2022, o ano da esperança

PorAndre Amaral,9 jan 2022 8:41

2022 ainda está a dar os primeiros passos, mas para as Câmaras de Comércio de Sotavento e Barlavento e para o Instituto de Turismo é um ano de esperança na recuperação da economia nacional.

Esperança é a palavra que domina os discursos de Marcos Rodrigues, Jorge Maurício e Humberto Lélis, presidentes das Câmaras de Comércio de Sotavento, Barlavento e do Instituto de Turismo.

Ouvidos pelo Expresso das Ilhas estes três responsáveis acreditam que 2022 vai ser um ano de retoma. Uma retoma em que o turismo vai ter um papel central, mas em que há igualmente a expectativa de que os outros sectores ganhem um papel de maior relevo na economia nacional, nomeadamente o sector das pescas e da agricultura.

“A perspectiva é positiva do ponto de vista daquilo que nós esperamos”, aponta Marcos Rodrigues, o presidente eleito da Câmara de Comércio de Sotavento (CCS). “Estamos a atravessar um período complexo da nova variante da COVID, mas segundo os dados que vamos recebendo esta situação poderá ser transitória. Poderemos ter, no final do primeiro trimestre, um abrandamento e a economia mundial poderá ter o crescimento que se pretende e Cabo Verde poderá aproveitar isso”.

Para Jorge Maurício, presidente da Câmara de Comércio de Barlavento, o ano que agora começa é um ano “de esperança e de muita confiança”, apesar do ambiente de “muita incerteza” que se vive actualmente. Incertezas que são provocadas “pelo processo de negociação do Orçamento do Estado e da sua aprovação, das condições sanitárias, das variantes que possam surgir e daquela que está agora entre nós com grande poder de disseminação”. A vacinação e as doses de reforço são essenciais neste processo de retoma, defende o presidente da CCB, assim como a esperança de que “não haja novos confinamentos e encerramento de fronteiras”.

“As expectativas são boas, pelo menos a julgar pelos indicadores a nível de recuperação dos mercados, sobretudo no último trimestre de 2021”, aponta por sua vez Humberto Lélis, presidente do Instituto de Turismo.

Com as expectativas em alta, Humberto Lélis, no entanto, não deixa de alertar que “as reservas são mais do que aconselháveis, porque temos um quadro de contágio tanto a nível da Europa como a nível local” que torna difícil fazer “uma leitura da forma que isso possa vir a impactar a dinâmica da procura” de Cabo Verde enquanto destino turístico.

OE2022

Para o presidente da CCS outro factor determinante são as políticas a serem implementadas com o novo Orçamento do Estado. “O governo não tinha muito para onde se virar do ponto de vista de maior performance do ponto de vista do desenvolvimento, por estar condicionado por vários problemas como o aumento dos preços a nível internacional, a questão do acesso ao financiamento, do endividamento do país e, nessa perspectiva, o cenário não é favorável. O Orçamento que se fez foi o possível, mas pode ter algumas correcções, o governo deverá sempre pensar durante o percurso em fazer o melhor para que possa dar a Cabo Verde um destino melhor”.

Crescimento económico

Governo, Banco de Cabo Verde e FMI têm apontado um crescimento a rondar os 6% durante este ano.

Para Marcos Rodrigues, mesmo tendo em conta as condições sanitárias actuais, é possível alcançar este valor “se tivermos em conta diversos indicadores. Todavia o crescimento de Cabo Verde está assente essencialmente no turismo, como todos sabemos, se esse sector continuar a comportar-se como se tem comportado até agora poderemos atingir esse crescimento de 6%. Mas convém dizer que o crescimento apenas de um sector não é o ideal para o desenvolvimento do país”. O presidente da CCS defende que Cabo Verde tem de “diversificar as suas fontes de receita e deixar de estar agarrado apenas ao desenvolvimento do turismo. A COVID veio provar-nos que no momento em que os países emissores de turistas não controlarem a pandemia poderemos ter aqui alguns problemas graves e estagnar esse crescimento”.

Já o presidente da CCB defende que alcançar esse crescimento económico estimado de 6% “vai depender de muita coisa”. “A nossa incerteza continua na grande dificuldade de conseguirmos executar os orçamentos assim como estão previstos para 2022. Porque depende, de facto, de variantes mais difíceis, ou não, de contornar, mas se houver boas políticas públicas elas poderão ajudar a consolidar uma recuperação sustentável e duradoura com reformas que estimulem o crescimento e redireccionem a economia para um caminho de desenvolvimento da economia verde e da economia azul. Nós todos falamos em diversificar a economia, mas é preciso que passemos do discurso para a prática”.

