Humbertona: o violão da saudade (parte II)

PorCésar Monteiro,17 jan 2018 6:24

​A emergência, na cena cultural mindelense, nos finais de 1964, dos Ritmos Caboverdeanos de que o renomado guitarrista Humberto Bettencourt Santos (Humbertona) é um dos cofundadores, ocorre num contexto musical urbano marcado fortemente pela presença de uma sonoridade acústica contagiante, suportada por instrumentos de sopro executados pelas famosas orquestras sanvicentinas de então, que animavam bailes nos locais marcantes e simbólicos da cidade.

De facto, na altura, “aquilo que entrava no ouvido das pessoas tinha uma determinada sonoridade, que era a sonoridade do clarinete, do trompete, do saxofone, da flauta, da viola e bico e do banjo”, seguindo-se-lhes, mais tarde, a guitarra eléctrica, cujo aparecimento revoluciona a música urbana daqueles fecundos anos.

Conquanto a ideia inicial da fundação da famigerada banda tivesse partido de Humbertona e de seu amigo próximo, Antoninho (Tony), o projecto, contudo, ganha corpo e notoriedade e é assumido, integralmente, pelo colectivo, mas, em primeiro lugar, pelos irmãos Marques da Silva, que tinham meios financeiros e pertenciam a uma rede local de influências e conhecimentos. Na altura em que surgiu, sob o signo da guitarra eléctrica, o conjunto funcionava sem manager, pelo menos na acepção em que o conceito é entendido hoje em dia, mas, ao invés, se impunha a figura de administrador ou organizador, como se preferir, que recaía sobre Lulu Marques, o irmão mais velho da família Marques da Silva, enquanto Tony se destacava como o verdadeiro líder musical. Sem, todavia, demérito para os demais integrantes dos Ritmos Caboverdeanos, mormente para aqueles que conceberam e arquitectaram o projecto, em termos de ideias, o envolvimento do veterano Lulu foi decisivo na sua concretização, sobretudo na aquisição dos primeiros instrumentos musicais e do seu financiamento, que viabilizariam a banda inicialmente constituída assim: Lulu (acordeão e percussão), Tony (piano), Djosa (bateria e piano), Humbertona (guitarra eléctrica) e Djack de Felícia (baixo eléctrico).

Os papéis musicais distribuídos no interior do conjunto, onde, de resto, primava o princípio do relacionamento horizontal, interpessoal e não hierarquizado, respeitavam a flexibilidade, a não compartimentação estanque e a alternância, a ponto de “eu, de vez em quando, ir para a bateria, enquanto o Djosa e o Tony tocarem piano a quatro mãos”. Curiosamente, nesse período dominado por instrumentos de sopro, “não se usavam vocalistas nos bailes, não havia tradição, mas, em espetáculos, convidávamos cantores”, tendo em mira o reforço da base melódica do conjunto suportada pela guitarra eléctrica (Humbertona) e pelo piano electrificado (Tony Marques).

O potencial sonoro da banda era fraquíssimo, muito precário, dir-se-ia e limitava-se a um “aparelhinho de amplificação de válvulas, não moderno, que se comprou num emigrante cabo-verdiano residente nos Estados Unidos da América e que viera a Cabo Verde de férias”. Todavia, a despeito dos constrangimentos de ordem sonora, o conjunto Ritmos Caboverdeanos, que conseguiu construir uma identidade coletiva própria e diferenciada,produzia boa música, na altura, tanto é assim que, “éramos considerados o grupo da moda em São Vicente, o único que tocava em bailes, regularmente, com viola e baixo eléctricos”. No essencial, o repertório do conjunto privilegiava a música tradicional cabo-verdiana, “tocávamos muita coladeira (…) e samba. O Antoninho chegou a compor alguma música, que o grupo ensaiou e interpretou”.

