Loide Monteiro: Empresas têm de conhecer os mercados antes de pensar na internacionalização

PorAntónio Monteiro,27 mai 2018 6:58

Em 2011, a Loid Engenharia associou-se a empresários angolanos e nesse país desenvolveu durante cinco anos trabalhos em consultorias na área de desenvolvimento sustentável, em Luanda, Benguela e Huambo. Dessa experiência, a Loid Engenharia trouxe o conceito de Smart Cities, ou cidades inteligentes, cujo projecto para a Cidade da Praia, em parceria com a CMP e a AJEC foi lançado na passada semana. Nesta entrevista a PCA da Loid Engenharia fala-nos desse concurso de ideias que pretende transformar a Praia numa Smart City até 2025. Loide Monteiro tece também algumas considerações sobre os constrangimentos e as chances de internacionalização de empresas cabo-verdianas.

A Loid Engenharia regressou há dois anos de uma experiência internacional em Angola. Que balanço faz?

Efectivamente a Loid Engenharia regressou há quase dois anos de uma experiência internacional muito rica. Em 2011, fomos convidados por um parceiro a abrir uma empresa do tipo Loid Engenharia, em Angola. Nessa altura, como o ambiente de negócios em Cabo Verde não estava muito atractivo para as empresas, fomos desenvolver as nossas actividades em Angola, na área do desenvolvimento em geral. O balanço foi positivo, porque tivemos oportunidade de trabalhar em projectos estruturantes nesse país e enriquecemos muito a nossa experiência profissional e pessoal por se tratar de um mercado completamente diferente do mercado cabo-verdiano, tanto a nível da sua dimensão como da forma de fazer negócios.

Qual é a proporção dos dois mercados?

Vou-lhe dar um exemplo referente à urbanização. Em Cabo Verde a área de um plano de urbanização varia entre 40 e 60 hectares. Em Angola, a experiência que tivemos abrangeu uma área de 2.000 hectares. Por estes números fica claro a dimensão dos trabalhos que se desenvolve em Angola comparado ao de Cabo Verde.

Em que províncias a Loid Engenharia desenvolveu as suas actividades?

Nós trabalhos em Luanda, Benguela e Huambo. Isso em termos de trabalhos mais contínuos. Fizemos também consultorias pontuais em Moxico e Cuango Cubango, mas continuadamente trabalhamos em Luanda, Benguela e Huambo.

Depois o negócio parou.

Sim, houve a crise que despoletou em Angola, com o problema do dólar e das transferências. Portanto, o ambiente de negócios deteriorou ali um pouco. Em Cabo Verde, nessa altura, houve mudanças e tivemos a percepção de que o ambiente de negócios aqui iria mudar relativamente a 2011, quando saímos. Então aproveitamos a oportunidade para regressar e retomar as nossas actividades.

Agora que o preço do petróleo volta a subir, não aventam a possibilidade de regressar a Angola?

Nós temos ainda a empresa ali. Como havia escassez de verbas, suspendemos as actividades para aguardar que surjam novas oportunidades. Continuamos a ter um representante que está no terreno para identificar as oportunidades. Não fechamos o mercado angolano, até porque deixamos alguns trabalhos pendentes que estão a aguardar pela melhoria do ambiente de negócios para retomarmos as nossas actividades.

Que dicas dá às empresas cabo-verdianas que queiram internalizar-se?

Eu acho que o primeiro passo é estudar bem o mercado para onde vão. Em Cabo Verde fala-se muito na internalização das nossas empresas, mas para que países podemos ir? Temos primeiramente de ver quais são os mercados mais atractivos para as nossas empresas fazerem negócio. Portanto, haverá a necessidade de um estudo aprofundado das oportunidades que esses países nos oferecem. Eu acredito que Angola é um dos países onde as empresas cabo-verdianas têm chance de se internacionalizarem, mas têm que conhecer bem o mercado e saber como entrar. Precisamos também do apoio do governo para facilitar essa integração no mercado.

Não há estudos que orientem as empresas cabo-verdianas que queiram aventurar-se mesmo no mercado ao lado da CEDEAO?

Pelo menos não conheço. Fala-se do grande mercado da CEDEAO, mas onde? A CEDEAO tem 15 países, vamos para todos? Por isso acho que faz falta um estudo para orientar e focalizar os países e em que áreas temos oportunidades. Acho que aí o governo, via ministério dos Negócios Estrangeiros, tem um papel importante na facilitação dessa internacionalização.

O que o ministério dos Negócios Estrangeiros tem feito neste sentido?

Desconheço também quais as perspectivas do governo neste aspecto. Já ouvi falar da diplomacia económica, mas não sei exactamente que passos têm dado nesta direcção. Eu acho que a primeira coisa é fazer um estudo que apontasse em que sectores, que produtos e depois que marcados e países é que podemos ir.

Como é que a Loid Engenharia enfrentou na área da construção civil em Angola a concorrência de empresas de países como a China, Portugal, Brasil, entre outros?

