O All Inclusive seca tudo à volta

PorJorge Montezinho,26 ago 2018 7:34

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​O Algarve recebeu 4 milhões de turistas no ano passado, o que correspondeu a 18 milhões de dormidas e representa cerca de metade dos rendimentos obtidos pelo sector em Portugal. O turismo no sul de Portugal começou há cerca de 40 anos, com os ingleses, mas muitos dos desafios de hoje têm algumas semelhanças com os que Cabo Verde enfrenta

O Expresso das Ilhas entrevistou José Carlos Leandro, Presidente do Conselho de Administração da Empresa Alisios Imobiliária e Turismo S.A. e Vice-Presidente da AHETA (Associação dos Hotéis e Empreendimentos do Algarve).

Quando começaram a sentir o impacto dos grandes operadores no Algarve?

No início foram bem-vindos, continuam a ser bem-vindos. No início eram únicos e aqui há uns anos, com o aparecimento das novas tecnologias, tudo mudou. Os operadores têm uma importância ainda vital no Algarve, mas não necessariamente como tinham há 30 anos quando começaram a trabalhar no Algarve. As novas tecnologias actualmente representam uma fatia que substitui os grandes operadores. Substituem numa percentagem ainda pequena porque o Algarve, na minha opinião, e não estou a falar como vice-presidente da associação, mas como empresário, não pode deixar de trabalhar com os operadores e trabalhar em exclusivo com o online. Talvez um dia isso venha a acontecer. Não neste momento.

Online, os operadores sem rosto, a quem o antigo secretário de Estado do turismo Vítor Neto chamou os “donos disto tudo” – como o Google, Booking, Trip Advisor.

Ainda estão longe de ser os “donos disto tudo”. Eu conheço o Dr. Vítor Neto, e tenho opiniões muito convergentes, mas está longe de o Algarve sobreviver sem os operadores tradicionais. Estes complementam. Dou-lhe um exemplo concreto, hoje eu tinha seis quartos por uma noite para vender, o operador não consegue vender uma noite e os operadores online venderam. Portanto, é um complemento muito importante, mas não substitui os operadores.

A diversificação depende muito da força e do empenho do governo em conjunto com os empresários para a desenvolver

O Algarve dependia em mais de 50 por cento de um único operador, e numa intervenção que teve chegou a dizer que havia a necessidade de diversificar a oferta. O que se entende por esta diversificação?

É uma boa pergunta. A diversificação depende muito da força e do empenho do governo em conjunto com os empresários para a desenvolver. Um não consegue sem o outro, tem de haver uma convergência para atingir objectivos. A diversificação deve existir, mas também não podemos esquecer que bastaria aumentar 1 por cento do mercado que foi desde sempre o nosso principal mercado, que é o inglês, ou seja apostar numa promoção mais eficaz no Reino Unidos, para que o Algarve ficasse, de um momento para o outro, em overbooking. É bom que haja uma diversificação, mas também não deixo de apontar que qualquer diversificação precisa de um investimento maior, principalmente em mercados novos.

Quem deve fazer a promoção? O Estado ou os privados?

A promoção não deve ser feita pelo Estado, mas não deve ser feita sem o Estado. O Estado que recebe os impostos resultantes, é lógico que tem uma contrapartida importante no investimento e que deve rondar, pelo menos, 5 por cento das receitas geradas. E a parte privada tem também uma componente importante, não só em investimento, mas sobretudo em determinar quais os mercados onde a promoção deve ser aposta. Albufeira, por exemplo, deve apostar na promoção no mercado Alemão e o resto do Algarve no Inglês. Agora, a promoção deve ser feita de uma forma moderna e não apenas para fazer que faz.

Já não basta ir às feiras de turismo e montar um stand?

