De acordo com o jornal britânico, ao contrário da crise de 2022, inicialmente concentrada nas exportações de cereais do Mar Negro, o actual choque é mais abrangente e imediato, afectando directamente a produção agrícola à escala global.
“Desta vez, trata-se de uma limitação física real”, citam analistas ouvidos pelo jornal inglês, sublinhando que não se trata apenas de perturbações logísticas, mas de uma quebra efectiva na disponibilidade de recursos essenciais.
No centro desta disrupção está o bloqueio do Estreito de Ormuz pelo Irão, uma das rotas marítimas mais importantes do mundo. Para além de afectar o transporte de petróleo, o bloqueio está a comprometer o comércio global de fertilizantes e matérias-primas críticas, com efeitos em cadeia sobre a agricultura mundial.
Papel vital
O Golfo desempenha um papel determinante na produção e exportação de fertilizantes, fundamentais para a agricultura moderna.
Segundo dados citados pelo Financial Times, cerca de 43% do comércio global de ureia, um dos principais fertilizantes à base de nitrogénio, está em risco devido ao conflito. Além disso, aproximadamente 45% das exportações mundiais de enxofre, essencial para fertilizantes fosfatados, transitam pelo Estreito de Ormuz, agora fortemente condicionado.
A reportagem destaca ainda que a produção de fertilizantes na região foi directamente afectada, com interrupções em grandes unidades industriais e atrasos significativos nos envios de produtos como amoníaco e ureia.
Ao mesmo tempo, o aumento dos preços do gás natural, que é um dos componentes essenciais para a produção de fertilizantes, está a obrigar países fora da região a reduzir ou suspender a produção.
Este cenário está a criar um “choque sistémico” no sistema alimentar global, segundo a Associação Internacional de Fertilizantes, citado pelo Financial Times, uma vez que dois dos três nutrientes essenciais à agricultura, o nitrogénio e o fósforo, estão directamente afectados, enquanto o terceiro, o potássio, sofre impactos indirectos através do mercado energético.
Efeitos visíveis
Os efeitos já são visíveis no terreno. Na Índia, agricultores da região de Punjab enfrentam dificuldades crescentes no acesso a fertilizantes, numa altura crítica que antecede a época de plantação do arroz.
“Tememos que, se a guerra continuar, será difícil para nós e a produção alimentar será afectada”, afirmou Rajpal Singh, citado pelo Financial Times, descrevendo também cortes prolongados de energia nas zonas rurais.
Nos Estados Unidos, a situação não é menos preocupante. No estado do Minnesota, o agricultor Brandon Fronning relatou ao jornal que os preços dos fertilizantes “dispararam completamente” desde o início do conflito, numa altura em que os produtores se preparavam para a plantação do milho. O aumento dos custos e as dificuldades de financiamento estão a colocar em causa a sustentabilidade económica de muitas explorações agrícolas.
Segundo o Financial Times, cerca de 25% dos agricultores norte-americanos tinham adiado a compra de fertilizantes na expectativa de uma descida de preços. No entanto, o agravamento do conflito inverteu essa tendência, levando a uma escalada abrupta dos custos.
Impacto também em África
O impacto da crise vai muito além dos países produtores.
Em África e na Ásia, o aumento dos custos de combustível já está a reflectir-se nos preços dos alimentos. Países como Quénia, Tanzânia, Sudão e Somália, altamente dependentes de fertilizantes importados por via marítima, enfrentam dificuldades crescentes. Na Somália, os preços dos alimentos básicos aumentaram cerca de 20% desde o início do conflito, de acordo com dados citados pelo Financial Times.

A reportagem sublinha que o verdadeiro impacto poderá ainda não estar totalmente reflectido nos mercados, uma vez que os efeitos mais severos surgem com atraso, durante as próximas colheitas. Se os agricultores reduzirem a utilização de fertilizantes devido aos custos elevados ou à escassez, a produção agrícola global poderá cair significativamente, provocando uma subida acentuada dos preços dos alimentos.
Estimativas citadas pelo jornal apontam que, se os preços dos fertilizantes se mantiverem elevados, os preços globais dos alimentos poderão aumentar entre 60% e 100%, empurrando até 100 milhões de pessoas adicionais para a subnutrição.
Em paralelo, dados das Nações Unidas indicam que até 45 milhões de pessoas adicionais poderão enfrentar insegurança alimentar aguda já nos próximos meses, somando-se aos mais de 300 milhões actualmente afectados.
Preocupação
Em África, os efeitos são particularmente preocupantes. Em declarações à Lusa, o investigador Miguel Silva alerta que o impacto do conflito vai muito além da energia, afectando directamente a segurança alimentar, os transportes e o custo de vida. “O choque transforma-se rapidamente em inflação importada”, explicou, sublinhando a vulnerabilidade das economias africanas.
Segundo esteinvestigador que é também docente no Forward College, da London School of Economics and Political Science, países como Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Senegal e Quénia estão entre os mais expostos, devido à forte dependência de importações de combustíveis, fertilizantes e bens essenciais. Nestes contextos, a subida dos preços internacionais traduz-se rapidamente em aumentos generalizados do custo de vida.
O investigador revela que esta vulnerabilidade estrutural está ligada a factores históricos e económicos, incluindo a dependência externa e a limitada capacidade de resposta dos Estados. A actual crise ocorre ainda num contexto de redução do financiamento internacional e de menor capacidade de intervenção por parte de instituições multilaterais.
Apesar do cenário adverso, alguns países exportadores de energia, como Nigéria, Argélia e Angola, poderão beneficiar de uma maior procura por gás natural e petróleo. No entanto, mesmo estes países enfrentam riscos associados ao aumento da inflação, das taxas de juro e do custo da dívida.
O Financial Times alerta que a evolução da crise dependerá, em grande medida, da sua duração. Caso o conflito se prolongue ao longo das próximas épocas agrícolas, os impactos poderão tornar-se cumulativos e mais difíceis de mitigar, afectando não apenas os países mais vulneráveis, mas todo o sistema alimentar global.
Outro factor de risco identificado é o clima. A possibilidade de ocorrência de fenómenos como o El Niño poderá agravar ainda mais a situação, ao provocar secas ou inundações em regiões agrícolas críticas, reduzindo ainda mais a produção.
Especialistas alertam também para o risco de reacções em cadeia por parte dos governos, como restrições às exportações de alimentos ou fertilizantes, numa tentativa de proteger os mercados internos. Estas medidas, embora compreensíveis do ponto de vista nacional, poderão agravar a crise a nível global, limitando ainda mais a oferta disponível.
Num contexto em que o custo de vida já é uma preocupação central em várias regiões do mundo, o aumento dos preços dos alimentos poderá ter consequências económicas, sociais e políticas significativas. Historicamente, crises alimentares têm estado associadas a períodos de instabilidade, sobretudo em países mais vulneráveis.
Perante este cenário, analistas defendem a necessidade de tratar os fertilizantes como um recurso estratégico, à semelhança da energia, garantindo reservas e cadeias de abastecimento resilientes. A manutenção do comércio internacional será igualmente crucial para evitar um agravamento da crise.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1270 de 01 de Abril de 2026.
homepage









