Privatização da Cabo Verde Airlines O que a comunicação social não disse!!

PorGil Évora,13 mar 2019 6:14

​A generalidade da comunicação social em Cabo Verde ao comentar o acto de assinatura do contrato de privatização da Cabo Verde Airlines, e enrolada por demais na chincana política cabo-verdiana, esqueceu-se de comentar o principal ganho obtido: a manutenção dos postos de trabalho dos trabalhadores da empresa.

As manchetes dos jornais da praça em particular os jornais online preferiram sub-repticiamente deixar no ar suspeições de alguma negociata como se se tratasse da venda de uma mercadoria, ao invés de valorizar o facto de que a privatização da empresa representa uma lufada de ar fresco para várias centenas de famílias cabo-verdianas que ao longo de vários anos lutaram e sonharam para que este “dossier” tivesse um final feliz.

Ninguém falou dos pilotos, das assistentes de bordo, dos agentes comerciais, do pessoal deslocado no exterior, dos técnicos de manutenção, do pessoal operacional e de todos aqueles que vestem a camisola da Cabo Verde Airlines, dignificam-na e diariamente labutam para pôr de pé esta empresa, e que com este acordo vêm os horizontes das suas vidas se alargarem e garantem o pão nosso de cada dia para eles e seus filhos. Foi como se a nossa comunicação social estivesse à espera de sangue para manchar o acto de privatização e daí o foco se ter virado não para os benefícios decorrentes desse acordo, mas sim para o contrato, para o preço, como se estivéssemos perante uma empresa altamente lucrativa, onde os investidores se acotovelam para fazerem a sua melhor oferta.

Ninguém quis falar sobre o estado em que a Cabo Verde Airlines se encontrava em termos financeiros, com capitais próprios altamente negativos e em falência técnica há quase duas décadas, e muito menos se lembraram de perguntar os montantes dos passivos assumidos pelo Estado, o valor das alienações das acções e o destino do património existente. Ao invés, a nossa comunicação social pareceu ficar ressabiada com este acto, preferiu pôr o diapasão na falta de transparência do processo, e nem se deu ao luxo de pelo menos tentar saber quem é esta Icelandair, se é ou não uma boa parceira, se possui alguma visão estratégica, se já deu cartas pelo mundo fora na área da aviação, e pelo menos dar-lhe o benefício da dúvida. Não, nada disso foi dito!

Neste quesito ambos os governos andaram bem: a ausência quase total de interessados na privatização inviabilizava qualquer tipo de concurso público internacional ou mesmo qualquer tipo de “short-list” dada a situação económico-financeira da TACV.

Nenhuma comunicação social quis ressalvar os ganhos para o País com a privatização da Cabo Verde Airlines, e perguntar de que forma esta privatização se interliga com a estratégia de desenvolvimento dos transportes aéreos, com o hub, a concessão dos aeroportos e do handling, e como tudo isto junto pode fazer aumentar o tráfego, o número de passageiros, com impacto positivo para o País em termos de crescimento económico e emprego.

Poderiam também questionar qual o efeito da privatização sobre as outras actividades conexas como o negócio do “duty free” do Aeroporto do Sal que vai ser alavancado com a concessão.

E caso essa mesma comunicação social tivesse estado mais atenta teria notado que a “adjudicação directa” de que tanto falam é um modelo previsto no Código da Contratação Pública e neste caso esta possibilidade está prevista na lei de bases da privatização, e no caso da TACV foi o governo anterior que autorizou (e bem) a privatização da TACV por venda directa a um parceiro estratégico, pelo que este governo apenas manteve essa opção.

E neste quesito ambos os governos andaram bem: a ausência quase total de interessados na privatização inviabilizava qualquer tipo de concurso público internacional ou mesmo qualquer tipo de “short-list” dada a situação económico-financeira da TACV. Pelo que a questão da transparência não se põe aqui porque a lei regula todo o processo e não há um problema de excesso de oferta, pois nunca foi expectável que a TACV provocasse uma grande quantidade de investidores interessados. Daí que, identificado um bom parceiro estratégico, com marca internacional reconhecida, experiência, conhecimento e qualidade da gestão, cotada em bolsa, não havia razão nenhuma para não se realizar a operação por venda directa.

Não vi também a comunicação social a debruçar-se sobre a questão da mudança de nome (branding) da TACV para Cabo Verde Airlines. O facto foi levemente mencionado como se se tratasse de uma mera operação de cosmética. Cabo Verde Airlines leva de forma directa o nome de Cabo Verde com os aviões da companhia. Se para o cabo-verdiano é fácil decifrar TACV, para os estrangeiros, turistas e investidores era necessário explicar o que significa a sigla. Cabo Verde Airlines tem subjacente provocar um efeito imediato de ligação da companhia, dos aviões e do serviço, a Cabo Verde, e é um instrumento de promoção do País e baseia-se num conceito de serviço a bordo (em particular nas refeições) que se distingue pela cabo-verdianidade. Todos os estudos de marketing apontam nesse sentido.

A privatização da Cabo Verde Airlines é uma lufada de ar fresco em todo o sistema de transportes aéreos em Cabo Verde e servirá também para mostrar aos mais cépticos que a estratégia do hub no Sal não é incompatível com a continuação de ligações aéreas directas a partir da nossa capital para os Estados Unidos e para a Europa.


Texto originalmente publicado na edição impressa doexpresso das ilhasnº 901 de 05 de Março de 2019.

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Autoria:Gil Évora,13 mar 2019 6:14

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  3 dez 2019 23:21

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