“Quando se pretende empreender, tem que se ter muita disciplina”

PorNuno Andrade Ferreira,6 set 2021 9:11

PrimeBotics produz drones à medida das necessidades do mercado cabo-verdiano e a partir de impressão 3D

2019. Érico Pinheiro Fortes regressa dos Estados Unidos, com um mestrado no bolso e a ideia de desenvolver drones personalizados, destinados a apoiar os trabalhos agrícolas e de reflorestação em Cabo Verde. 2021. Através de um financiamento da Fundação Tony Elumelu, a PrimeBotics é uma realidade, entregou o primeiro drone, na ilha do Maio, e está a trabalhar na próxima unidade, para a ilha de Santo Antão.

Apostado em aproveitar as potencialidades da impressão 3D, e em apresentar “soluções reais para problemas reais”, a empresa tem explorado novas áreas de negócio, da produção de próteses aos pequenos robots com fins educativos.

Como é que surge a candidatura ao financiamento da Fundação Tony Elumelu?

Na altura, tinha terminado o mestrado e regressado dos Estados Unidos da América. A minha participação foi quase inesperada. Em Cabo Verde, um dos maiores desafios é conseguir financiamento. Então pensei que, se calhar, tinha ali uma oportunidade para tornar o sonho realidade, sem ter de esperar por apoio.

Desde 2019, até agora, que passos foram dados?

Este projecto foi iniciado na minha antiga universidade, na Bridgewater State University, e era um drone mais rudimentar. Com esse financiamento, consegui comprar materiais melhores, investir em máquinas, nomeadamente impressoras 3D e CNC, que não tinha possibilidade de adquirir.

Imagino que a impressão 3D seja importantíssima, porque permite produzir peças, sem necessidade de procurar lá fora e importar.

Eu gosto de dizer que o limite da tua impressora 3D é a imaginação. Tem sido algo extraordinário. O confinamento foi uma época muito produtiva. Enquanto muita gente estava saturada, em casa, eu estava muito entretido. Foi o momento em que consegui dedicar-me e aprender um pouquinho.

Quantos drones já produziste?

Construí um primeiro protótipo. Depois fiz um outro, maior, com capacidade de carga até cinco quilos. Agora terminei um para a ilha do Maio e estou engrenado a construir o que vai para Santo Antão, para dar apoio ao Ministério da Agricultura e Ambiente, na reflorestação e combate a pragas.

Quanto tempo levas entre começar o projecto e ter o drone pronto?

Isso depende um pouco. Como eu trabalho na Universidade de Cabo Verde, acabo por não ter tempo para me dedicar inteiramente ao projecto. Em média, tendo todas as peças, um a dois meses.

Presumo que um drone personalizado, como aqueles que produzes, não seja barato.

Realmente, acaba por acarretar algum custo. O próprio material com que é feito, a fibra de carbono, que é diferente de um plástico, tem também algum custo. O drone que foi para a ilha do Maio custou à volta de 300 contos. Mas depende do tamanho e das exigências do cliente.

Fala-nos das tuas ambições para a PrimeBotics.

Quando comecei este projecto, na Bridgewater, o objectivo era, realmente, conseguir ter impacto em Cabo Verde. Uma das minhas ambições é colocar um drone em cada ilha, tornando-se uma ferramenta extra, que ajuda a avançar os métodos para a reflorestação e para a agricultura. Conseguir também colocar Cabo Verde no mapa da robótica e conseguir desenvolver soluções para pessoas, casas, locais de trabalho. Melhorar, de forma geral, a vida das pessoas.

Arrancaste a PrimeBotics com o apoio da Fundação Tony Elumelu, mas a questão da sustentabilidade do negócio acabará por surgir.

Tem sido um pouquinho difícil, mas uma das coisas que tento fazer é a optimização de recursos, das máquinas, nomeadamente das impressoras 3D. Quando deu o estoiro da covid, comecei a usar a máquina para produzir equipamentos de protecção individual. Recentemente, produzi uma prótese para uma criança. Também a participação no programa da Fundação Tony Elumelu acabou por abrir portas e dar acesso a uma rede de contactos. Estou a trabalhar com parceiros que não estão aqui. Vejo a PrimeBotics como uma plataforma para ligar Cabo Verde ao mundo. Sabemos que temos um mercado bastante restrito, que não consome muito, então, vamos produzindo outras coisas, que ajudam a continuar o desenvolvimento dos projectos.

O futuro da PrimeBotics não tem que passar exclusivamente pelos drones.

Temos trabalhado nesse sentido. É um produto que queremos oferecer, mas o futuro da PrimeBotics não está exclusivamente ligado à produção de drones.

Estás sozinho, por enquanto, na PrimeBotics?

Tenho a minha esposa, que me ajuda e cuida da gestão, o meu irmão que lida com a parte do design, e conto, também, com a ajuda de bons amigos e conhecidos.

A verdade é que temos, em Cabo Verde, cada vez mais gente formada e preparada para trabalhar nestas áreas.

Gosto de dizer, quando tenho oportunidade de falar com alguém que quer conhecer o projecto, que nós temos muita gente que, realmente, está a desenvolver coisas muito interessantes. Às vezes, é uma questão de oportunidade. Quando se pretende empreender, tem que se ter muita disciplina e muita perseverança, porque há muitos obstáculos a vários níveis. Então, há que ser persistente e gostar muito daquilo que se faz. Caso contrário, muito facilmente, acabamos por desistir. Acredito que há muita gente com boas ideias, à espera de uma oportunidade. Uma coisa que gostava de realçar é a importância de aprender uma língua estrangeira, nomeadamente o inglês. Há vários programas estrangeiros, até de financiamento, que acabam por dar essa oportunidade, tal e qual como aconteceu comigo. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1031 de 1 de Setembro de 2021. 

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Autoria:Nuno Andrade Ferreira,6 set 2021 9:11

Editado porAndre Amaral  em  18 set 2021 23:21

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