Balanço ou Inquérito?

PorAntónio Ludgero Correia,5 jun 2018 14:45

“… o inovador tem por inimigos todos aqueles que obtinham vantagens com as velhas instituições, e encontra fracos defensores naqueles que das novas ordens se beneficiam.” NICOLAU MAQUIAVEL

Decorridos 24 meses sobre a aprovação da moção de confiança que validou o programa do Governo, apoiado pela nova maioria saída das últimas eleições gerais na República d’Os Biscaínhos, o Chanceler decidiu convocar os principais colaboradores da Primatura (Conselheiros, Assessores e o pessoal do Gabinete de Comunicação e Imagem - GCI) para, juntos, decidirem as grandes linhas para a celebração do “aniversário”.

- Passados dois anos sobre a aprovação, e início de execução, do programa do Governo desta Legislatura, creio ser o momento para ter, digamos, uma Conversa Aberta com a Nação. Aceito sugestões sobre o formato a adotar na ocasião – começou o Chanceler, dando início à reunião.

Choveram sugestões de todos os lados. Foi um verdadeiro brainstorming. Houve sugestões para todos os gostos. O Chanceler ouviu com atenção os conselhos dos seus colaboradores, mas não parecia satisfeito. Os formatos sugeridos não lhe agradavam de todo e verbalizou as suas reservas:

- A minha ideia era ter uma pequena sessão de balanço. Mas o que os senhores me sugerem é que me submeta a um inquérito sumário onde cada inquiridor foca as questões que o tocam diretamente. Penso que, em um tal formato, corro o risco de deixar largas zonas de sombra no balanço pretendido. Muita coisa de que gostaria de falar pode acabar ficando por dizer. E a ideia de representantes de classes e sectores com questões pendentes de decisão administrativa participarem do ‘inquérito’ só reforça esta ideia. Questões que gostaria de ver abordadas podem acabar sendo obnubiladas pelo pendor corporativo que a sessão pode ganhar. Sei não.

Assim resumiu o Chanceler as suas dúvidas em relação à posição combinada de seus Conselheiros, Assessores e Gabinete de Comunicação e Imagem. E ficou claro que o Chanceler tinha ideias próprias acerca do assunto e que ia seguir seu instinto.

- Não me tenho dado bem seguindo meu instinto? – falou para os seus botões. - Pois bem. Desta feita, não será diferente.

Se bem o pensou, melhor o fez. Pediu ao Gabinete de Comunicação e Imagem que convocasse a imprensa para uma coletiva.

- Formato? – questionou a moça do GCI.

- Formato? Ah! Isso… está bem. Digam aos jornalistas que os receberei na Sala Elíptica da Chancelaria, na quinta-feira da semana que vem, para com eles fazer o balanço dos dois primeiros anos de governação e a projeção dos próximos três anos.

“Começarei por fazer uma comunicação em que darei conta do que foi feito, dos resultados já obtidos e das traves mestras já montadas e que, a curto prazo, darão corpo a promessas feitas na nossa plataforma eleitoral e retomadas no programa de Governo.

“Feito o balanço do que foi a governação destes 24 meses, farei uma projeção das metas que o meu Governo conta atingir até ao final da Legislatura, deixando informações fidedignas acerca do grau de execução do programa do Governo que, por essa altura, contamos atingir. Pessoalmente, estou ciente que, se não nos virmos confrontados com novas enchentes, estaremos muito perto de atingir o pleno.

“Comunique aos jornalistas que, isso feito, estarei aberto a responder às questões que acharem pertinentes pôr.

- E as corporações? Digo, e os representantes das classes profissionais, das ONGs, etc.? – questionou o membro do GCI.

- Já me esquecia. Sugiro que peçam aos senhores jornalistas, e aos OCS que os empregam, que me façam o favor de auscultarem esses setores, recolherem as suas preocupações, as processem e formulem as questões que se impuserem e a que responderei em espaço especial, e específico, dentro da sessão de Conversa Aberta. Será um tempo extra que não prejudicará nem o tempo dos jornalistas, nem o das OCS.

