Banco Mundial aponta pressões contínuas da dívida externa em economias insulares

PorAndré Amaral,10 jan 2026 8:59

• Serviço da dívida externa atinge níveis históricos em países de rendimento baixo e médio em 2024. • Juros elevados e credores privados limitam margem orçamental para políticas públicas essenciais. • Cabo Verde integra economias vulneráveis com dívida maioritariamente detida por credores oficiais multilaterais. • Banco Mundial recomenda endividamento prudente e transparência para sustentabilidade da dívida externa.

Resumo criado por IA

O International Debt Report 2025, do Banco Mundial, traça um retrato de continuidade das pressões sobre a dívida externa das economias de rendimento baixo e médio, num contexto internacional marcado por custos de financiamento elevados, taxas de juro globais persistentemente altas e uma maior concentração dos pagamentos da dívida em períodos mais curtos.

O relatório indica que, em 2024, o serviço da dívida externa dos países de rendimento baixo e médio atingiu níveis historicamente elevados, reflectindo tanto o aumento do stock da dívida pública externa como o encarecimento do crédito contratado nos últimos anos.

De acordo com o Banco Mundial, a combinação entre taxas de juro mais altas e uma maior participação de dívida com condições menos concessionais levou a um aumento significativo dos encargos com juros. Este factor reduziu a margem orçamental disponível para políticas públicas, especialmente em países que dependem de financiamento externo para sustentar o investimento público e responder a choques económicos. O relatório sublinha que, embora o crescimento económico global tenha mostrado alguma estabilização, este não foi suficiente para compensar o peso crescente do serviço da dívida nos orçamentos nacionais.

Outro elemento destacado é a mudança gradual na composição dos credores. O Banco Mundial observa que os credores multilaterais continuam a desempenhar um papel central no financiamento externo, mas que os credores privados mantêm uma presença relevante, sobretudo através de instrumentos com custos mais elevados e menor flexibilidade em situações de stress financeiro. Esta estrutura tem implicações directas na capacidade de gestão da dívida, uma vez que limita o recurso a mecanismos de reestruturação rápidos e coordenados.

O relatório assinala ainda que os países mais vulneráveis são aqueles com economias pouco diversificadas, elevada exposição a choques externos e forte dependência de importações. Nestes casos, o aumento do serviço da dívida externa tende a coincidir com pressões sobre as reservas internacionais e sobre a estabilidade macroeconómica, mesmo quando não se registam situações de incumprimento. O Banco Mundial alerta que este contexto pode comprometer os objectivos de desenvolvimento de médio prazo, caso não seja acompanhado por políticas prudentes de endividamento e por acesso estável a financiamento concessionário.

Cabo Verde

É neste enquadramento que surge a análise relativa a Cabo Verde. No International Debt Report 2025, o país é classificado como uma economia de rendimento médio, integrada no grupo de países cuja dívida externa é maioritariamente detida por credores oficiais. O Banco Mundial identifica este perfil como característico de pequenos Estados insulares e de economias com forte dependência do financiamento externo para investimento público e desenvolvimento estrutural.

Segundo o relatório, a predominância de credores multilaterais na estrutura da dívida externa de Cabo Verde implica, por um lado, condições de financiamento geralmente mais favoráveis do que as oferecidas pelos mercados privados, mas, por outro, uma exposição significativa ao aumento do serviço da dívida num contexto de taxas de juro internacionais mais elevadas. O Banco Mundial não reporta episódios de incumprimento por parte do país, mas enquadra Cabo Verde no conjunto de economias que enfrentam necessidades relevantes de pagamento da dívida externa, num período em que a margem orçamental permanece limitada.

O documento indica que, para países com estas características, a gestão da dívida assume uma importância central na preservação da estabilidade macroeconómica. O peso do serviço da dívida externa tende a competir com outras prioridades de despesa pública, sobretudo em economias com bases produtivas reduzidas e elevada dependência de factores externos, como o comércio internacional e os fluxos financeiros externos. O Banco Mundial observa que esta realidade é particularmente sensível em pequenos Estados insulares, onde choques externos podem ter efeitos amplificados.

No caso de Cabo Verde, o relatório não apresenta sinais de deterioração abrupta da sustentabilidade da dívida, mas insere o país num contexto regional e estrutural em que os riscos permanecem presentes. O aumento global do serviço da dívida externa, descrito no relatório, afecta de forma transversal economias de rendimento médio, mesmo aquelas com histórico de acesso predominante a financiamento concessionário. O Banco Mundial destaca que, nestes casos, a evolução futura da dívida dependerá da capacidade de manter um crescimento económico consistente e de assegurar condições de financiamento externo estáveis.

O International Debt Report 2025 conclui que, tanto a nível global como no caso de economias como Cabo Verde, a prioridade passa por políticas de endividamento prudentes, o reforço da transparência da dívida e a manutenção de relações sólidas com credores oficiais. O relatório enfatiza que, num ambiente internacional ainda marcado por incerteza financeira, a sustentabilidade da dívida continua a ser um dos principais desafios macroeconómicos para os países em desenvolvimento.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1258 de 07 de Janeiro de 2026.

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Autoria:André Amaral,10 jan 2026 8:59

Editado porAndre Amaral  em  10 jan 2026 11:29

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