O capital humano não se constrói apenas em sectores isolados

PorJorge Montezinho,12 abr 2026 7:17

O capital humano - a saúde, os conhecimentos, as habilidades e a experiência profissional que as pessoas acumulam ao longo da vida - elemento essencial para a produtividade e o crescimento económico. No entanto, o mundo deixou de avançar na acumulação de capital humano e tem até retrocedido nos últimos 15 anos.

Dois terços dos países de rendimento baixo e médio registaram quedas nos seus índices de nutrição, aprendizagem e qualificação da força de trabalho entre 2010 e 2025. O relatório Construindo o Capital Humano Onde Mais Importa, do Grupo Banco Mundial, argumenta que, para acelerar o ritmo de desenvolvimento e a acumulação de capital humano, o foco das políticas públicas precisa de ir além das escolas e clínicas, passando a incluir outros locais importantes onde se constrói capital humano: os lares, os bairros e os locais de trabalho.

Apesar da sua importância para o desenvolvimento, a acumulação de capital humano estagnou em muitos países de rendimento baixo e médio. Em algumas dimensões, os países mais pobres apresentam resultados piores hoje do que há duas décadas, como refere o documento. Estas tendências são importantes porque as diferenças no capital humano representam aproximadamente dois terços da diferença no rendimento per capita entre os países ricos e pobres.

Por exemplo, a altura média de indivíduos adultos - um indicador amplamente utilizado para avaliar a saúde latente - aumentou cerca de 1 centímetro por década na Europa Ocidental durante o século XX e a um ritmo semelhante na China nas últimas décadas. Contudo, em vários países da África Subsaariana, os adultos são mais baixos hoje que há 25 anos, o que indica uma deterioração implícita da saúde. Os resultados da aprendizagem revelam um padrão igualmente preocupante. Em média, as crianças dos países de rendimento baixo e médio-baixo apresentam resultados escolares piores hoje que há 15 anos.

Os maiores declínios foram observados na África Subsaariana. O desenvolvimento de competências no ambiente de trabalho também apresenta tendências preocupantes. Em média, um indivíduo na Índia adquire apenas metade do capital humano através do trabalho do que no Brasil; e um indivíduo no Brasil adquire apenas metade do capital humano que se adquire nos Estados Unidos.

Sem investimentos significativos em saúde, educação e capacitação no local de trabalho, os países de rendimento baixo e médio vão continuar desfasados. O relatório do Grupo Banco Mundial argumenta com um foco mais claro que os resultados do capital humano são moldados no lar, no bairro e no trabalho e isso ajudará governos e partes interessadas a desenvolver políticas mais eficazes para aumentar o capital humano, o que resultará em mais empregos bem remunerados, menos pobreza e níveis mais elevados de crescimento económico.

Acumulação de capital humano no lar

O ambiente familiar influencia a acumulação de capital humano desde o início da vida. Aos 5 anos de idade, antes de ingressarem no sistema formal de ensino, crianças de zonas rurais do Peru cujas mães têm apenas o ensino fundamental (ou menos) dominam aproximadamente metade do vocabulário das outras crianças cujas mães concluíram pelo menos o ensino secundário. Padrões semelhantes foram observados na Etiópia, na Índia e no Vietname. A desvantagem persiste durante toda a idade escolar e a adolescência. Em resumo, diz o relatório, as crianças cujas mães têm níveis mais baixos de escolaridade nunca conseguem alcançar o nível das outras.

Por que o lar é tão importante? Um dos motivos é o facto das famílias apresentarem variações no acesso a recursos. Para desenvolver-se, as crianças precisam de alimentos nutritivos, condições de vida seguras e higiénicas e oportunidades de aprendizagem. Muitas dessas necessidades só podem ser atendidas se as famílias tiverem dinheiro para gastar. Alimentos e dietas mais saudáveis tendem a custar mais do que as opções menos saudáveis e, mesmo que os serviços de educação e saúde sejam disponibilizados gratuitamente, as famílias ainda precisam de comprar livros e medicamentos e arcar com os custos do transporte.

