Amor pelas plantas movimenta mercado em tempos de confinamento

PorSheilla Ribeiro,23 ago 2020 8:15

Com o confinamento, o uso de plantas na decoração de imóveis tem crescido a cada dia e o fenómeno é mundial. Aliás, recentemente, uma especialista explicou ao portal brasileiro Gazeta que a situação actual tem feito com que as pessoas tenham mais tempo para observar suas casas e sentir falta do “afecto da natureza” e que, além disso, as plantas filtram poluentes presentes no ar e o seu cultivo pode ser terapêutico. Por cá, todos estão “Louc@s PorElas” e esta corrida pelo verde tem movimentado o comércio.

Muito dos amantes das plantas em Cabo Verde estão organizados no grupo criado no Facebook denominado “Louc@s por Elas” que, segundo explica uma das administradoras, Elsa Fernandes, foi criado no dia 17 de Abril de 2020, após um desabafo de uma internauta sobre a sua angústia por não poder deslocar-se ao mercado municipal da Praia no sábado, como habitualmente, para comprar plantas.

“A partir daí, depois de uma troca de comentários entre várias pessoas, que se prolongou pela madrugada adentro, Lúcia Cardoso, outra administradora, sugeriu que se criasse o grupo”, prosseguiu a entrevistada salientando que além das administradoras/criadoras – Joelma Tavares, Elsa Fernandes e Lúcia Cardoso – o grupo conta também com o apoio de três moderadoras na sua gestão, Alice Matos, Sofia Lima e Emita Nzingha.

O objectivo inicial do grupo, e que continua a prevalecer, segundo Elsa Fernandes, é unir as pessoas à volta de um interesse comum, de uma paixão – as plantas. Tudo isso, conforme conta, em meio à pandemia de COVID-19 que mantêm toda a gente em sobressalto, de coração apertado e vivendo de forma extremamente condicionada.

“Daí o lema do grupo – “Em tempos de pânico, semeie o amor!” – que está intimamente ligado à sua missão: promover a tranquilidade, a paz e o bem-estar psicológico no geral, em tempos de incerteza, ansiedade e medo”, prosseguiu.

Com três meses de existência, revela esta administradora, o grupo conta já com mais de 11 mil membros de várias paragens como Cabo Verde, Moçambique, Angola, Timor-Leste, Holanda, Hungria, Suíça, Espanha, Alemanha, Brasil, Portugal, EUA, dentre outros.

Surpresa

Elsa Fernandes afirma que não imaginavam que o grupo teria tantos seguidores em tão pouco tempo. De início, segundo refere, os membros eram essencialmente pessoas que sempre gostaram de plantas, independentemente do cenário que se vivia. Mas, acrescenta, o grupo cresceu e continua a crescer, “de forma vertiginosa”.

“As pessoas reconheceram no cuidar das plantas uma terapia e aderiram quase que massivamente. Constata-se que esta é uma tendência mundial: com o instalar da pandemia, em muitas paragens do mundo verificou-se uma onda de pessoas que se dedicaram às plantas como forma de enfrentar o momento menos bom que se vive. Trata-se de uma actividade com um incrível efeito terapêutico sobre as pessoas e um impacto extremamente positivo no meio ambiente”, explica.

Economia

Elsa Fernandes diz ainda que quando criaram o “Louc@s PorElas” nunca imaginaram que o grupo teria uma vertente económica e, embora muito cedo se tenham apercebido desta faceta, não esperavam que ganhasse uma proporção tão grande.

“Consideramos que esta é uma valência de extrema importância tendo em conta a recessão económica que o mundo e o país, em particular, vivem. Constatámos que muitas pessoas, vendo-se em dificuldades, conseguiram neste meio encontrar uma fonte de renda, inovando por exemplo com a confecção de vasos artesanais, suportes para vasos, dentre outros. Outras, que já estavam no mercado das plantas e acessórios, encontraram no grupo uma forma de publicitar o seu negócio e arrecadar clientes”, acrescentou.

Esta amante de plantas informou ainda que se tem notado também no grupo a presença de responsáveis e funcionários de lojas e estabelecimentos “de alguma dimensão” que “viram as suas vendas de plantas e acessórios disparar como nunca”.

Negócios

Ineida Semedo sempre teve plantas em casa mas agora, ao ver o interesse das pessoas por este ser vivo a aumentar de forma exponencial, aproveitou para as comercializar. “Sempre fiz plantas em pequenos recipientes para oferecer às pessoas. Uma amiga sugeriu que eu as vendesse. Numa simples brincadeira publiquei na rede social que estava a vender e muitas pessoas mostraram-se interessadas. A partir de então não parei de vender”, narra.

Depois, conforme relatou, ficou a saber do grupo Louc@s por Elas. Aproveitou o espaço virtual para publicitar as suas plantas e, garante, “as vendas dispararam”, com o aparecimento de “muitos mais clientes”.

“Passei a vender muitas plantas. É um dinheiro que entra e dá para ajudar com as despesas da casa. Acho que durante o confinamento as pessoas começaram a interessar-se mais pelas plantas, houve um boom de procura. Há pessoas que antes não tinham ou não se interessavam pelas plantas mas agora, depois do confinamento, conseguiram ter um ou mais vasos de plantas”, adianta.

