Uso de Opiáceos: Uma pandemia do século XXI

PorSara Almeida,7 jul 2019 2:52

O aumento preocupante do tráfico de opióides sintéticos na África Ocidental tem sido apontado por diferentes estudos nos últimos anos. Também o Relatório Mundial sobre as Drogas 2019, apresentado na semana passada reforça essa preocupação, e fala em crise no Oeste, Centro e Norte da África.

O Tramadol lidera na região, num momento em que as apreensões desta droga atingem recordes a nível global. Em Cabo Verde falta informação e estudos sobre o uso deste medicamento, legal por prescrição médica, e não parece haver indícios de “crise”. Contudo, o país deve estar atento e continuar a apostar na prevenção, avisam os especialistas. 

Fala-se em crise de opiáceos no mundo. E a palavra crise parece fazer cada vez mais sentido olhando os estudos que têm sido apresentados. O Relatório Mundial sobre as Drogas, divulgado no passado dia 26 pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC, da sigla em inglês), traz dados referentes a 2017 e parece confirmá-lo.

Conclui o documento que o uso de opiáceos tem vindo a ser subestimado em estudos anteriores. Na verdade, após apuramento mais preciso dos dados, estima-se que o número de usuários de opiáceos seja de 53 milhões, 56% acima das estimativas anteriores. Não só o consumo é elevado, como o número de mortes: “os opioides são responsáveis por dois terços das 585.000 pessoas que morreram como resultado do uso de drogas em 2017”, lê-se no sumário executivo do documento.

Os recordes da chamada crise de overdose de opiáceos sintéticos acontecem na América do Norte que em 2017, de acordo com este relatório, registou mais de 50 mil mortes. “Mais de 47 mil mortes por overdose de opiáceos registrados nos Estados Unidos, um aumento de 13% em relação ao ano anterior e 4 mil mortes relacionadas a opióides no Canadá, um aumento de 33% desde 2016”, especifica.

Nessa zona do globo, o principal problema da crise de opioides sintéticos é o Fentanil e os seus análogos. Entretanto, “o Oeste e o Centro e o Norte da África estão a passar por uma crise de outro opioide sintético, o Tramadol”.

Para dar ideia da dimensão da ascensão deste opiáceo: “As apreensões globais de Tramadol saltaram de menos de 10 kg em 2010 para quase 9 toneladas em 2013 e atingiram o recorde de 125 toneladas em 2017”.

No relatório do ano passado, referia-se que as regiões da África Central, Ocidental e do Norte representaram 87% dos opioides farmacêuticos apreendidos em todo o mundo, na sua quase totalidade apreensões de Tramadol.

E Cabo Verde? Prevenir é palavra de ordem

Não há dados específicos sobre Cabo Verde, mas nenhum país está a salvo desta crise de opiáceos. Pela sua localização e características Cabo Verde deve pois precaver-se contra esta epidemia.

“Como Cabo Verde faz parte da região e as fronteiras são vulneráveis é preciso estar atento e o país deve prosseguir com as medidas preventivas e de controlo necessárias. A UNODC está a trabalhar com as autoridades nacionais nesse sentido”, resume a Coordenadora da ONUDC em Cabo Verde, Cristina Andrade.

Prevenção é pois a palavra de ordem, não só no que se refere aos opiáceos sintéticos como às outras drogas. Aliás, o Relatório de 2019 dá conta de um aumento na ordem dos 30% do número de usuários de drogas face a 2009. A estimativa de fabricação ilícita global de cocaína em 2017 registou aumento de 25% em relação ao ano anterior. Ao mesmo tempo, a quantidade global de cocaína apreendida em 2017 registou também recordes.

“O relatório mostra que a situação global é de facto preocupante. Enquanto há estabilidade em algumas questões que foram trabalhadas, surgem outros aspectos [novos]. Então, tem de se trabalhar é na questão da prevenção. É preciso que as pessoas se sintam bem, felizes. É preciso trabalhar esse aspecto da relação [com as drogas], investir na parte preventiva”, reforça a representante do UNODC.

