo os computadores mais potentes, no actual estádio de desenvolvimento, podem calcular todas as variantes e jogar uma partida perfeita sem cometer uma bock, ainda que leve. Antes de passarmos às partidas mais uma tartakoverice –“no xadrez ganha quem comete o penúltimo erro”. A ver vamos.

Von Popiel - Marco

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Esta interessante posição surgiu na partida von Popiel – Marco, disputada em Monte Carlo, em 1902. Fosse eu a jogar com as pretas abandonaria, pois como salvar o Bispo, atacado que está por três figuras, mas só duas vezes defendido? Assim também o pensou Marco e desistiu da partida. Melhor não o fizera, porque jogando o Bispo para g1, ameaçando a Dama e mate em h2 ganhava imediatamente.

Capablanca - Thomas

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Torneio de Hastings, Inglaterra, 1919. Neste caso é Capablanca quem não vê a manobra ganhadora. As brancas deviam ter jogado 1.Txe8 Dxe8 2.Da4 Tc1+. Apesar disso o genial cubano (o melhor jogador tem sempre sorte, dizia ele) ganhou, já que em lugar de 1. Te8 continuou com 1.Dxe8. O lance apareceu tão forte que o seu adversário abandonou imediatamente. Análisis posteriores à partida mostraram que 1…Ta2! salvaria a partida. Se 2.Bb7, então 2...Ta4.


Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 945 de 08 de Janeiro de 2020. 

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Autoria:António Monteiro,12 jan 2020 14:43

Editado porFretson Rocha  em  12 jan 2020 14:43

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