"Por norma, o FMI não comenta assuntos políticos internos. A equipa que visitou Cabo Verde entre 21 e 24 de Julho estava em visita técnica, não em missão de revisão de programa", disse à Lusa um porta-voz da instituição.
"Embora tenha discutido com as autoridades os principais pontos do orçamento revisto, não foram fornecidos dados sobre a execução orçamental e, por isso, não estavam em condições de avaliar as alegações relativas à implementação do orçamento de 2026 nem a necessidade de um orçamento revisto", acrescentou.
O porta-voz do FMI concluiu que "o FMI não avaliou essas questões durante a visita".
Na quarta-feira, durante a apresentação da proposta de Orçamento Retificativo, o primeiro-ministro, Francisco Carvalho, questionado sobre a recente missão do FMI ao país, classificou a visita como "excelente" e afirmou que permitiu identificar uma diferença entre o orçamento aprovado para 2026 e a execução orçamental projetada.
"Foi precisamente essa missão que permitiu identificar essa diferença, porque durante a visita analisámos em profundidade as contas e comparámos o orçamento aprovado para 2026 com a execução orçamental em Junho", disse.
Segundo o chefe do Governo, essa diferença resultava de uma despesa superior à prevista em cerca de oito mil milhões de escudos (72,6 milhões de euros), tendo acusado o anterior executivo do Movimento para a Democracia (MpD) de ter "ludibriado" o FMI.
Nesta sexta-feira, durante o debate sobre o Estado da Nação, o primeiro-ministro reiterou as acusações ao anterior Governo.
"O FMI foi enganado pelo Governo do MpD, que manipulou as contas, que fique claro. Os técnicos do FMI chegam cá para analisar os dados, mas quando o Governo é irresponsável e esconde as contas, é claro que é o valor que foi apresentado que vão analisar", declarou.
O líder parlamentar do MpD, Luís Carlos Silva, considerou "gravíssima" e "falsa" a acusação de que o anterior executivo tenha "ludibriado" o FMI.
"É irresponsável e profundamente lesiva dos interesses nacionais. O primeiro-ministro confundiu mecanismos legais de execução orçamental com práticas ilícitas, ou optou por distorcer deliberadamente esses mecanismos para sustentar uma narrativa política", afirmou.
Luís Carlos Silva defendeu que as declarações do primeiro-ministro atingem também a credibilidade do Estado cabo-verdiano junto dos parceiros internacionais, investidores e credores.
"A credibilidade de um país constrói-se ao longo de anos, através de instituições sólidas, contas transparentes e compromissos honrados. Cabo Verde nunca falhou uma única prestação da dívida externa. Este é um legado que lhe é entregue e que vai ter de proteger", disse.
Segundo Francisco Carvalho, o Orçamento do Estado para 2026, aprovado pelo anterior Governo do MpD e promulgado pelo Presidente da República, José Maria Neves, em dezembro de 2025, previa uma despesa de 95.675 milhões de escudos (868 milhões de euros).
Quando o atual Governo tomou posse, em junho, após a vitória do Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV) nas legislativas de 17 de maio, a execução orçamental projetada ascendia a 104.011 milhões de escudos (943 milhões de euros), segundo os dados apresentados pelo primeiro-ministro.
A missão técnica do FMI decorreu entre 21 e 24 de julho e teve como objetivo estabelecer os primeiros contactos com o novo executivo cabo-verdiano.
No final da visita, o diretor-executivo do FMI para Cabo Verde, André Roncaglia, manifestou "mais esperança e confiança" na continuidade da cooperação com o país e no compromisso das autoridades cabo-verdianas com a estabilidade macroeconómica e as reformas em curso.
FOTO: depositphotos
homepage








