"Uma Faixa, Uma Rota". Pequim rumo a uma nova ordem mundial

PorExpresso das Ilhas, Lusa,23 abr 2019 8:37

Uma malha ferroviária até à Europa, gasodutos desde o Turquemenistão a Myanmar (antiga Birmânia) ou uma rede de portos de Moçambique à Geórgia anunciam uma "nova era", na qual a China ocupará o "centro" da ordem mundial.

O nome do projecto é 'Uma Faixa, Uma Rota' e foi inscrito no ano passado na Constituição chinesa, sugerindo uma mudança radical na política externa de Pequim, que abdica de um perfil discreto para assumir inédita assertividade.

"Trata-se de uma mudança histórica na posição da China no mundo", resume He Yafei, antigo vice-ministro dos Negócios Estrangeiros chinês, durante um fórum dedicado àquela iniciativa diplomática, no centro de conferências de Zhuhai, complexo com ampla vista para Macau.

Lançado em 2013, pelo Presidente chinês, Xi Jinping, que recebe esta semana, em Pequim, Marcelo Rebelo de Sousa para uma visita de Estado, o projecto inclui aeroportos, centrais eléctricas ou zonas de comércio livre, visando dinamizar regiões pouco integradas na economia global.

Bancos e outras instituições chinesas estão a conceder enormes empréstimos para projectos lançados no quadro da iniciativa, que inclui ainda uma malha ferroviária e autoestradas, a ligar a região oeste da China à Europa e Oceano Índico, cruzando Rússia e Ásia Central, e uma rede de portos em África e no Mediterrâneo, que reforçarão as ligações marítimas do próspero litoral chinês.

O maior entrosamento entre Pequim e os mais de cem países envolvidos abarca também o ciberespaço, meios académicos, imprensa ou comércio, numa altura em que os Estados Unidos de Donald Trump rasgam compromissos internacionais do clima à migração.

"A iniciativa combaterá a onda anti-globalização", realça He Yafei.

O antigo secretário de Estado dos Assuntos Europeus português Bruno Maçães, actualmente a viver em Pequim e autor do livro "Belt and Road: A Chinese World Order" (Faixa e Rota: Uma Ordem Mundial Chinesa), classifica o projecto como "muito ambicioso" e um desafio à ordem mundial construída pelo Ocidente.

O objectivo é "redesenhar o mapa da economia mundial" de forma a "colocar a China no centro", repondo a "visão antiga do país sobre si mesmo como nação universal", descreve.

Contudo, a nova vocação internacionalista de Pequim suscitou já divergências com as potências ocidentais, que veem uma nova ordem mundial ser moldada por um rival estratégico, com um sistema político e de valores profundamente diferente.

No mês passado, Bruxelas produziu um documento que classifica Pequim como um "adversário sistémico", que "promove modelos alternativos de governação", e apelou a acções conjuntas para lidar com os desafios tecnológicos e económicos colocados pela China.

Washington alerta que os planos chineses subverterão a actual ordem internacional e alargarão a esfera de influência de Pequim - os países aderentes tornar-se-ão Estados vassalos, reféns do crédito chinês, permitindo à China exportar o seu excesso de capacidade industrial ou poluição.

(Etienne Oliveau/Getty Images/Foreign Policy illustration)
(Etienne Oliveau/Getty Images/Foreign Policy illustration)

Mas, no espaço de uma década, enquanto as economias desenvolvidas estagnaram, o país asiático construiu a maior rede ferroviária de alta velocidade do mundo, mais de oitenta aeroportos e dezenas de cidades de raiz, alargando a classe média chinesa em centenas de milhões de pessoas.

Para o embaixador português em Pequim, José Augusto Duarte, é "natural" que, a acompanhar este desenvolvimento, Pequim assuma o desejo de estar no centro da governação dos assuntos globais e competir nos sectores de alto valor agregado.

"É normal", diz. "Anormal seria que a segunda maior economia do mundo não reclamasse um maior papel na cena internacional", afirma.

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Autoria:Expresso das Ilhas, Lusa,23 abr 2019 8:37

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  22 jan 2020 23:21

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