Manuel Faustino: o médico comprometido com a criação musical (I Parte)

PorCésar Monteiro,29 jan 2019 6:53

Numa Sexta-Feira da Paixão do dia 26 de Março de 1948, nascia na antiga Rua dos Descobrimentos, mais conhecida por Rua de Papa Fria, na Cidade do Mindelo, ilha de S. Vicente, Manuel da Paixão Santos Faustino, que, já adulto, viria a receber a alcunha de Tilela, no círculo das suas relações de amizade. “O Edgar Silva (Gaia), mais velho que eu, veio de férias a S. Vicente, em 1965, no mesmo ano em que eu partia para Portugal, procedente de S. Paulo, no Brasil, onde vive, há muitos anos, e passou a chamar-me, afectuosamente, de Tilela, pois, por sinal, o seu pai respondia por Lela”.

Filho de João António Faustino, o pai de Manuel nasce na Janela, no Concelho do Paúl, e, quando apenas contava seis anos de idade, em pleno processo de socialização primária, emigra para a ilha vizinha de São Vicente com a sua tia Bebé, também ela natural dessa localidade de Santo Antão, à procura de melhores condições de vida.

Manuel
Manuel

Definitivamente instalado em São Vicente, o pai João António trabalha, durante muito tempo, como balconista da então Loja Central, um dos mais importantes estabelecimentos comerciais de então da ilha do Porto Grande situado precisamente no centro da cidade do Mindelo, na esquina da Rua de Lisboa, debaixo da Pensão Chave d´Ouro, e, por isso mesmo, passaria a ser conhecido por Joãozinho de Central. Depois de crescido e com “muito esforço”, o pai consegue estudar, conclui, finalmente, o ex-quinto ano liceal e, já como quadro administrativo e com o conhecimento de algumas línguas estrangeiras, trabalha na companhia inglesa Miller’s & Cory então instalada na ilha, onde, aliás, se aposenta. A mãe, D. Maria dos Santos do Rosário, natural da localidade rural de Juncalinho, ilha de S. Nicolau, emigra, ainda cedo, para a ilha de S. Vicente e fixa-se ali, até à sua partida definitiva para o Brasil, quando corria o ano de 1951, na esperança de dias melhores. Com a emigração definitiva da sua mãe biológica para o Brasil, Manuel Faustino transfere-se da Rua de Papa Fria para o Monte, contava ele apenas 3 anos de idade, a fim de se juntar ao pai e ali permanece até aos 9, onde viria a criar vínculos estreitíssimos com várias famílias desse bairro periférico do Mindelo profundamente marcado por fortes tradições culturais e musicais. Até hoje, “as pessoas mais velhas do Monte, familiares e amigos, vêem-me sempre como menino do Monte, tratam-me com um afecto extremamente grande”, tudo em nome das “ excelentes relações de amizade e de respeito que, então, se forjaram”. Mais tarde, quando Faustino tinha 9 anos, muda-se para o bairro nobre da Praça Nova e, ali, passa a coabitar com o pai, que viria a falecer em 1979, graças à sua notória mobilidade profissional e social vertical ascendente, numa casa que este comprara, na altura, a escassos metros do estabelecimento comercial do Sr. Valentim Neves “com quem cresci”.

Na ausência forçada da mãe biológica, no Brasil, onde viria a falecer, em fevereiro de 2018, aos 98 anos, Manuel Faustino, já a residir no famoso bairro do Monte, desde a sua tenra idade, vê-se protegido pela irmã mais velha, a Maria Alice, que “cuidava de mim como se eu fosse um ‘bibelot’, batia-me e dava-me afetos”, apesar de “o meu pai ser extraordinário”. Todavia, as relações privilegiadas que, na altura, mantinha com a sua mana Lili, “a minha segunda mãe” e por quem “nutro um carinho e apreço muito especiais”, não entorpecem, de forma alguma, aquelas que, igualmente, Tilela manteve com a mãe biológica Maria do Rosário, sempre presente na vida do filho, “através das cartas e das encomendas”, a despeito da distância física que então os separava. Sob os cuidados do pai, já a residir no Monte, Manuel Faustino inicia os estudos primários na escola de Chã de Cemitério e, posteriormente, frequenta a Escola Nova, nas imediações da Praça Nova, até aos dez anos, quando vai para o Liceu Gil Eanes iniciar os estudos secundários.