Dotado de uma sonoridade singular e tipicamente cabo-verdiana, que, de resto, não se confundia com nenhuma outra, o conjunto, depois do espectáculo-estreia de sucesso no Cinema Éden Park, fez a sua primeira digressão musical internacional para a Guiné-Bissau, em Maio de 1965, onde permaneceu cerca de um mês, enquanto aguardava barco de regresso à terra, tendo realizado vários espetáculos no Cinema UDIB, em Bissau, e animado bailes e shows. De retorno à ilha do Monte Cara, os Ritmos Caboverdeanos participam, em Janeiro do ano seguinte, em Cabo Verde, num concurso musical yé-yé, “ganhámo-lo e o prémio atribuído foi a deslocação a Lisboa, em Abril de 1966, para participar, no Cinema Monumental, na final dos países vencedores do festival precedentemente realizado em Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe. Em Portugal, gravámos um disco de 45 rotações com quatro faixas, fizemos programas na Televisão e na Rádio, tocámos nalgumas boates e, em Maio, os rapazes regressaram a Cabo Verde sem guitarra solo”, já que Humbertona resolveu “apanhar comboio para a Bélgica”, onde, aliás, tinha amigos, a fim de ali realizar estudos universitários.

A desvinculação do guitarrista da banda mindelense dá os primeiros sinais de uma crise anunciada dessa prestigiada formação musical, porquanto, logo depois, o pianista Tony Marques emigraria para os Estados Unidos da América, privando, assim, os Ritmos Caboverdeanos da sua forte base melódica e ditando o seu desmoronamento definitivo, em 1967. Separado, pois, do conjunto musical que ajudou a fundar nos primeiros anos da década de 60, Humbertona chega à Bélgica, a 17 de Maio de 1966, precisamente, no final do ano lectivo e, aperfeiçoada a língua francesa, em tempo record, inscreveu-se na Universidade de Louvaine, na licenciatura em Economia Aplicada (Gestão) e iniciou as aulas no mês de Setembro seguinte. Na Bélgica, Humbertona encontra Waldemar Lopes da Silva, seu primo, que já vinha do Brasil, onde permanecera alguns anos, e com ele “passei a tocar, juntamente com um percussionista, gravámos vários discos na Holanda, eu como solista e ele como acompanhante. Waldemar era muito bom, tinha um acompanhamento excelente, gravei uma série de discos com ele”,na Holanda, juntamente com Frank Cavaquinho, Chico Serra, Toi Ramos (Toi de Bibia), Morgadinho, Piúna e Tazinho, que já residiam nesse país.

Ainda que não se considerasse profissional, pelo menos na fase inicial da sua vida musical, Humbertona foi desenvolvendo aquilo que ele próprio apelidaria de “carreira discográfica”, iniciada, se se quiser, já em 1966, com os Ritmos Caboverdeanos, em Lisboa, na gravação de um pequeno disco vinil, sucedendo-lhe, mais tarde, a gravação de sete discos, a solo, na Holanda, sob a chancela da editora Morabeza Records, até 1973, com ensaios preparatórios na Bélgica. Assim, em 1967, gravou o seu primeiro LP intitulado Lágrimas e Dor – Mornas Dedilhadas por Humbertona (LP, Album, 1967), Ref. 113 107 Y; Morna Ca Sô Dor (LP, Album, 1967), Ref. 113110 Y; Humbertona ma Chico Serra (LP, 1969 e CD, 1992); Sodade – Rapsódias de Mornas e Coladeiras (LP, 1969, com Toi Ramos); Stora-Stora (LP, 1971com Marcelo Melo do Quinteto Violado e Waldemar Lopes da Silva, música brasileira e do nordeste brasileiro), Ref. 6802614; Dispidida (LP, 1973, com Piúna); Sodade Instrumental, editado em 2005, que reúne o LP Sodade e outras músicas. (Carlos Gonçalves, 2018).

Dos discos gravados a solo por Humbertona, Sodade é, seguramente, o mais célebre do “grande violão cabo-verdiano” (Vasco Martins, 2016) que, à margem da sua produção discográfica, acompanhou o Bana na gravação de mornas (Mar di Furna) e, também, Luís Morais, na gravação de Mona Linda e La Violenta, entre outros, “ora para meter a guitarra, ora para meter o baixo, mas sem dar o meu nome”. Igualmente, o talentoso guitarrista participou, como militante da causa da luta de libertação nacional, desde finais de 1966, a partir do seu ingresso nas fileiras do PAIGC, na edição, de dois discos, na antiga RDA: Poesia cabo-verdiana – Protesto e luta (1970), com a colaboração de Waldemar Lopes da Silva, no fundo musical, e Música cabo-verdiana – Protesto e luta (1973). (Gláucia Nogueira, 2016).