Na verdade, na área da construção civil estão no mercado empresas chinesas, portuguesas, brasileiras e outras, mas esse não é o problema, porque não foi nosso propósito operar nessa área. A nossa actividade estava focada na área de consultorias, gestão de projectos e fiscalização, porque não conseguiríamos concorrer com essas empresas na área de construção. Primeiro, porque exige avultados investimentos cuja disponibilidade financeira não temos. A nível da consultoria ou da prestação de serviços, não há muitos investimentos a serem feitos, a não ser as deslocações, e há um mercado. Quando eu estive como consultora do BAD num projecto em Lubambo, estavam à procura de consultores e três consultores de Cabo Verde acabaram por trabalhar nesse projecto. Portanto, há uma procura de consultorias na área do desenvolvimento, e como a língua é portuguesa, acredito que em Cabo Verde conseguem absorver algum mercado na área da consultoria.

De regresso a Cabo Verde, a Loid Engenharia, em parceria com a Câmara Municipal da Praia e a AJEC criou um concurso de ideias para tornar a cidade mais acessível para quem nela mora. Como surgiu a ideia?

Este projecto vem na sequência de duas experiências da nossa empresa em Angola. Na primeira, fizemos um projecto de urbanização, em parceria com uma câmara municipal, em Benguela. Tinham terrenos, mas não tinham recursos para custear os planos e a gestão do projecto. Então estabelecemos uma parceria em que eles disponibilizaram o terreno e nós encarregamo-nos de todo o planeamento para desenvolver aquela urbanização. Na sequência, estivemos em várias apresentações de Smart Cities que é um novo conceito de cidades. É que a maioria das populações querem viver nas cidades e isso exerce forte pressão a nível das infraestrututras, serviços, saúde e segurança. Então a IBM [empresa norte-americana de informática] tem várias aplicações e softwares que são utilizados para trazer maior eficiência nas cidades. Fizeram a apresentação desse projecto, achei o conceito muito interessante e então quis trabalhar para desenvolver o conceito de Smart Cities em Cabo Verde. Quando regressei, fiz uma proposta à CMP para ver qual era a abertura, se tinham terrenos para abraçarmos essa aventura de fazer uma nova urbanização inteligente em Cabo Verde. Felizmente a CMP absorveu a proposta e avançamos nessa parceria de desenvolver o projecto Smart Cities nessa urbanização.

Tratando-se de um concurso de ideias qual é o papel da Loid Engenharia neste projecto?

Bom, a ideia foi nossa, a Câmara Municipal da Praia é também promotora do projecto, porque disponibilizou o terreno para trabalharmos a urbanização. Dentro da urbanização, como a ideia do concurso é transformar a Praia numa cidade inteligente até 2025, o que tem muito a ver com novas tecnologias e inovação, mas que não é bem a nossa área, então nós quisemos abrir esse projecto para os jovens que neste momento têm vários aplicativos que podem ser utilizados nas Smart Cities. É uma forma de os jovens participarem no desenvolvimento do seu país e como é que querem estar no futuro.

As pré-inscrições decorrem até o dia 25 de Maio. Quando é que serão conhecidos os vencedores?

Como afirmou, as pré-inscrições decorrem até o dia 25, duas semanas depois teremos um workshop que é para orientar os jovens na estruturação das suas ideias. Depois terão mais três meses para trabalharem melhor os seus projectos e depois submetê-los para avaliação. Vamos ter um júri que vai avaliar as ideias e depois essas pessoas vão ter oportunidade de verbalmente convencer o júri da bondade dos seus projectos e depois serão escolhidos três vencedoras mulheres e três vencedores homens.

Parece tudo muito abstrato. Podia dar um exemplo de uma ideia que já foi entregue?

Sim, já recebemos várias inscrições. Temos, por exemplo, uma de alguém que esteve a pensar num Acqua Park abastecido a energia solar; temos uma outra inscrição para mobilidade de táxis e autocarros. Através de uma plataforma sabemos onde o autocarro está e não precisamos ficar muito tempo na paragem, porque sabemos a que horas o autocarro vai passar ali. Tivemos também uma inscrição para soluções ligadas às energias renováveis, etc. Portanto, já recebemos várias inscrições com ideias interessantes ligadas a serviços na cidade e como podem ser melhorados com esses aplicativos para serem mais eficientes. Poderia dizer que as palavras-chave do projecto são eficiência e sustentabilidade que buscamos com as Smart Cities. É não desperdiçar recursos, porque os recursos são escassos e há muita população à procura de serviços e temos que reduzir os desperdícios para sermos mais eficientes e conseguir dar vazão à demanda que temos. A sustentabilidade tem muito a ver com a questão das mudanças climáticas que estamos a verificar. Então temos que trabalhar a questão da sustentabilidade, sobretudo a eficiência energética, as energias renováveis, etc., para reduzir os impactos decorrentes das mudanças climáticas.

O mercado das Smart Cities esta a crescer em tudo o mundo e já representa um negócio de bilhões. Com este projecto podem surgir futuras empresas em Cabo Verde na criação de aplicações e de negócios dentro desta área?

Neste momento o mercado das Smart Cities está a crescer a 14 por cento, atingindo cifras de bilhões. Todos os países estão a investir em soluções de Smart Cities. É um mercado emergente que pode ser uma oportunidade para Cabo Verde e nós estamos a pensar nessas soluções não só para a nossa empresa, mas também para Cidade da Praia e para outros municípios dentro do país e quem sabe para mercados fora de Cabo Verde. Queremos soluções sustentáveis e eficientes que depois podem ser comercializadas fora do país.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 860de 23 de Maio de 2018.

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Autoria:António Monteiro,27 mai 2018 6:58

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  28 mai 2018 10:45

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