Diversificação económica

A diversificação da economia que leve a esse crescimento económico passa, no entender de Jorge Maurício, por exemplo, pelo desenvolvimento do sector das pescas. “Temos de pensar numa pesca para reexportação, numa pesca para também permitir que a indústria de pescado para exportação se desenvolva, numa agricultura orientada não só para o mercado interno mas também para o mercado da indústria hoteleira do Sal e da Boa Vista. Temos de pensar nos transportes aéreos e marítimos de uma forma global e numa praça financeira que permita mais serviços financeiros”.

A aquacultura, defendem Jorge Maurício e Humberto Lélis, é apenas dos casos possíveis de diversificação da economia nacional e apontam o projecto da Nortuna, a ser implementado em São Vicente, Santo Antão e São Nicolau, como um exemplo a seguir.

“Este tipo de projecto é fantástico porque está acoplado a outras coisas. Não é só a aquacultura, também tem a parte da investigação, do transporte aéreo de carga, das energias renováveis. Isto sim são projectos que acabam por trazer ganhos à comunidade cientifica e académica. O crescimento e o emprego vão ser afectados de forma directa”.

“O projecto Nortuna é um projecto de grande envergadura e que terá um grande impacto extraordinário nos próximos tempos”, apontou, por sua vez o presidente do Instituto de Turismo.

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Para o presidente da CCS, no entanto, “falta uma estratégia” que conduza a uma efectiva diversificação económica.

“Temos um tecido empresarial muito incipiente. Cabo Verde padece de estratégias claras do ponto de vista do seu desenvolvimento. Sabemos que Cabo Verde não tem matérias-primas para transformar, mas tem hoje à sua disposição condições excepcionais para o desenvolvimento e o crescimento em outros sectores”, defende Marcos Rodrigues nesta conversa com o Expresso das Ilhas.

Para o presidente da Câmara de Comércio de Sotavento há um potencial elevado na área dos serviços, mas para que esse potencial seja aproveitado “é necessário resolver as questões das telecomunicações e da internet. Temos potencial na questão da economia azul e podemos atrair investidores internacionais com grande potencial de investimento e temos a questão alimentar. Não precisamos de terra nem muita água para podermos produzir alimentos. Temos é de estar atentos ao que se faz no resto do mundo e utilizarmos a grande dinâmica tecnológica para podermos fazer esse salto necessário, porque Cabo Verde, continuando a sustentar a sua economia num sector, não tem condições de poder estar tranquilo no seu caminho de desenvolvimento”.

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BCV mantém previsão de crescimento do PIB

O Banco de Cabo Verde (BCV) mantém a previsão do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 6,6%, em 2021, e entre 4,7 e 5.6%, para 2022, apesar do contexto de “elevada” incerteza que se vive.

Em entrevista à Inforpress, o governador do BCV, Óscar Santos, disse que o banco central previu dois cenários, exactamente para acomodar a eventual materialização de riscos provenientes das economias dos parceiros cabo-verdianos.

“Na altura, quando foi projectado, o cenário adverso foi concebido como medida de precaução no caso de aparecimento de novas variantes do vírus Sars-Cov-2. Pouco tempo depois surgiu a variante Ómicron que colocou novamente as economias parceiras em situação de confinamento parcial”, apontou.

O governador do banco central considera que é “fundamental a inversão da trajectória” da dívida pública de Cabo Verde, já que o “alto endividamento acabará sempre por prejudicar” o crescimento económico.

Óscar Santos salientou também que a gestão da dívida pública é da responsabilidade do Governo, a quem cabe delinear as melhores políticas, mas sublinhou que é também uma preocupação do BCV, que tem o papel de aconselhar o executivo a esse nível.

“E nesta matéria podemos afirmar que estando o rácio da dívida pública em cerca de 156% do PIB, estamos numa situação de risco de ‘distress’ da dívida, por isso é motivo de preocupação para a autoridade monetária que tem a responsabilidade de defesa do regime cambial”, declarou.

O governador recordou que no ano de 2020 com a queda das receitas e a necessidade de manter algumas despesas, sobretudo, as despesas sociais e a necessidade de apoiar as famílias, o Estado não teve outras alternativas senão manter ou aumentar despesas, sobretudo as despesas sanitárias, tendo em conta a crise que o País está a viver. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1049 de 5 de Janeiro de 2021. 

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Autoria:Andre Amaral,9 jan 2022 8:41

Editado pormaria Fortes  em  9 jan 2022 8:41

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