Não. As feiras de turismo estão antiquadas há imenso tempo. Há dez anos que deixaram de ter importância. Tiveram o seu tempo há 30 ou 40 anos, mas já não se faz negócio em feira alguma, isso está ultrapassado. De há uma década a esta parte, as novas tecnologias vieram revolucionar completamente o mercado e quem não pensar assim está totalmente fora do contexto. E isto digo-o com grande convicção e sem problemas em afirmá-lo. Aqui no Algarve fomos comprados, e como fomos comprados não tínhamos de fazer nada. Eles vinham e compravam e nós oferecíamos o que tínhamos. E nunca nos habituamos a fazer qualquer esforço no sentido de vender porque não era necessário. Estávamos sempre cheios sem mexer uma palha, ainda sou do tempo em que tinha 200 operadores ingleses a fazer negócio comigo e hoje tenho cinco na Europa, veja a diferença. Não temos massa crítica, não temos qualquer força, qualquer poder para negociar. Eles compram ao preço que acham que devem comprar, desviam o mercado para onde acham que devem desviar e nós não temos voz na matéria. A única coisa em que conseguimos ter alguma força é porque o Algarve é considerado, bem não é o Algarve é o país, o melhor destino do mundo e não há razão nenhuma para os operadores, tendo tudo na mão, deixarem de trabalhar no Algarve. Mas quando se sabe que o Algarve, para o maior operador a trabalhar connosco, representa 2,9% da facturação global, isso quer dizer que ele, de um momento para o outro, pode ir embora que não lhe afecta nada o orçamento.

As feiras de turismo estão antiquadas há imenso tempo. Há dez anos que deixaram de ter importância

Mas afectaria terrivelmente o Algarve.

Eles podem levar tudo, eu não posso levar o hotel daqui para fora. Esse é um ponto muito sério e que infelizmente pouca gente fala, ou mesmo tendo consciência não parecem muito preocupados. Eu estou altamente preocupado.

No Algarve o maior operador é a TUI. Aqui em Cabo Verde é similar, apesar da percentagem de turismo que depende dos grandes operadores ser muito maior do que no Algarve. Isto é um risco real para qualquer país que depende destes grandes operadores? Este risco de se fartarem e, simplesmente, irem embora?

Se eles se fartarem, quem os vai substituir, pergunto eu. Se eles se fartam é por algum motivo. São os pequenos que os vão substituir? E aqui está o perigo e eles tendo consciência desse perigo fazem as manobras que querem. Eles sabem que são indispensáveis. A TUI tem a perfeita consciência que é indispensável no Algarve, portanto, vai gerindo da forma que lhe apetece. Eu trabalho bastante com a TUI, quase em 80%, mas tenho a consciência absoluta que não é a melhor solução. Mas qual é a alternativa?

Ou seja, têm o controlo sobre a economia de uma região.

Eles é que controlam, porque aqueles 200 operadores que eu tinha antes para negociar deixaram de existir porque foram comprados pelos grandes operadores. Era inimaginável pensar que a TUI viesse a comprar a Thompson [a Thompson Holidays, actualmente TUI UK, foi comprada em Outubro de 2017 pelo Grupo TUÍ], era a coisa mais absurda, no entanto aconteceu e eles agora têm o monopólio absoluto. A Thomas Cook faz algumas cócegas, mas não é concorrência.

A TUÍ tem a perfeita consciência que é indispensável no Algarve, portanto, vai gerindo da forma que lhe apetece

Por falar em turismo de massas, sei que não é grande apoiante do All Inclusive. Porquê?

(risos) Veja o que aconteceu na Grécia. Sou um crítico há muitos anos, não porque tenha vivido a questão no terreno, mas sim pela informação que tenho enquanto empresário nesta área que tem a necessidade de saber o que se passa à minha volta. E não é à minha volta aqui em Albufeira, é à minha volta no mundo. Como lhe falei da Grécia, o que aconteceu em Corfu? Que era muito mais famoso que o Algarve e veja que agora quase ninguém sabe onde fica Corfu, e quem o matou foi o tudo incluído. O tudo incluído nasceu nas Caraíbas por uma razão lógica: falta de segurança. Simplesmente, há resorts com a dimensão de Albufeira e maiores, em que uma pessoa está lá uma semana, cercado de arame farpado, e não se sente fechado. Tem boas praias, bom serviço, bom clima, etc., tem tudo. Tiro o chapéu quando eles se lembraram de fazer este conceito. Muitos vão, a maioria até gosta, mas estão lá fechados. E depois há o problema fatal que é a economia local. Não há turismo forte sem economia local forte. Se o cliente vem de Inglaterra, ou da Alemanha, chega de madrugada, mete-se num hotel e depois de uma semana sai, o que é que a economia local ganha? O que fazem os táxis? Os restaurantes? O que é que o artesanato vende? A economia local acaba. Seca tudo à volta. Mas isto não sou eu que digo, basta ver os países onde isso aconteceu. Consultem. Isso é assim, está provadíssimo. O diagnóstico está feito, a bactéria entra e não há até agora, que eu saiba, nenhum antibiótico para a combater. É fatal. Acaba com tudo. Porque não havendo economia local, não havendo tudo o que está associado ao turismo, os hotéis não sobrevivem por si só, não conseguem. E o operador acaba por abandonar o país e é o fim de tudo.

