Millennium Challenge Corporation - Cabo Verde elegível, mas ainda não se sabe se vai avançar com candidatura

PorJorge Montezinho,12 set 2026 9:34

Depois de dois compactos e com o terceiro cancelado, Cabo Verde volta a ser um dos 42 países escolhidos pela Millennium Challenge Corporation para um novo apoio. Adesão aos apoios da agência bilateral de ajuda externa dos Estados Unidos depende do governo.

Avança, ou não? Com os projectos que já existem, ou iniciando o processo do zero? Estas foram as questões que o Expresso das Ilhas colocou ao ministério da Coordenação de Projetos Especiais e Acesso a Fundos de Cabo Verde, mas às quais não obteve resposta até ao fecho desta edição. Certo é que Cabo Verde é um dos países elegíveis para um novo compacto, mas ser elegível não implica necessariamente candidatar-se.

No último dia do passado mês de Agosto, a Millennium Challenge Corporation publicou o relatório para o ano fiscal de 2027, onde aparece a lista dos países ‘candidatos’ a poderem apresentar projectos para o futuro pacto e assim reivindicarem ajuda americana. Dos 91 países elegíveis, quase metade são africanos, mas há Estados oficialmente proibidos de serem elegíveis.

Cabo Verde, assim como Angola, Moçambique e São Tomé e Príncipe são os PALOP que constam na parte da lista dos elegíveis. A Guiné-Bissau – e Madagáscar – estão entre os países “candidatos, mas com reservas” e "serão considerados países candidatos na medida em que tal seja considerado em conformidade com a lei". Esta formulação cautelosa indica que a futura elegibilidade não está totalmente assegurada e dependerá de uma avaliação jurídica mais aprofundada.

Excluídos, entre os africanos, estão países como Burkina Faso, Mali, Níger e Sudão (todos por causa dos golpes militares), Chade, Eritreia e Sudão do Sul (por atropelos aos direitos humanos) e o Zimbabué (por restrições ao Estado de Direito, à propriedade e às liberdades fundamentais). Regimes considerados autoritários ou que resultam de golpes de Estado são excluídos, independentemente de seu potencial económico.

O relatório é igualmente inequívoco quanto aos critérios de escolha. Um país candidato deve ter um PIB per capita bruto inferior a 8.105 dólares no ano fiscal de 2027 e não ser inelegível para receber assistência económica dos EUA sob a Lei de Assistência Externa ou qualquer outra disposição legal.

Mais importante ainda, o MCC especifica que a selecção final será baseada no "compromisso demonstrado de um país com a governança justa e democrática, a liberdade económica e o investimento no seu povo". Por outras palavras, o dinheiro americano só irá para países considerados virtuosos, ou pelo menos suficientemente alinhados com esses padrões.

O histórico cabo-verdiano

Cabo Verde já beneficiou de dois compactos. O primeiro entre 2005 e 2010, no valor de 110 milhões de dólares, serviu para a modernização e expansão do Porto da Praia, a construção de pontes em Santo Antão e estradas em Santiago e o fortalecimento de microfinanças e gestão agrícola.

O segundo pacote de cooperação com o MCC, entre 2012 e 2017, no valor de 66,2 milhões de dólares, teve o foco no projeto WASH (Água, Saneamento e Higiene), nas reformas legais e institucionais para reduzir o custo da água e na gestão de propriedades e modernização do registo predial.

Em Dezembro de 2023 Cabo Verde foi selecionado para um terceiro compacto, que seria direcionado para questões como a integração económica regional e a conectividade estrutural e digital do arquipélago. Os investimentos planeados dividiam-se em transportes e conectividade física – programa que tinha como objectivo melhorar as ligações inter-ilhas (marítimas e aéreas), a conectividade internacional e intermodal. A meta era facilitar a mobilidade de pessoas e mercadorias, reduzindo o custo de transportes e potenciando o comércio com a África Ocidental; os outros projetos iriam servir a transição e conectividade digital – onde estava previsto o reforço da infra-estrutura digital e da economia tecnológica do país para acelerar a modernização económica e melhorar os serviços interconectados.

Cabo Verde e o MCC chegaram a assinar o acordo inicial do projecto, em Abril de 2024, mas depois da revisão e reconfiguração da política de cooperação e ajuda externa por parte da nova administração dos EUA, liderada por Donald Trump, a ajuda global do MCC foi reduzida. Consequência directa, o acordo de financiamento com Cabo Verde foi encerrado oficialmente em Dezembro de 2025. Apesar deste fim, o governo cabo-verdiano manteve e integrou todos os estudos técnicos e planos realizados deste 2024.

A parceria entre Cabo Verde e a Millennium Challenge Corporation tem um longo histórico de cooperação estrutural, marcado recentemente por reviravoltas políticas e, agora, por uma nova perspetiva de financiamento, caso o governo cabo-verdiano opte por voltar a concorrer aos apoios americanos. No entanto, esta decisão nunca é unilateral, como o relatório avisa, a lista de candidatos é apenas um primeiro passo: o Conselho de Administração da MCC deverá então avaliar o desempenho relativo dos países candidatos em termos de governança, liberdade económica e investimento em capital humano. Ou seja, ser candidato não garante a elegibilidade. Este novo compacto é novamente orientado para o desenvolvimento, a resiliência económica e para a integração regional na África Ocidental.

O que se segue

As implicações deste relatório vão além da mera classificação. A Millennium Challenge Corporation é um instrumento de soft power americano que pode injectar centenas de milhões de dólares em projetos de infra-estruturas, agricultura, energia ou governança. Ser elegível, candidatar-se e assinar um Pacto garante acesso a financiamento substancial. Por outro lado, a exclusão significa ser privado dessa influência e, de forma mais ampla, ser estigmatizado aos olhos de outros doadores e investidores.

Para os países africanos sujeitos a sanções, as consequências são duplas. Por um lado, perdem o acesso direto aos fundos dos EUA. Por outro lado, a sua exclusão do processo envia um sinal negativo aos mercados financeiros e aos parceiros técnicos.

Mas o relatório também tem um alerta: as listas publicadas podem mudar. Tanto os países candidatos quanto os excluídos "podem estar sujeitos a futuras restrições ou determinações legais". No fundo, nada é definitivo. Um país candidato hoje pode ser excluído amanhã se a sua situação piorar e um país excluído pode ser reintegrado se ocorrerem grandes mudanças políticas.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1293 de 09 de Setembro de 2026.

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Autoria:Jorge Montezinho,12 set 2026 9:34

Editado porEdisângela Tavares  em  12 set 2026 16:03

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