Turismo longe dos números do passado recente

PorJorge Montezinho,4 set 2022 8:33

Houve alguma retoma, mas o destino Cabo Verde teve um desempenho inferior à média global para o sector. Segundo o relatório sobre o estado da economia em 2021, do Banco Central, publicado recentemente, e analisando a evolução da procura e das receitas, a actividade turística mostrou alguma recuperação no ano passado, principalmente no segundo semestre, mas os valores estão ainda longe dos níveis pré-pandémicos.

Em 2020, a covid-19 foi responsável pelo pior desempenho que o país já teve na história do turismo, mesmo assim, houve mais turistas que em 2021 (179.886 turistas em 2020 – 135.051 em 2021. Em 2019 houve 757.982 turistas internacionais. Dados do INE). No ano passado, Cabo Verde teve uma redução de 24,9% na procura turística internacional, ou seja, na entrada de hóspedes não residentes nos estabelecimentos hoteleiros nacionais. Apesar da descida, esta percentagem representa uma melhoria comparado com 2020 (o ano da pandemia teve uma queda na procura turística de 76,3%).

Mesmo com esta melhoria, o desempenho do sector turístico nacional foi inferior ao desempenho mundial do sector, que registou um crescimento de 4,6 por cento em 2021. No entanto, a actividade turística global continuou abaixo dos níveis pré-pandemia, com as viagens a serem afectadas pelas diferentes taxas de vacinação entre países e pelo aparecimento de novas variantes da Covid-19 que geraram mais restrições nas viagens.

Apesar disso, todas as regiões registaram crescimentos na procura turística, com excepção da Ásia e Pacífico e do Médio Oriente, que tiveram uma redução de 64,7% e 8,3%, respectivamente. A procura turística da região da África Subsariana aumentou 15,7%. No ano passado, os destinos mais procurados foram a Tailândia, o Reino Unido, a China, a Alemanha, os EUA e a Itália.

Em Junho, dados do INE mostravam que do total de turistas que visitaram Cabo Verde em 2021, 86,1% viajaram em pacote turístico, e destes 74,4% viajaram no sistema tudo incluído.

As agências de viagens e operadores turísticos (56,8 %) lideram a lista de meios que os turistas usam quando recolhem informações sobre Cabo Verde, seguido de amigos (23,2%) e das redes sociais com 16,8%.

Dormidas e receitas

Nas dormidas, a procura turística por Cabo Verde caiu 30,1% (-78,2% em 2020), como resultado da redução assinalada na maior parte dos mercados emissores: Reino Unido (69,1%), Alemanha (8,4%), Países Baixos (45,1%) e França (67%).

Nem tudo foi negativo. Esta evolução, em baixa, foi atenuada com as subidas registadas noutros mercados emissores, como Portugal (aumento de 183,4%), EUA (72,2%) e Espanha (4,6%). O principal mercado emissor de turistas, no ano passado, passou assim a ser Portugal com 21% do total da procura turística, seguido da Alemanha com 12,5%, Países Baixos com 8,5% e Reino Unido com 8,2%.

As receitas brutas da actividade turística internacional tiveram uma redução de 7,6% (queda de 69,2% em 2020). Já as receitas brutas de viagens internacionais por dormida/por dia, aumentaram 32,2%, para os 18.060 escudos (13.659 escudos em 2020).

Sol e mar

As ilhas do Sal e da Boa Vista continuaram a ser os destinos preferidos dos turistas estrangeiros e nacionais, com as maiores taxas de ocupação: 31% e 63%, respectivamente. As duas ilhas acolheram 82,5 por cento do total da procura turística, que se concentrou, principalmente, no terceiro e quarto trimestres do ano.

Em relação à oferta turística, o número de estabelecimentos hoteleiros no país aumentou de 124 para 292. O número de camas passou de 4.094 para 24.156. A capacidade de alojamento subiu em todas as ilhas, sobretudo na Boa Vista e no Sal com, respectivamente, 21% e 58% do total. Santo Antão continuou a liderar a oferta de estabelecimentos hoteleiros (69 unidades, representando 23,6% do total). Sal, Boa Vista e Santiago continuam a liderar a oferta de quartos e camas.

Índice de Desenvolvimento Turístico

Cabo Verde melhorou uma posição no ranking do turismo mundial, de acordo com o Travel & Tourism Development Index (TTDI) de 2021, do World Economic Forum. O arquipélago pontuou 3,6, numa escala de 1 a 7, ocupando o 82º lugar em 117 países (em 2019, ocupou o 83º lugar).