Numa altura em que se fala que os turistas mais do que sol e praia querem é ter experiências, ao irem para um All Inclusive, tanto lhes faz estar nas Caraíbas, como em Marrocos, ou no Algarve.

Isso é tal e qual como diz. Numa das visitas a Londres perguntei a um taxista, um rapaz novo, se conhecia Portugal. Ele disse que não, mas conhecia a Amália. O que achei curioso porque não falou no Cristiano Ronaldo. No decorrer da conversa descobri que tinha estado em Monte Gordo, aqui no Algarve. E o que aconteceu? Ele chegou de madrugada ao All Inclusive, no autocarro que o trouxe do aeroporto, embriagou-se durante a semana e nem sabia onde tinha estado, só se lembrava do nome Monte Gordo. Ou seja, não é este turismo que o Algarve precisa. Nem o Algarve, nem Cabo Verde, nem lado nenhum. Lembro-me que há uns anos, em conversa com o anterior presidente da câmara do Sal, o Dr. Jorge Figueiredo, perguntei-lhe como estavam as coisas e ele levantou os braços e disse-me, nem me fale nisso, tenho cidades fantasmas. E em Cabo Verde, que eu saiba, nem sequer a comida que os hotéis oferecem é produzida no arquipélago.

É quase tudo importado.

Então que economia deixa aí? Impostos e ordenados? Isso não chega. E tudo à volta? São cidades fantasmas. Isto é dos livros, não há hipótese nenhuma sem uma economia local. O ano passado estive numa reunião com o Ministro da Economia de Portugal, em que ele também era dessa opinião: o dinheiro fica nos hotéis. Mas o dinheiro, ficando ou não nos hotéis, não fica na economia local. Até porque alguns hotéis pagam os seus impostos fora do país onde estão instalados. A maior parte aliás. Portanto, isto é um erro gravíssimo, mas eu estou a falar na minha opinião.

Fundamental, portanto, é criar laços com a economia local. Que estratégia usa no seu hotel?

Cada um trabalha na sua área. Eu tenho o hotel, mas há quem organize as excursões, ou os passeios de barco, tudo isso faz com que, em primeiro lugar, o turista saia do hotel e vá visitar o que o Algarve tem para oferecer. Vai para o interior, vai para as praias, consome nos restaurantes locais, compra nos artesãos, etc. Aliás, nós não queremos que o turista fique no hotel, ele não gasta mais por estar fechado. Gasta muito mais passando o dia fora, chegando satisfeito e indo satisfeito ao bar do que estando fechado. Isso é quase passar de um hotel a uma prisão. Voltando atrás, quando me perguntava sobre o papel do governo, é o governo que tem de estabelecer as políticas para o sector. Dou-lhe um exemplo, o ano passado foi considerado o melhor de sempre para o turismo português em termos de receitas. E isso para o governo foi importantíssimo, inclusive o défice baixou como resultado das receitas geradas no turismo. E toda a gente embandeirou em arco. Os políticos gostam muito de aproveitar determinadas circunstâncias e gostam muito de falar em taxas de ocupação – eu não pago ordenados com taxas de ocupação, mas eles gostam muito de falar disso – e aqui juntaram-se as duas coisas, felizmente, a taxa de ocupação e as receitas. Eu quero ver o que vão dizer este ano, que não vai ser seguramente igual, porque houve erros, como aumentarem-se os preços brutalmente. E agora em Agosto estão a fazer promoções. Tem de haver algum cuidado, porque isto é um negócio que não pode ser feito de oportunismos, tem de ser feito com visão, com parâmetros e não agora um “temos muita gente então vamos aumentar os preços”. Não é assim. Temos é de fazer a receita que nos permite gerir e tirar as mais valias de acordo com aquilo que é expectável e não andar ao sabor de especulações. Até porque não conheço nenhum negócio especulativo que dure muito tempo.

