“É a digitalização que permite ao sector financeiro satisfazer as novas exigências”

PorJorge Montezinho,27 nov 2022 8:02

Antão Chantre, administrador executivo da Caixa Económica de Cabo Verde
Antão Chantre, administrador executivo da Caixa Económica de Cabo Verde

Dinheiro digital, criptomoedas, fintech, blockchain, NFTs, e-commerce. Os conceitos que juntam dinheiro, tecnologia, investimento, compras online e formas de pagamento não são novidade, mas tendem a dar saltos evolutivos em momentos de crise. As Bitcoins foram criadas no seguimento da crise financeira de 2008 e mais recentemente a pandemia teve um papel acelerador nos meios de pagamento por aproximação. Para perceber como funciona a tecnologia financeira e quais os desafios e as potencialidades de Cabo Verde, o Expresso das Ilhas falou com Antão Chantre, administrador executivo da Caixa Económica e antigo director-geral da SISP – Sociedade Interbancária e Sistemas de Pagamentos.

Podemos afirmar que hoje já não há dúvida que o dinheiro digital democratizou o acesso ao sistema financeiro?

A digitalização está a transformar os serviços financeiros a nível global. Os consumidores estão a mudar os seus hábitos de consumo com a utilização das tecnologias digitais, que aumentam as possibilidades de acesso a produtos e serviços financeiros em qualquer momento e em qualquer lugar. O facto de disporem de mais informação gera clientes mais exigentes, que pretendem respostas rápidas, fáceis e imediatas para as suas necessidades. E é a digitalização que permite ao sector financeiro satisfazer estas novas exigências.

Na banca a retalho, a principal mudança está na forma como os clientes acedem aos serviços financeiros. Nos canais de acesso, o telemóvel é fundamental e continuará a crescer, mas também podem ser mais frequentes os serviços bancários activados por voz

A sua adopção por parte das entidades traduz-se em novos serviços para os clientes, mais acessíveis e ágeis, e na transformação dos processos internos. Os dados são a base da economia digital.

Neste sentido, é relevante ligar a digitalização e a sustentabilidade para expandir todo o potencial do sector bancário e do sistema financeiro no momento de contribuir para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas e o Acordo de Paris.

Uma das principais áreas em que a digitalização é fundamental para que a banca possa impulsionar o desenvolvimento sustentável é a inclusão financeira. Além disso, é importante a utilização de dados associados à sustentabilidade para uma progressiva integração dos riscos ambientais e sociais na gestão de risco dos bancos

Cabo Verde tem potencialidades que podem ser exploradas?

Temos todas as condições. Temos tecnologia, temos gente capaz. Precisamos apenas de acreditar neles e de lhes dar oportunidade para mostrarem as suas competências.

Quando falamos de potencialidades e crescimento económico, o e-commerce é parte fundamental dos negócios actuais. Para que haja confiança nas compras online, meios de pagamento seguros são necessários. Qual é o panorama em Cabo Verde?

A segurança implementa-se, não podemos ter o receio de implementar soluções digitais por causa da segurança.

Hoje existem ferramentas de boas práticas de gestão de segurança de sistemas de informação, aliás, duas entidades nacionais já possuem certificados internacionais nessa área. No entanto, é preciso que outras entidades sigam esse caminho de alinharem com essas boas práticas.

Como sugestão, gostaria de deixar a necessidade, na área financeira, controlada pelo regulador, da criação de uma Fin-CSIRT, - Computer Security Incident Response Team (CSIRT), ou Grupo de Resposta a Incidentes de Segurança, uma organização responsável por receber, analisar e responder às notificações e actividades relacionadas a incidentes de segurança.

A segurança não pode ser tratada como um factor de competitividade entre as empresas, mas sim uma necessidade comum para desenvolvermos cada vez mais soluções seguras e transmitir confiança aos nossos clientes.

Já temos regulação suficiente para o dinheiro digital?