Tramadol em Cabo Verde

Entretanto, tanto o Tramadol como o Fentanil (fentanilo) fazem parte da lista nacional de medicamentos nacional e podem ser adqui­ridos legalmente mediante prescrição médica. Pelo que apuramos junto a fontes farmacêuticas, o Fentanil é pouco usado, estando muitas vezes esgotado. Já o Tramadol é relativamente popular, mas na sua venda legal não se tem notado alterações significativas a nível das quantidades vendidas. Quan­to ao mercado ilícito de venda de medicamentos, que seria aqui o mais importante, escasseiam os dados sobre estes fármacos e nenhuma entidade responsável nos avançou informações.

Um estudo da Agência de Regulação e Supervisão dos Produtos Farmacêuticos e Alimentares (ARFA – entretanto extinta) datado de 2012 mostrava que um em cada quatro cabo-verdianos adquiria medicamentos nesse mercado ilícito. Contudo, entre os medicamentos mais consumidos por esta via não apareciam esses analgésicos opiáceos.

De igual modo, embora um estudo da Comissão de Coordenação do Álcool e outras drogas (CCAD), de 2013, contemple já informações sobre uso de medicamentos não há referência específica a este tipo de fármacos. Ambos os estudos saliente-se, no entanto, são relativamente antigos.

Também não se sabe por exemplo ao certo quantos medicamentos entram por via ilegal. Várias notícias dão conta de um enorme número de medicamentos apreendidos nos aeroportos, em particular na Praia. Por exemplo, entre Fevereiro e Março de 2018 foram apreendidas 136.950 unidades de medicamentos (três vezes mais do que durante todo o ano 2017) e entre Agosto e Setembro também desse ano, mais de 98 mil comprimidos.

Nessas apreensões, embora haja referências de que entre os medicamentos possa estar o Tramadol, destacam-se essencialmente, nas divulgações das autoridades competentes, medicamentos para aumentar a potência se­xual (tipo Viagra) e Ibuprofen, oriundos, na sua maioria do Senegal e da Guiné-Bissau. Nada sobre Tramadol…

Tramadol, a droga do Boko Haram

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Em crescente uso na África Ocidental, este medicamento para as dores tem vindo a ser usado para outros fins. Nomeadamente para o terrorismo. Antigos membros do Boko Haram têm relatado como lhe eram dados vários comprimidos de Tramadol antes dos ataques. É que este opiáceo, quando tomado em elevadas doses tem efeitos semelhantes à heroína (que é também um opiáceo).

“Quando tomávamos Tramadol, nada importava para nós excepto aquilo que nos tinham mandado fazer. Ficavamos drogados e muito corajosos, era impossível sair em uma missão sem tomar Tramadol”, contou à organização African Arguments, Musa, um antigo membro do grupo islamita.

O seu testemunho é replicado por outros ex-membros. Aliás, a maior parte das pessoas que viveram ou vivem sob o jugo do Boko Haram tem problemas de dependência.

O Tramadol é legal na Nigéria (tal como em Cabo Verde) e relativamente barato. A dosagem em que é vendido é que geralmente é duas vezes superior ao limite estabelecido na maior parte dos países (225 mg quando em Cabo Verde, por exemplo, o máximo é 50mg, para as cápsulas, e 100mg para as restantes versões). A sua venda é sujeita a prescrição médica, mas as ONGs nigerianas alertam para a venda livre em certas farmácias. A esta venda junta-se um enorme mercado ilícito.

Os especialistas têm vindo a aconselhar as autoridades a “atacar” o uso desta droga, como forma de controlar o grupo terrorista, ou pelo menos a brutalidade dos seus ataques.

“Nenhum atacante sequer pensará em sair sem tomar uma substância como o Tramadol”, contou Musa. “Se controlares o Tramadol, enfraqueces o Boko Haram”, resume, citado na African Arguments.

Texto originalmente publicado na edição impressa do expresso das ilhas nº 918 de 3 de Julho de 2019. 

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Autoria:Sara Almeida,7 jul 2019 2:52

Editado porSara Almeida  em  16 jul 2019 17:19

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