Não há turismo forte sem economia local forte. Se o cliente vem de Inglaterra, ou da Alemanha, chega de madrugada, mete-se num hotel e depois de uma semana sai, o que é que a economia local ganha?

Ou seja, o que acontece é que se está a aproveitar este boom turístico – 20 milhões em Portugal o ano passado – e não se está a pensar no futuro?

O que é importante é ter a consciência do que devemos fazer para que este negócio seja – e espero que Cabo Verde possa evitar alguns erros que o Algarve cometeu – de futuro. Ninguém quer cidades fantasmas. O mal do turismo é haver demasiados treinadores de bancada em que toda a gente tem solução e aqueles que deviam falar e juntar-se para implementar as sinergias necessárias para que isto seja um negócio sem sazonalidade – que é um problema que temos no Algarve, penso que em Cabo Verde não, onde temos seis meses em que praticamente metade dos hotéis fecham porque não têm clientes – e essa é que devia ser a nossa preocupação, esbater as partes negativas. E ao fazê-lo conseguíamos que os preços reduzissem no Verão. Custa-me levar mais de 200 euros por uma noite em Agosto no meu hotel, porque se tivesse uma ocupação igual no Inverno, se calhar, podia levar 100 euros.

Os novos caminhos que se falam para o turismo, saúde, sénior, pode ser uma maneira de contornar essa sazonalidade?

Claramente. Esse é um dos pontos importantes e o Algarve tem apetência e potencialidade para o desenvolver. Agora, lá está, depende do governo, que terá uma palavra importantíssima para o conseguirmos.

Por falar em turismo e infra-estruturas, qual é o impacto do aeroporto de Faro [cidade algarvia a cerca de 40 quilómetros de Albufeira. O aeroporto foi inaugurado nos anos 60, remodelado recentemente, e nos últimos anos teve um incremento de passageiros devido aos voos low cost, tornando-se no terceiro mais movimentado de Portugal. A TAP e a Ryanair têm actualmente uma base de operações no aeroporto] no turismo da região?

Obviamente, o aeroporto é fundamental. Se não tivermos um aeroporto de acordo com as capacidades que precisamos de receber, logicamente não só não recebemos como não damos um bom serviço a quem nos visita. O aeroporto de Faro acabou de ser remodelado, é uma infra-estrutura indispensável, e, felizmente, está a corresponder. Aliás, até Espanha está a usar o nosso aeroporto, principalmente para os turistas que visitam a Andaluzia.

Ainda em relação à sazonalidade. É um defensor dos grandes eventos como âncoras para o turismo. O que estão a fazer no Algarve?

Nada. Mas não é o Algarve. Voltamos à mesma questão. A roda já está inventada, não vale a pena estar a tentar inventar mais rodas, mas sim ver o que se passa. O Algarve, como outras regiões parecidas, tem de ter algo, um grande evento que divulgue a região. Por exemplo, tinha um na calha que era juntar 10 ou 12 Prémios Nobel da Paz aqui, e foi por um triz que não se realizou. Mas veja o que aconteceu com Lagos, ninguém conhecia e hoje toda a gente conhece, porquê? Por causa dos eventos [Lagos organiza o Festival dos Descobrimentos, que recorda usos e costumes dos séculos XV e XVI. É também conhecida pelo Banho 29, manifestação cultural que inclui a reconstituição dos antigos hábitos balneares]. Mas é preciso ter muito cuidado com essas coisas, porque ao fazermos isso criamos uma responsabilidade enorme. A mesma que temos actualmente ao sermos considerados o melhor destino turístico do mundo. Isto é uma coisa brutal. Criámos aqui uma responsabilidade e, no meu entender, não estamos à altura disso. É verdade que temos oito campos de golfe entre os 50 melhores do mundo. Temos das melhores praias? Também. Temos segurança? Temos. Temos cidades cada vez mais cosmopolitas. Concordo com isso tudo, mas simultaneamente criou-se aqui uma responsabilidade enorme. E, repito, não podemos estar a aumentar preços brutalmente só por este facto. Temos de ter consciência que temos de dar o troco ao preço que estamos a praticar. Temos de ter um serviço capaz e, por exemplo, não temos neste momento mão-de-obra capacitada.