Abarcando 117 economias, o Travel & Tourism Development Index (TTDI) mede o conjunto de factores e políticas que permitem o desenvolvimento sustentável e resiliente do sector de viagens e turismo, que por sua vez contribui para o desenvolvimento de um país. Este índice substitui o anterior Travel & Tourism Competitiveness Index (TTCI), publicado bienalmente nos últimos 15 anos, com algumas alterações na metodologia e na estrutura. O novo TTDI inclui mais um subíndice, o da “sustentabilidade”, com 3 pilares: “sustentabilidade ambiental”, “condições e resiliência socioeconómica” e “pressão e impacto da procura de viagens e turismo”.

A nível regional, Cabo Verde teve a classificação mais alta da África Ocidental, sendo o mais desenvolvido nos pilares “ambiente de negócios”, “saúde e higiene”, “prioridade atribuída ao sector de turismo e viagens”, “abertura internacional” e “infra-estrutura turística”. Na África subsaariana, Cabo Verde ocupa o 6º lugar, depois das Ilhas Maurícias (62º), África do Sul (68º), Botswana (76º), Quénia (78º) e Tanzânia (81º).

Em relação à classificação de 2019, e em termos globais, o país registou melhorias nos subíndices relacionados com: (i) “Políticas e condições de viagens e turismo”, em todos os seus pilares, nomeadamente, abertura internacional (+14), prioridade atribuída ao sector de turismo e viagens (+8) e competitividade de preços (+4); (ii) “Sustentabilidade”, nos pilares pressão e impacto da procura de viagens e turismo (+18) e condições e resiliência socioeconómica (+6); (iii) “Ambiente adequado”, nos pilares ambiente de negócios (+5) e segurança e proteção (+4); e (iv) “Infra-estrutura”, no pilar infra-estrutura de transporte terrestre e portuário (+2).

Por outro lado, Cabo Verde recuou nos pilares: (i) infraestrutura de transporte aéreo (-20) do subíndice “Infraestrutura”; (ii) saúde e higiene (-4), recursos humanos e mercado de trabalho (-1) e capacidade de adaptação às tecnologias de informação e comunicação (-1) do subíndice “Ambiente adequado”; (iii) recursos sem lazer (-4) no subíndice “Drivers de procura de viagens e turismo”; e (iv) sustentabilidade ambiental (-2) no subíndice “Sustentabilidade”.

Em 2021, a melhor avaliação do país foi no subíndice “Sustentabilidade” no pilar pressão e impacto da procura de viagens e turismo (+18) e, a pior avaliação no subíndice “Infra-estrutura” no pilar infra-estrutura de transporte aéreo (-20).

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Turismo resiliente e sustentável

É uma das políticas públicas prioritárias presente nas directrizes para o Orçamento de Estado para 2023.

Segundo o documento, Cabo Verde deverá, até 2026, atingir 1,26 milhões de turistas, melhorar a eficiência de gestão, alcançando uma média de satisfação global positiva dos colaboradores acima dos 80%, reduzir o número de dias na aprovação/certificação de projectos de 120 para 60 dias e aumentar o volume de investimentos aprovados para 1.505 milhões de euros em 2022, bem como contribuir para aumentar o volume de exportações em 5% relativamente a 2021.

Para contribuir para alcançar estas metas, o OE2023 deverá contribuir para a diversificação do turismo – nomeadamente programa Remote Working, Turismo de montanha, Turismo de circuito, ecoturismo, trekking, cruzeiros, entre outros) – e dar sequência a execução do Plano Operacional do Turismo (POT), dando prioridade:

i. A construção de gares marítimas, trilhas, caminhos vicinais, miradouros, bem como a valorização das aldeias turísticas, a requalificação urbana, a produção de informação turística e a recuperação/requalificação de praias e estâncias balneares; e

ii. A viabilização/promoção de eventos para a promoção externa, tais como a Ocean Race, de produtos de marketing digital, de empresas Low Cost a operar no país em mercados e destino diferenciados e da infra-estruturação de ZDTIs.

Este ano, a expectativa do crescimento do PIB real passou a ser de 4,0% (era de 6,5%) por causa da revisão em baixa da recuperação do sector do turismo. Para 2023, espera-se uma maior dinâmica do turismo, e o efeito contágio para os outros sectores, projetando-se um crescimento de cerca de 4,8%.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1083 de 31 de Agosto de 2022. 

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Autoria:Jorge Montezinho,4 set 2022 8:33

Editado pormaria Fortes  em  5 set 2022 11:44

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