Os lares também variam muito no que diz respeito aos ambientes de cuidados, ou seja, quanto tempo os pais investem em ajudar os filhos a aprender, quanto tempo brincam com eles, o estilo de manter a disciplina e quanto apoio socio emocional oferecem a crianças e adolescentes. Na primeira infância, o desenvolvimento aumenta consoante o número de actividades de cuidados ou estímulo em casa (por exemplo, quando os adultos cantam ou brincam com as crianças).

Em termos de políticas públicas, isso significa que é importante direccionar os esforços para bairros carentes e identificar as principais dificuldades que os indivíduos enfrentam para acumular capital humano nesses bairros. As políticas devem oferecer recursos e incentivos para melhorar a qualidade dos serviços, a qualidade ambiental e o capital social em bairros carentes.

Acumulação de capital humano no bairro

Embora os filhos de pais com mais recursos e maior escolaridade geralmente apresentem resultados substancialmente melhores em termos de capital humano, o bairro (ou vila/cidade) onde crescem também pode influenciar de forma significativa as trajetórias de desenvolvimento desse capital. Isso foi observado nos Estados Unidos e, mais recentemente, no Brasil, onde os filhos de pais de rendimento baixo concluem mais dois anos na escola, aprendem mais e ganham o dobro na idade adulta se crescerem num bairro rico em vez de um bairro pobre. Os bairros são importantes porque as famílias geralmente fazem uso das escolas e unidades básicas de saúde locais. Na prática, a qualidade desses serviços locais varia bastante. Por exemplo, nas áreas rurais do Punjab, no Paquistão, uma criança que cresce numa aldeia no decil mais alto em termos de qualidade escolar aprende 44% mais por ano que uma criança no decil mais baixo.

A disponibilidade de serviços não é o único atributo importante dos bairros. A qualidade do ar e a disponibilidade de água potável e saneamento básico são fortemente influenciados pelo local onde as pessoas vivem, e essas condições podem variar consideravelmente entre bairros ou vilarejos. Na Indonésia, por exemplo, crianças que vivem os dois primeiros anos de vida em comunidades em que não se pratica a defecação a céu aberto têm mais de 10 pontos percentuais menos probabilidade de atrasos no crescimento e apresentam pontuações mais altas em testes cognitivos que outras que vivem em comunidades onde todas as outras famílias defecam a céu aberto.

Em termos de políticas públicas, isso significa que é importante direccionar os esforços para bairros carentes e identificar as principais dificuldades que os indivíduos enfrentam para acumular capital humano nesses bairros. As políticas devem oferecer recursos e incentivos para melhorar a qualidade dos serviços, a qualidade ambiental e o capital social em bairros carentes.

Acumulação de capital humano no trabalho

Tradicionalmente, os locais de trabalho são considerados ambientes onde se usa o capital humano adquirido noutros lugares. Mais recentemente, porém, surgiu um consenso de que o capital humano também pode ser construído no ambiente de trabalho. Por exemplo, uma enfermeira será mais eficaz à medida que aprender a trabalhar em equipa com outros profissionais de saúde num hospital e, principalmente, à medida que desenvolver conhecimentos tácitos sobre como interagir da forma mais eficaz com os pacientes.

Embora exista potencial para acumular capital humano significativo no trabalho, relativamente poucas pessoas nos países de rendimento baixo e médio têm a oportunidade de beneficiar disso. Algumas pessoas não acumulam capital humano no trabalho simplesmente porque não fazem parte da força de trabalho. Nos países de rendimento baixo e médio, 50% das mulheres estão fora do mercado de trabalho e 18% dos jovens não estudam nem trabalham.