Mas têm a Escola de Hotelaria do Algarve.

A Escola de Hotelaria do Algarve tem o mérito que tem, mas há quem se aproveite da escola para fins que não são os mais correctos. Infelizmente, muitos formandos frequentam a escola não para ingressar no ramo do turismo, mas sim para tirarem o 12º ano mais facilmente. Por isso saem fornadas e a mão-de-obra continua insuficiente porque grande parte não entra no turismo. Espero que em Cabo Verde isso não aconteça. Aliás, sabe qual é o maior problema actual do Algarve? É falta de mão-de-obra. Não é turistas. É falta de mão-de-obra. Porque o negócio, seja a vender turismo seja a vender peixe, está no equilíbrio entre o que se paga e o que se recebe e nisso, infelizmente, temos muita dificuldade.

Quais considera serem os grandes desafios para o sector?

(risos) Diria isto de uma forma muito simples. Sabe o que faz falta para os próximos anos? É que os responsáveis pela indústria do turismo reúnam, falem e consigam encontrar soluções colectivas e não andar de costas viradas. Enquanto isto não acontecer, vamos sempre achar que alguma coisa está mal, vamos constatar o que está mal e dificilmente conseguiremos fazer alguma coisa, porque isto não é feito por um, é feito por todos. O turismo mexe com tudo. Por isso há que estabelecer diálogo, construir consensos, delinear promoções. Lembro-me há uns anos, quando queríamos resolver um problema, um grupo de empresários convidou um norte-americano muito importante para vir dar uma palestra. O senhor dirigiu-se à plateia, cumprimentou-nos e disse: é a minha primeira vez em Portugal, queria fazer-lhes algumas perguntas antes de dizer o que tenho a dizer. E então levou três minutos a fazer perguntas: vocês têm bom clima? Temos. Têm boa gastronomia? Temos. Têm boa segurança? Temos. Têm isto, têm aquilo? Temos. Foram 3 minutos. Não houve uma resposta negativa. E ele então: meus senhores, muito obrigado, vou embora porque não tenho nada a acrescentar a não ser entendam-se. Isto é verdade. Levou um cheque chorudo, gozou com todos os senhores empresários que o chamaram e não deixou de ter razão. Isto aconteceu há muitos anos e continua actual. Portanto, nós sabemos tudo, mas ninguém promove reuniões. Eu quero que todos os hotéis meus concorrentes estejam cheios, mas parece que mais ninguém partilha isso. Porque se os outros estão cheios, de certeza que o meu não há-de estar vazio, não é?

E ganha a economia local.

Pois. Essa questão, para mim, é a mais determinante. Sem isso não há hipótese. Mesmo os pequenos hotéis não vão sobreviver. É o que acontece no Algarve. Neste momento temos um problema dramático. Um cliente que vem para um tudo incluído não tem o mesmo poder de compra de outro que não o faz. Normalmente o que vem com o tudo incluído já faz um esforço económico para vir para o tudo incluído. O turista, que considero que devemos escolher a dedo e que interessa ao Algarve, não convive na mesma unidade com esse tipo de turistas. Não se sente bem. E ao não se sentir bem, não volta. Ou seja, o cliente que queremos no Algarve, vai embora. E quantos mais desses vão embora, mais vêm dos outros, o que complica cada vez mais a situação. É o que acontece no Algarve, que está a passar por uma situação complicadíssima exactamente por causa disso. E não é só atrair o turista com dinheiro. Quando um turista, o que nos interessa, vem ao Algarve, deve saber minimamente porque escolheu este destino, seja pela praia, pelo sol, pela gastronomia, pela paisagem, etc., não pode é vir para o Algarve porque tem tudo incluído e o operador o mandou para lá. Não é esse turista que queremos, nem é esse turista que sustenta o Algarve. E quem diz o Algarve, diz qualquer outra parte do mundo.


Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 873 de 22 de Agosto de 2018.

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Autoria:Jorge Montezinho,26 ago 2018 7:34

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  2 set 2018 14:05

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