Padacinhe de rua

PorEurídice Monteiro,11 mai 2019 9:37

Eurídice Monteiro
Eurídice Monteiro

Naquele pedacinho de rua que vai da Passagem até aos Paços do Concelho da Ribeira Brava, na ilha de São Nicolau, é notável a densidade da cultura clássica. São menos de cinquenta palmos de chão. E, no entanto, aquele pedacinho de fim de rua viu ali nascer, adolescer, amadurecer ou morrer quase uma mão cheia de grandes referências para a vida cultural, literária e social local e nacional.

Foi no edifício que ficava no lugar onde agora é a sede da Câmara Municipal que nasceu José Lopes da Silva (1872-1962). Aquele pedacinho de fim de rua marcou também a vida de três fundadores da moderna revista Claridade. Baltasar Lopes da Silva nasceu a 23 de Abril de 1907 no edifício da rotunda da Passagem e não no Caleijão, que foi onde apenas nasceu o seu personagem Chiquinho. Pedro Corsino de Azevedo, embora tendo nascido em Praia Branca, residiu durante algum tempo da sua curta vida de apenas 37 anos na antepenúltima casa da mesma rua, a casa que fica uma depois da dos pais de Baltasar Lopes da Silva. Sabe-se ainda que João Lopes foi proprietário e residente na casa a seguir ao Paço do concelho. Eram casas de pequena dimensão, com algum conforto para a época. O estado de degradação em que se encontra a casa onde nasceu Baltasar Lopes da Silva simboliza o abandono em que a ilha foi relegada.

A arruinação continua sempre presente, aqui e ali, até à ladeira grande de Caleijão, como «uma melodia muito triste». A casinha em que nasceu Chiquinho era de pertença dos avós desse personagem do romance em questão (neste caso, também avós do seu autor, Baltasar Lopes da Silva). Significa que Baltasar fez da casa dos seus avós cenário ideal e nostálgico para a sua narrativa. Era uma casinha rural, com os melhoramentos da emigração do tempo da pesca da baleia. Os anos correram e, da casinha, sobraram apenas meias paredes de pedras sobre pedras. De cortar o coração, tendo vista o seu lugar na literatura local e nacional e a sua utilidade prática na dinamização do turismo cultural. Quis o destino que Chiquinho conhecesse «casas bem maiores, casas onde parece que habita constantemente o tumulto», mas todos sabemos que nenhuma ele trocaria pela essa morada um dia foi «coberta de telha francesa e emboçada de cal por fora», que seu «avô construiu com dinheiro ganho de-riba da água do mar.» Numa ilha, cujas famílias em grande escala dependem ainda hoje das remessas de emigrantes, nem a casinha de Chiquinho foi recuperada para contar a história do povo daquela ilha. É certo que o mesmo acontece um pouco por todo o país, pois em todos os concelhos e ilhas verifica-se sempre esse lamento quanto à forma como o património cultural e histórico foi sendo delapidado ou relegado ao abandono com o tempo. O que vale é que nem tudo o tempo levou. As ruínas daquela que foi a casinha do Caleijão guardam memórias que estão inscritas no romance de Baltasar Lopes da Silva.

O período claridoso é sobejamente conhecido e os percursos e contributos dos seus principais cultores é de conhecimento geral. Entretanto, a era pré-claridosa apenas recentemente tem vindo a ser alvo de uma apreciação maior. Para além dos poemas de Eugénio Tavares, Pedro Cardoso, Januário Leite e José Lopes da Silva, este último acertou em cheio numa questão que ainda hoje faz parte das reivindicações de mulheres do mundo inteiro: a educação! José Lopes da Silva, poeta do romantismo ilhéu, considerado para muitos como um dos nomes mais consagrados do período pré-claridoso, dizia que, naquele tempo, a educação que as cabo-verdianas recebiam era «quase totalmente doméstica e restrita aos costumes; mas a instrução, essa rudimentar instrução que tão escassamente se lhes proporciona, só a compartilham filhas de pais abastados e de medianos haveres ou de gente pobre a quem suceda residir nas proximidades das escolas. Assim, pois, a mulher cabo-verdiana, principalmente a do povo, não sabe ler, nem escrever, nem contar...» (José Lopes da Silva, séc. XIX).

É simplesmente singela esta generosidade do poeta com as mulheres em geral e as mulheres do povo em particular. Relativamente às mulheres nas ilhas de São Nicolau, Santo Antão, São Vicente, Fogo, Santiago e Brava, no século XIX e princípios do seculo XX, a vida quotidiana era evidentemente constrangida por distinções de raça, classe e região a que pertenciam, de maneira que a larga maioria da camada feminina nem beneficiava de qualquer «direito à civilização». Assim, havia naquela época apenas um grupo de mulheres cujo acesso à educação lhes permitia tomar parte na vida cultural e nas altas rodadas das cidades e dos vilarejos.

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Mesmo assim, tais mulheres privilegiadas eram afectadas pelas desigualdades de género, de maneira que, por mais que tivessem estudado nos colégios lusitanos e parisianos, a sua vida nas ilhas circunscrevia-se ao espaço da cozinha (os tais concursos de doçaria) e à animação dos saraus culturais em Nova Sintra, Ribeira Brava, São Filipe, Praia e Mindelo. Embora tenham surgido algumas mulheres escritoras e jornalistas, perderam-se nas prateleiras da história. São elas: Maria de Spencer Freitas (Santo Antão, primeira poetisa cabo-verdiana); Antónia Gertrudes Pusich (São Nicolau, autora da primeira obra literária publicada de autoria de alguém que tivesse nascido em solo cabo-verdiano); Emília Aguiar; Maria Luísa de Senna Barcellos (ilha da Brava); Gertrudes Ferreira Lima; Maria Cristina Rocha; Adélia Nobre Martins; Ida Loff Fonseca; Adelaide Maria das Neves; Maria Helena Spencer (natural da Praia, uma das primeiras jornalistas, cronistas e contistas cabo-verdianas), etc.

Texto originalmente publicado na edição impressa do expresso das ilhas nº 909 de 01 de Maio de 2019.

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Autoria:Eurídice Monteiro,11 mai 2019 9:37

Editado porChissana Magalhães  em  12 mai 2019 9:59

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