Um novo mundo começou há 20 anos

PorJorge Montezinho,11 set 2021 7:30

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Todos os que temos idade para isso sabemos exactamente onde estávamos no dia 11 de Setembro, há duas décadas. Recordamos a abertura dos noticiários com o que parecia ser um acidente, um avião acabara de chocar com a torre norte do World Trade Center. Depois, já em directo, vimos o segundo avião a entrar pela torre sul e soubemos então que não era um acidente, era outra coisa. Seguiram-se as imagens que nos acompanham até hoje, pessoas presas nos andares superiores, alguns a saltar, o colapso dos prédios, homens e mulheres cobertos de cinzas a deambular pelas ruas. Vieram os nomes até então quase desconhecidos: Al-Qaeda, Osama bin Laden, Khalid Sheikh Mohammed. E surgiu a Guerra ao Terror, a perda de privacidade, a paranoia securitária. Houve mais ataques terroristas desde 2001, mas foi a partir do 11/09 que o mundo nunca mais foi o mesmo.

No início, foi o inusitado da situação, aviões usados em ataques terroristas suicidas era uma novidade. Eram 8h46 em Nova Iorque, 11h46 em Cabo Verde, quando o voo 11 da American Airlines colidiu com a torre norte do World Trade Center. 17 minutos depois, o voo 175 da United Airlines despenhava-se na torre gémea, a torre sul, do World Trade Center. Outros dois aviões tinham sido sequestrados pelos terroristas: o voo 77 da American Airlines embateu no Pentágono, em Washington DC, o voo 93 da United Airlines caiu perto de Shanksville, na Pensilvânia, depois dos passageiros terem decidido atacar os sequestradores.

“Nova Iorque simboliza o poderio económico e financeiro dos Estados Unidos. A maior praça financeira mundial”, dizia, há 10 anos, ao Expresso das Ilhas, o embaixador Manuel Amante da Rosa. “Significa também o cosmopolitismo levado ao extremo. Todos os povos do mundo têm os seus representantes em Nova Iorque. Não só porque é a sede das Nações Unidas, como é uma cidade de emigrantes. As próprias torres gémeas constituíam o farol do poderio financeiro norte-americano”.

Quase três mil pessoas morreram durante os ataques, que no total não duraram uma hora e meia, incluindo os 227 passageiros e tripulantes e os 19 sequestradores a bordo dos aviões. A maioria das vítimas foram civis e incluia cidadãos de mais de 70 países.

A ideia para os ataques veio de Khalid Sheikh Mohammed, que apresentou o projeto a Osama bin Laden em 1996. Em 1998, os atentados terroristas às embaixadas dos Estados Unidos em África e a fatwa de bin Laden marcaram um ponto de viragem e Osama virou as atenções para os Estados Unidos.

“Assassinar os americanos e os seus aliados é o dever individual de cada muçulmano que possa fazê-lo, em qualquer país em que isso seja possível”, dizia o decreto religioso assinado por Bin Laden e pela Frente Mundial Islâmica para a Jihad contra Judeus e Cruzados – a Al-Qaeda.

Em Agosto de 1998 – seis meses depois da fatwa de Bin Laden –, a Al-Qaeda cometeu um duplo atentado contra as embaixadas dos EUA em Dar-es-Salaam, na Tanzânia, e em Nairóbi, no Quénia, que mataram 224 pessoas incluindo 12 norte-americanos. Poucos meses depois, em Outubro de 2000, dois bombistas suicidas da Al-Qaeda provocaram uma explosão junto ao contratorpedeiro USS Cole no porto de Aden, no Iémen, e mataram 17 marinheiros norte-americanos. Estes ataques acionaram as luzes vermelhas junto dos serviços secretos, mas ninguém foi capaz de prever o que aconteceria menos de um ano depois.

O pós 11/9

Em Outubro de 2001, 45 dias depois dos ataques, o então Presidente dos EUA, George W. Bush assinava o Patriot Act em nome da segurança nacional. A lei aumentou o poder do Governo para realizar operações de vigilância – a nível das telecomunicações, a agência de Segurança Nacional norte-americana (NSA) passou a poder interceptar dados de cidadãos estrangeiros de passagem pelos EUA e uma ordem executiva secreta autorizava escutas a norte-americanos sem qualquer mandado judicial.

“O que aconteceu foi a normalização da vigilância em massa. Com o 11 de Setembro, deixámos o Governo dos EUA, e, consequentemente, outros governos no mundo, acederem às nossas comunicações em nome da segurança”, explicou ao PÚBLICO Cindy Cohn, presidente executiva da Electronic Frontier Foundation (EFF). “Antes, a ideia – pelo menos nos EUA – era que os governos democráticos não podiam ter acesso directo às comunicações das pessoas a menos que existissem suspeitas. Com o 11 de Setembro, a estratégia da NSA passou a ser ‘recolher tudo’ primeiro; analisar depois”.

Quatro meses depois, a 29 de Janeiro de 2002, é dia de discurso do Estado da União. O país está em guerra, no Afeganistão, à procura de Osama Bin Laden e de outros líderes da Al-Qaeda. Na tribuna, George W. Bush, deixa a promessa: “A nossa causa é justa e continua (…). Aquilo que encontrámos no Afeganistão confirma que, longe de terminar por aqui, a nossa guerra contra o terror está apenas a começar”. Praticamente um ano depois deste famoso discurso, os EUA iniciavam a invasão do Iraque.

Osama bin Laden foi morto a 2 de Maio de 2011, em Abbottabad, Paquistão. Khalid Sheikh Mohammed continua detido na prisão de Guantánamo. A guerra no Iraque foi um fracasso, a do Afeganistão foi outro fiasco. “A obrigação fundamental de um Presidente é defender e proteger a América, não contra as ameaças de 2001, mas contra as ameaças de 2021”, disse Joe Biden enquanto os últimos soldados americanos abandonavam o aeroporto de Cabul. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1032 de 8 de Setembro de 2021.

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Autoria:Jorge Montezinho,11 set 2021 7:30

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  23 set 2021 23:20

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