- Deixe-me ver se compreendi, Chanceler. O senhor abre a sessão com uma explanação onde faz o balanço dos vinte e quadro meses de governação e a projeção do que serão os próximos três anos. Depois, disponibiliza-se para responder às questões dos jornalistas: primeiro àquelas feitas em nome dos OCS onde trabalham e, a final, as feitas em nome das corporações, ONGs, etc. É isso?

- Correto e afirmativo.

Nos dias que transcorreram entre a convocação dos jornalistas e a realização da Conversa Aberta, o Chanceler trabalhou duro. Organizou e sistematizou um conjunto grande informações sobre a governação. A situação da economia (crescimento, inflação, reservas de divisas para cobrir as importações), do emprego (a redução da taxa de desemprego, mormente do desemprego jovem e desagregado por regiões), da segurança (destacando a redução e a deslocalização da criminalidade e o seu impacto na atração de turistas e investidores), transportes aéreos e marítimos (de cabotagem e de longo curso), das enchentes (que nos assolam em função da nossa localização geográfica), das assimetrias regionais de desenvolvimento (e das medidas para a sua redução drástica), enfim, apresentou um relatório detalhado das políticas e medidas de política levadas a cabo durante os primeiros vinte e quatro meses de governação e um apanhado das ações a levar a cabo nos próximos meses e conducentes à realização do programa do Governo.

Atração do Investimento Direto Estrangeiro (IDE), fiscalidade inteligente (tratando de forma diferenciada o lucro ocioso e o lucro reinvestido), reforço de articulação das polícias e dos órgãos de investigação criminal, investimento (ou participação em investimento) em meios de ligação marítima regular inter-ilhas, proteção das bacias hidrográficas (para melhor resistirem às enchentes que, amiúde, nos apoquentam) e reposição do serviço de Extensão Rural, constituem um lote especial de medidas de política a implementar ainda durante esta Legislatura (aqui pode não haver correspondência com a conversa aberta do chanceler, já que estávamos atravessando o túnel que liga a chã de areia ao palmarejo e aconteceram alguns hiatos na recepção e que fomos preenchendo criativamente).

No dia aprazado, lá estava o Chanceler, tinindo. O ‘Relatório’ foi sucinto, claro e elucidativo. Os jornalistas apressaram-se a questioná-lo para aclarar as situações que, no entender deles, não foram devidamente explicitadas; lançaram questões acerca de aspetos que não foram contemplados – ou foram deficientemente abordados – pelo Chanceler, buscando esclarecer a Nação (afinal a destinatária da comunicação de Sua Excelência); e apresentaram questões que perseguiam respostas para as preocupações das ONGs, das classes profissionais; enfim, apertaram a tarraxa, levando o Chanceler a prometer soluções para os casos pendentes de decisão administrativa, maior abertura para a economia solidária, maior atenção às classes menos possidentes, maior critério na cobrança de taxas moderadoras nos hospitais e centros de saúde, regulação do ensino superior e relançamento das discussões sobre o financiamento do ensino superior, disponibilidade para participar de pactos de regime em determinadas áreas e para aprofundar a reflexão sobre a nova vaga de descentralização.

Valeu a pena Sua Excelência o Chanceler da República d’Os Biscaínhos ter batido o pé às sugestões dos seus assessores. Apresentar aos seus concidadãos um relato, em jeito de balanço, dos dois primeiros anos de sua governação; dar conta das ações que o seu Governo vai levar a cabo na persecução da plena realização do programa de Governo aprovado no Parlamento; e submeter-se à inquirição dos jornalistas (em nome próprio, dos OCS que os empregam e das classes profissionais) valeu-lhe a aprovação dos cidadãos. Todas as áreas da governação foram cobertas (aquelas das quais o Chanceler se ‘esqueceu’, encarregaram-se os profissionais da imprensa de as trazer para a liça), as questões dos cidadãos e das ONGs foram devida e profissionalmente processadas e colocadas pelos jornalistas. Foi um balanço para ninguém botar defeito.

Já a sugestão de uma empreitada onde responderia às questões que surgissem, sem garantia de que todas as áreas da governação fossem cobertas… não lembrava ao diabo. Felizmente que bateu o pé. Parabéns, Excelência.


Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 861 de 30 de Maio de 2018.

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Autoria:António Ludgero Correia,5 jun 2018 14:45

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  5 jun 2018 14:45

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