Os preços das plantas variam, conforme conta, entre os 100 e os 800 escudos. Ineida afirma que, na maioria das vezes, vende plantas em embalagens recicladas porque na sua casa qualquer coisa é transformada em vaso. Aliás, refere esta fonte, o preço dos vasos que se vende nas lojas aumentou consideravelmente, “muito por causa da grande procura”.

Venda de suportes

Mário Varela é contínuo de Liceu do Palmarejo, na cidade da Praia. Nos tempos livres, segundo diz, dedica-se a alguns trabalhos de carpintaria, mais concretamente, suporte de plantas. Conforme conta, começou por fazer suportes de plantas depois da quarentena.

“Como eu já fazia algumas mobílias, uma pessoa sugeriu que eu fizesse um suporte de plantas porque estava a precisar. A partir daí fui pesquisando ideias em aplicativos como Pinterest e fiz. Quando essa pessoa mostrou para uma amiga, ela sugeriu que eu entrasse no grupo Louc@s por elas. Quando entrei no grupo e publiquei o suporte que tinha feito as pessoas começaram a entrar em contacto para fazer encomendas. Hoje tenho muitos pedidos. Já vendi mais de 20 unidades de suportes, desde conjuntos a suportes isolados. O preço varia entre os 1.200 e os 6 mil escudos, dependendo do suporte”, revela.

Mário Varela conta que tem recebido muitos elogios no Facebook, tanto no grupo como pessoalmente. O dinheiro dos suportes, informa, ajuda muito em casa. Aliás, divulga, que actualmente ganha mais com os suportes do que o salário mínimo que aufere.

“Agora, com essa renda extra, o meu salário tem um outro objectivo. Pago as contas com o dinheiro dos suportes. Estou a poupar o meu salário para poder abrir uma oficina onde possa produzir mais e expor os meus trabalhos, além das máquinas necessárias que não tenho e pago outras pessoas para fazerem”, adianta Mário Varela que diz não ser carpinteiro, uma vez que não tem nenhuma formação na área e nunca trabalhou como tal. Diz que faz o que faz porque é curioso e conta com a ajuda do Youtube.

Jessica Silva é dona da página Handmade by Jess na rede social Instagram, onde vende suportes para vasos de plantas feitos à base cordas de sisal. Segundo explicou ao Expresso das Ilhas, a ideia de produzir suportes surgiu em plena quarentena. “Comecei a fazer algumas coisinhas, artes, aqui para casa e a minha prima incentivou-me a fazer mais para vender porque gostou do resultado e achou interessante. Comecei então a desenvolver a ideia a partir de então”, explica.

Ela que é natural de São Vicente mas residente na cidade da Praia, desde Janeiro último, é arquitecta e urbanista de formação, mas nas horas vagas assume-se como artesã. As vendas, conforme explica, têm corrido bem. Já os preços, variam entre os 600 e os 3 mil escudos.

“Criei uma página no Instagram por achar que é essencial para quem quer vender. É uma forma gratuita de se fazer publicidade, por isso criei não só no Instagram, mas também no Facebook e consegui atrair muito mais clientes do que apenas publicar nos grupos de vendas ou no sistema de boca-a-boca. É uma renda extra, para além da arquitectura. Eu estou a trabalhar normalmente durante o dia e depois do horário laboral pego na produção dos suportes”, informa.

Vasos de barro

Neiva Tavares é sócia na empresa Olaria Alcides em São Domingos, interior de Santiago, a empresa, segundo conta, existe “há muito tempo”. “Antes era uma cooperativa e o meu marido formou-se na área de cerâmica. Depois de se formar ele continuou a trabalhar aqui. Mais tarde a cooperativa fechou e o meu marido criou a sua própria empresa”, continua dando conta que, em geral, vendem vasos para decoração, bindes para fazer cuscuz, potes para armazenar água, vasos de plantas, tijolos e algumas peças de moldes.

Ultimamente, explica, o que mais têm vendido são vasos de plantas. Isso durante e depois do confinamento imposto pelo Estado de Emergência. Neiva comenta que este é um produto que sempre vendeu bem, mas que o confinamento fez com que as vendas aumentassem.

“Eu penso que a venda desse produto aumentou porque agora as pessoas passam mais tempo em casa e ocupam-se das plantas. Muitos dos meus clientes dizem que fazer plantas, neste momento, é como uma terapia e vêm nas plantas uma forma de passar o tempo e fugir um pouco da rotina de trabalhar todos os dias em casa”, explica.

À olaria de Neiva, revela, têm chegado pessoas de toda a ilha de Santiago para comprar vasos. Recebem muitas pessoas da Praia que fazem as suas encomendas através do Facebook e mesmo pelo telefone.

“São tantas encomendas que nem sei ao certo quantas encomendas recebemos semanalmente. Embora sempre fizéssemos vasos para o nosso estoque, independentemente das encomendas. Os vasos custam entre 100 escudos e 2.500 escudos, entretanto as pessoas compram mais o conjunto de mil escudos, constituído por três vasos”, descreve.

O Facebook tem sido, de acordo com Neiva, um grande aliado as vendas. Diz a empresária que muitas pessoas não conheciam a Olaria Alcides e passaram a conhecer por causa desta plataforma digital. “Até mesmo pessoas de outras ilhas têm ligado a pedir informações sobre os nossos vasos”, finaliza. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 977 de 19 de Agosto de 2020.

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Autoria:Sheilla Ribeiro,23 ago 2020 8:15

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  23 ago 2020 17:13

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