Na fase da instrução primária, alguns professores marcam, de forma especial, o percurso escolar de Manuel Faustino, numa altura em que, “além do enquadramento meramente formal”, naturalmente, havia aulas particulares ministradas por professores também particulares, aliás, “uma prática muito comum (…)”que se impunha. De entre as ditas explicadoras que então se impuseram, no plano profissional, como autênticas pedagogas, Tilela não deixa de evocar, com agrado e justificada emoção, além de D. Cidália, a figura da Menina Isidora,“uma senhora já idosa da família Costa, tio materno do Professor Augusto Costa (Guguga), que me marca, pois era dedicada e exigente, desafiava-nos, levava-nos a descobrir coisas naquela idade, num ambiente familiar, aconchegado, congregador e, sobretudo, desafiador. O José Henrique Vera-Cruz (Torritcha), o Wladimir Brito e o Jorge Carlos Fonseca (Zona) frequentaram, tal como eu, a escola de Menina Isidora, em momentos diferentes”.

Já no Liceu Gil Eanes, numa fase mais adiantada e exigente da vida escolar, Faustino tem o privilégio de ser discípulo de “professores incríveis”, que marcam, decisivamente, o seu percurso liceal. Sem sombra de dúvidas, António Aurélio Gonçalves (Mindelo, 1901 – Mindelo 1984, filósofo, professor e escritor “era, para mim, o máximo, não dava muita matéria, mas aquela que desse era um deleite. Nhô Roque marcou-me muito, talvez mais, entre todos os meus professores do Liceu”. Também, tê-lo-ão marcado, já noutro plano, é certo, outros docentes como “Norberto Gomes (Ti Norbas), professor de Matemática e uma Enciclopédia e, ainda, Augusto Perico, professor de Português e excelente violonista, todos eles autodidactas, que dominavam tudo e tinham enorme capacidade de transmissão” de conhecimentos. Apesar de ter nascido na Rua da Papa Fria, hoje Rua António Aurélio Gonçalves, a infância e a adolescência de Tilela, de resto, “muito boas e agradáveis”, foram partilhadas, em momentos diferentes da vida, entre o bairro do Monte e o da Praça Nova, até aos 17 anos de idade, sob o manto de afectos e a protecção dos familiares próximos e o calor dos amigos, mas, também, ancorado no ambiente musical dominado pela presença de instrumentos de sopro, grupos de viola e bico e, ainda, por figuras de proa como, por exemplo, o exímio violinista Mochim de Monte, natural da ilha de Santo Antão. Próprio de meios tipicamente urbanos, impunham-se como rito de passagem, em São Vicente daquela época, na faixa etária compreendida entre os 13 e os 15 anos, algumas actividade de rotina como, por exemplo, “inscrever-se num clube e jogar futebol, calçar bota, como se dizia, ‘dar estilo’, tocar violão, ou, pelo menos, fazer algumas posições, começar a frequentar o cinema e fumar às escondidas”. Curiosamente, “no meu tempo de adolescência”, tocarviolão impunha-se, igualmente, nos planos individual e social, com uma actividade obrigatória, “quase toda a gente, naquela altura, transformou-se em bons executantes de violão, outros, como eu, ficaram pelo caminho”, seja por inércia, imitação ou contágio.

Concluído o ex-7º ano liceal, em 1965, com a média de final de 14 valores, Manuel Faustino é seleccionado pela Fundação Calouste Gulbenkian como bolseiro e chega a Portugal em Outubro desse mesmo ano onde, mais tarde, em 1972, se licenciaria em Medicina pela Faculdade da Universidade de Coimbra. Todavia, sem perder de vista o pendor de compositor engagé, conquanto mais voltado, pelo menos num primeiro momento, para composições emblemáticas e de forte intervenção, partilha a criação musical com a actividade político-partidária, em pleno contexto de luta clandestina, com a valiosa ajuda do poeta Oliveira Barros (Dick), “meu mentor (…), um homem extremamente culto, aberto e do mundo”.

Texto originalmente publicado na edição impressa do expresso das ilhas nº 895 de 23 de Janeiro de 2019.

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Autoria:César Monteiro,29 jan 2019 6:53

Editado porrendy santos  em  29 jan 2019 16:48

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