Por outro lado, os que trabalham estão concentrados em empregos que oferecem poucas oportunidades de aprendizagem. Muitos trabalham em pequenas empresas que operam com pouca tecnologia e capital organizacional mínimo. Com frequência, desempenham apenas funções de linha de frente, sem a supervisão de gerentes, engenheiros ou outros profissionais técnicos. De facto, cerca de 70% dos trabalhadores nos países de rendimento baixo e médio são pequenos agricultores, autónomos, em actividades pouco qualificadas, ou funcionários de microempresas (nos países de rendimento alto, a proporção é de 20%). Geralmente, esses empregos oferecem oportunidades limitadas de formação formal ou aprendizagem continuada no trabalho. Mesmo quando a experiência adquirida é semelhante, o aumento do rendimento dos autónomos em países de rendimento baixo e médio equivale apenas a metade daquele alcançado por trabalhadores assalariados.

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Esses desafios exigem políticas que ampliem a aprendizagem no trabalho, facilitem a transição para o mercado de trabalho e criem mais empregos com forte potencial de aprendizagem. Os programas formais de aprendizagem, por exemplo, têm tido efeitos positivos nas competências e nos rendimentos em numerosos países da África Subsaariana, mesmo quando implementados em grande escala. Tais políticas devem ser apoiadas por reformas mais amplas que reduzam as falhas de mercado e a má alocação de recursos.

A criação de mais empregos com maior potencial de aprendizagem requer incentivos para o crescimento das empresas e a ampliação da educação para desenvolver os talentos necessários. Governos e partes interessadas podem promover o acesso a tecnologias, financiamento, mercados e pesquisa e desenvolvimento (P&D), especialmente entre empresas jovens e inovadoras que promovam mudanças radicais e gerem empregos que precisam de mão de obra qualificada. Créditos de P&D bem direcionados podem ter efeitos duradouros no capital humano e na produtividade. Viabilizar transformações estruturais — da agricultura de subsistência e serviços de baixa produtividade para empresas modernas — é, portanto, fundamental para as políticas de capital humano.

Menos tech mais humano

O capital humano permite que as pessoas contribuam de forma produtiva para a sociedade. Nos países, os investimentos em capital humano impulsionam o crescimento económico e reduzem a desigualdade. Apesar dos benefícios amplamente reconhecidos, as tendências de acumulação de capital humano em países de rendimento baixo e médio nas últimas duas décadas apresentam um quadro desanimador. Como referido, em muitos deles, a situação piorou em vez de melhorar.

As políticas que procuram fortalecer o capital humano beneficiariam de uma perspectiva contextual. As estratégias para combater a desnutrição, por exemplo, devem abordar as limitações existentes no ambiente doméstico. As famílias precisam de recursos para adquirir e preparar alimentos nutritivos e devem oferecer estímulos ao desenvolvimento precoce dos filhos. Outras intervenções devem ser direccionadas aos bairros, como, por exemplo, políticas que garantam a recolha de lixo, o abastecimento de água potável, o saneamento básico e o acesso a serviços de saúde. Os locais de trabalho também são importantes porque os pais e outros cuidadores precisam ter bons empregos para que possam adquirir os insumos necessários para proporcionar uma alimentação saudável a seus filhos.

Políticas para combater a desnutrição exigem, portanto, acções coordenadas nos três contextos: lar, bairro e local de trabalho. Também requerem acções coordenadas em vários sectores, como saúde, protecção social, agricultura, transporte, água, saneamento e trabalho, juntamente com a regulamentação do sector privado e o apoio aos mercados locais de alimentos. A mesma lógica pode ser usada para elaborar políticas eficazes que tenham como objectivo aumentar a aprendizagem ou a aquisição de habilidades no trabalho.

Uma política que reconheça o papel de múltiplos contextos requer ferramentas que possam ajudar a coordenar os investimentos entre esses contextos e dentro deles.

A monitorização do progresso no investimento em capital humano em lares, bairros e locais de trabalho também exige métricas claras de sucesso. Considerando a disponibilidade actual de dados, no entanto, é necessária uma agenda de dados global e nacional mais ambiciosa.

O capital humano é essencial para permitir que as pessoas consigam bons empregos e aumentem os rendimentos.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1271 de 08 de Abril de 2026.

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Autoria:Jorge Montezinho,12 abr 2026 7:17

Editado porFretson Rocha  em  12 abr 2026 8:05

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