Todavia, a coparticipação do “solista de excelência” (Nôs Guenti, Cabo Verde, 2015) na gravação discográfica não se restringiria apenas à prata da casa, já que se diversificou e se aprofundou, no quadro da mobilidade de músicos e artistas dentro e para Europa. É assim que Humbertona conhece o angolano Barceló de Carvalho (Bonga), antigo atleta do Sport Benfica de Lisboa e recordista português de 400 metros, que chega à Bélgica,“creio eu em 1969, integrando uma delegação de atletismo de Portugal, com vista à prestação de uma prova na Holanda, acolhemo-lo na ‘República’ de estudantes cabo-verdianos (…) e ficou lá connosco”, deixando, para trás, em Roterdão, a delegação de atletas portugueses. Com o cantor angolano, Humbertona participaria na gravação de dois discos e “dois projectos diferentes”: ‘Angola 72’ e ‘Angola 74’, o último de maior sucesso, que incluiu a composição Sodade,interpretada, pela primeira vez e de forma especial, por um estrangeiro”.

Durante o seu percurso musical, Humbertona foi particularmente influenciado por grandes nomes do violão cabo-verdiano, com realce para o lendário e também compositor Luís Rendall (1898-1986), Amândio Cabral (1935) e o falecido professor liceal, Augusto Pirico (Augusto Santos). Aberto ao mundo da música, através particularmente da discografia, o guitarrista, na altura, deixou-se influenciar, igualmente, por três brasileiros voltados para a bossa nova: Baden-Powell de Aquino (Rio de Janeiro, 1937-2000); Luís Bonfá (Rio de Janeiro, 1922-2001), cantor, violonista e compositor, e, ainda, Waldir Azevedo, “bom tocador de cavaquinho, executava solos de cavaquinho e eu e o Waldemar transpúnhamos para o violão”.

De regresso a Cabo Verde, logo após ao 25 de Abril de 1974, e concluídos os estudos universitários na Universidade de Louvaine, Humbertona foi incumbido pelo então Governo de reestruturar o sector nacional das pescas e, em decorrência, assumiu o cargo de Director Geral das Pescas, de 1975 a 1982, tendo desempenhado, sucessivamente, as funções de Embaixador nos países membros do Benelux, nos países nórdicos e na União Europeia, entre 1982 e 1987 e, ainda, Representante Permanente nas Nações Unidas, em Nova Iorque, entre 1987 e 1991. (Nôs Guenti Cabo Verde, 2015).Todavia, a partir de 1992, desligado definitivamente da actividade diplomática, a seu pedido, o guitarrista trabalharia como consultor para organismos internacionais e abraçaria a carreira empresarial, criando, na Praia, uma escola informática, antes de, finalmente, desempenhar as funções de Presidente do Conselho de Administração (PCA) da Cabo Verde Telecom (2001-2012), até à sua aposentação.

Apesar da intensidade da sua actividade pública e privada, ligada, primeiro, à diplomacia, e, depois, ao sector empresarial, Humbertona concilia a vida profissional e familiar com a música, tendo integrado, em Cabo Verde, logo após ao 25 de Abril de 1974, o grupo Nova Aurora, e, igualmente, participado, em 1976, na “gravação de uma cassete com músicas e poemas de intervenção, iniciativa do Grupo de Intervenção Artística (GIA)” (Gláucia Nogueira, 2016). Profundamente comprometido com a sua cultura tradicional que, aliás, sempre defendeu, com devoção e sentido de equilíbrio, Humbertona, ainda cedo, impôs-se, com igual “virtuosismo nato” (Nôs Guenti, Cabo Verde, 2015) e originalidade, como um dos mais conceituados instrumentistas cabo-verdianos de cordas, de sempre, o que lhe confere, por mérito próprio, um lugar cimeiro na galeria dos intérpretes de referência de violão das ilhas.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 841 de 10 de Janeiro de 2017. 

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Autoria:César Monteiro,17 jan 2018 6:24

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  17 jan 2018 6:24

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