Um player fundamental é o Banco Central e este já deu sinal de que está atento ao tema. Temos é de ter um time to market que seja competitivo.

No entanto, como em tudo, historicamente existem sempre resistências à mudança e com a transição para a moeda digital não poderia ser diferente. Por isso é preciso criamos uma FinLab (Laboratório Financeiro) para apoiar o desenvolvimento de ideias inovadoras de negócios que estejam sob a alçada de reguladores e perceber se este tem viabilidade e cumpre os requisitos regulatórios necessários para o fazer.

A nível mundial todos os reguladores estão a criar essa iniciativa inovadora e diferenciadora, que seria oportunidade de colocar Cabo Verde no radar dos inovadores mundiais e das autoridades

As criptomoedas estão ainda pouco direccionadas para o uso na vida real, mas há peritos a defenderem que terá o mesmo papel que já teve o ouro em relação às moedas convencionais – uma reserva de valor. Como vê a evolução das criptomoedas?

O principal papel do Bitcoin foi o de trazer a tecnologia Blockchain para o uso em diversas áreas, uma tecnologia com diversas vantagens: operações mais confiáveis; transações mais democrática; otimização dos processos; facilidade na coordenação entre as empresas; registro dos dados em ordem cronológica; redução dos custos.

Trouxe também a necessidade da criação das moedas digitais controladas pelos Bancos Centrais, o chamado CBDC – Central Bank Digital Currency. Mas há que diferenciar o CBDC e as Criptomoedas.

No que tocante as Criptomoedas o BCV foi claro no seu alerta “Riscos das moedas virtuais (criptomoedas)”, disponível no seu site, onde, ressalva, entre outros riscos, o de que “em Cabo Verde o sistema financeiro não permite trocar por Escudos a moeda virtual. O mesmo vale para a generalidade dos sistemas financeiros europeus e americano. O risco de inconvertibilidade é muito elevado.”

Quem quiser investir em Criptomoedas terá de estar consciente que investe por conta e risco e sem a proteção das autoridades reguladoras do país. E, deixo um conselho, é importante para os interessados estudarem muito bem esses conceitos e o seu modo de funcionamento, evitando assim dissabores, como por exemplo a última queda do Bitcoin. Já imaginou perder num único dia mais de 50% da sua poupança?

Em relação à tecnologia financeira – fintech – que está a provocar uma revolução na forma como se gere o dinheiro, Cabo Verde já tem o ecossistema certo para o aparecimento de stratups de fintech?

Estão a ser criados ecossistemas. No próximo ano será comunicada uma comunidade digital de ambiente fintech, envolvendo vários players nacionais e internacionais, nunca esquecendo um bem valioso que possuímos e que vamos explorar mais, a massa cinzenta existente na diáspora, trazendo para o país a expertise de trabalharem em grandes instituições internacionais. O mais interessante é que estes especialistas estão perto de nós, bastando atrai-los e mostrar-lhes a importância que poderão ter em ajudar no desenvolvimento de um ecossistema que poderá ser um caso de sucesso internacional.

Não poderia deixar de realçar o programa de formação e de criação de start-ups que o Governo criou e que está a nascer uma cultura de fazer acontecer, mas é preciso aproximar as empresas nacionais para que possamos atrair essas start-ups para ambientes reais de produção.

Quais considera serem os principais desafios para as fintech em Cabo Verde?

Um dos grandes desafios é terem oportunidade para mostrarem que são capazes. Diria, que, nesta nova era da transformação digital, todas as empresas, incluindo a área financeira, precisam implementar o conceito de Inovação Aberta, ou seja, com uma abordagem mais disruptiva e menos centralizada que se abre para outras empresas, ambiente académico, startups e consumidores a fim de pensar como inovar e melhorar determinada área ou a empresa no geral. Ou seja, abertura para outras culturas, empresas, mindset e conexões; colaboração com outras iniciativas; não focar somente em uma equipa interna e acções específicas para dentro de empresa e olhar para tudo e conectar-se com startups e iniciativas menores, com o foco em aprender com quem está a começar.

E como antecipa as relações entre as instituições financeiras tradicionais e as fintech em Cabo Verde?

Temos de copiar o que estão a fazer em todo o lado, ou seja, a colaboração entre os bancos e as fintech. Aliás, nos anos 90, os bancos, o Estado, o Banco Central e a operadora de comunicação criaram uma Empresa de Sistemas de Pagamentos Electrónicos que trouxe uma disrupção nos pagamentos em Cabo Verde. E hoje é um caso de sucesso com tecnologia de ponta comparada com qualquer país no mundo.

A colaboração está a tornar-se mainstream entre o ecossistema de fintech e o sistema financeiro, com estes players maduros a evoluírem para modelos de co-criação para chegar mais rapidamente às inovações, concentrando-se no core business.

Acredita que Cabo Verde tem a real possibilidade de se tornar um centro de inovação na sub-região?

Tem e é um caminho sem retorno, porque há sinais interessantes no mercado cabo-verdiano, mas temos de acelerar o ensino das tecnologias e da língua inglesa desde a escola primária. A base de tudo está na educação e na formação contínua do maior activo na transformação digital: as pessoas. Dá gozo ver as crianças a aprender nos contentores digitais, Weblabs, e ainda mais ver que estes usam energias verdes.

Também temos de ter escola com qualidade e com padrões internacionais.

Por último não deixaria passar em branco o ter de aumentar a nossa aposta na formação de Engenheiros de Sistemas de Informação e afins. Só com engenheiros altamente formados e treinados podemos alcançar patamares elevados.

Eu acredito que, juntos, conseguiremos atingir esse objetivo traçado pelo governo.

Mas fora do sistema de ensino há ainda uma larga fatia da população a quem falta literacia financeira digital

Estas oportunidades também implicam desafios que é importante enfrentar, tais como a capacidade de reduzir o fosso digital para permitir a inclusão de grupos sociais menos favorecidos ou a redução de distorções para favorecer situações cada vez mais justas. Neste novo cenário, é necessário trabalhar numa maior educação financeira e digital, numa melhoria das infra-estruturas tecnológicas e num quadro regulamentar adequado. Ter uma aposta forte no design de sistemas cada vez mais simples, com o mínimo de interação possível dos utilizadores, e cada vez mais numa aposta de envolver os clientes no desenho e na implementação de soluções digitais.

Para terminar, como vê o outro lado desta revolução financeira digital, e que está a acontecer principalmente na América Latina, onde a nova geração já não procura trabalho real e produtivo, mas sim criar os seus NFTs ou comprar Bitcoins para fazer dinheiro rápido?

Diversas inovações surgem constantemente com o objetivo de aprimorar o sistema financeiro, deixando-o mais simples, barato e aberto.

Uma dessas inovações que vem chamando a atenção do mercado é a tokenização de ativos, chamados NFT, que permite a representação digital de activos.

E não estamos apenas a falar de criptomoeadas quando falamos de tokens. Embora a maioria das aplicações actuais sejam pilotos ou se encontrem em fase experimental, esta tecnologia ainda está a evoluir.

Devido ao facto da Blockchain ser descentralizada, a tokenização traz segurança e velocidade a todo o processo com uma transparência jamais imaginada. Isso tudo permite uma redução de custos enorme, uma vez que automatiza diversas etapas que ficam entre o emissor do token e quem os compra.

As classes de ativos tokenizadas podem incluir títulos (por exemplo, ações, obrigações), matérias-primas (por exemplo, ouro) e outros activos não financeiros (por exemplo, bens imobiliários).

E, mais do que isso, permite que as operações sejam sempre auditáveis por qualquer pessoa, dificultando esquemas ilegais ou corruptos.

Texto publicado originalmente na edição nº1095 do Expresso das Ilhas de 23 de Novembro

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Autoria:Jorge Montezinho,27 nov 2022 8:02

Editado porSara Almeida  em  28 nov 2022 11:37

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