Escola de Arte e Ofício ou Oficina de Cunke

PorManuel Brito-Semedo,23 mai 2019 6:53

Homenagem ao Mestre Cunke Nos anos de 1950/60, feito o exame do 2.º grau, era dzid-e-sabid que o caminho a ser seguido pelos fidjes-de-pobréza era aprender um ofício e preparar-se para uma profissão. Os filhos dos mais remediados iam para o Liceu Gil Eanes e alguns outros, de pais menos remediados, para a Escola Técnica, havendo, contudo, algumas excepções.

Aprendizas e Aprendizes

Dos filhos-de-pobréza, as meninas eram tomadas como aprendizas para as casas de rendas e bordados, corte e costura e oficinas de alfaiataria da Morada: do Sr. Alberto Madeirense e esposa, D. Conceição, na Rua João Machado; da D. Gêgê, da Rua de Serra; da D. Maria Amélia Miranda, na Rua Camões; do Sr. Lilim, da Brava, na Rua de Lisboa, junto ao Café Portugal; apenas para me referir aos mais conhecidos de então. Para além da arte de costurar, as meninas aprendiam também a arte de fazer bolos e de os enfeitar e todos os ornamentos das noivas e acompanhantes – vestidos de noivas e damas de honor, luvas – e flores (em cetim) de noivas, damas, baptizados e funerais.

Os rapazes, esses, iam como aprendizes para as oficinas de artes e ofícios. Verdade seja dita, para eles, as ofertas eram mais diversificadas e para todos os gostos e inclinações, havendo sempre uns mais buldónhes que outros e, por isso, com mais chances.

As grandes opções eram as oficinas navais de serralheiro-mecânico, torneiro, bate-chapa e soldador, de Wilson, na zona do Dji d’Sal, lá para as bandas da Cova d’ Inglésa, e do Mestre Cunke, na Pontinha, no outro extremo da cidade; as oficinas de manutenção das máquinas das companhias Millers & Corys e da Shell, para os lados da Craca, junto ao mar; da Fábrica Favorita, na Chã de Cemitério; da Padaria Jonas Whanon, no Largo John Miller; da Fábrica de Tabaco, no alto do Quartel Militar, junto à Escola Nova; e da Central Eléctrica, na Rua Judice Bicker, junto à Pracinha d’ Dotóra.

Havia também as oficinas de funilaria e fundição como a Oficina de Jôm Fliner, na Rua Daluz, e a Oficina de Manel d’Guimar, na Rua de Côco; as oficinas da Escola Salesiana, situadas nas traseiras do Hospital, nas imediações do Lombo e da Ribeira Bote, vocacionadas, sobretudo, para a carpintaria e marcenaria; a Fábrica de Calçados, dos irmãos Pereira, situada na pequena rua para quem sobe o Tribunal, desembocando no largo do Palácio; a Tipografia do Sr. Fia, vis-a-vis com a Fábrica de Calçados, fazendo esquina com o largo do Palácio; a Editora Nazarena, por trás da Praça Nova, em direcção ao Fonte Cutú; e da Gráfica do Mindelo, do Sr. Ricardino Vasconcelos, no Alto Mira Mar.

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Para além dessas, havia ainda várias outras oficinas mais pequenas e avulsas de mecânica, ferragem, funilaria, carpintaria, marcenaria e sapataria, nas zonas suburbanas e fraldas da cidade.

Dinheiro podia escassear, mas ocupação era o que não faltava para essa trupida de mnîs fidjes-de-pobréza.

O edifício onde funcionou a antiga Escola de Arte e Ofício da Pontinha do Mestre Cunke, que poderia ter sido transformado num Museu de Artes e Ofícios para preservar toda essa memória esteve devoluto por mais de quarenta anos, sem utilidade alguma, acaba de ser alienado para a construção de uma infra-estrutura hoteleira. Seria bom se, de alguma forma, se assinalasse isso nesse novo edifício.

Mestre Cunke

Cunke, de seu nome próprio Teodoro Gomes, nasceu em Santo Antão a 7 de Janeiro de 1907 e veio a falecer no Sanatório Rainha D. Amélia, em Lisboa, a 26 de Abril de 1964, onde se encontrava a tratar de uma doença asmática, com complicações do foro bronco-pulmonar.

Cunke aprendeu serralharia-mecânica nas Oficinas Inglesas tendo-se tornado exímio Mestre das Oficinas do Estado, na Pontinha, em 1932.

“Imaginei ouvir de novo o matraquear característico do mecanismo de roldanas e correias que transmitia força motriz aos tornos e demais máquinas e instrumentos de trabalho oficinal onde rapazes de idade variável aprendiam os ofícios de mecânico, torneiro, fresador, serralheiro-mecânico e outros. E naquele ambiente inspirado no labor vulcânico do deus Hefesto, sobressaía, inconfundível, a voz grave e rouca do Mestre Cunke, em pleno exercício da sua pedagogia. Ele era o centro vital daquela actividade, uma força anímica que, omnipresente, se sobrepunha ao mecanismo físico que pulsava continuamente durante todo o labor”, escreveu Adriano Miranda Lima em 2005, texto que depois publicou no blogue Esquina do Tempo.

Várias gerações de jovens rapazes dessa Ilha passaram pela a oficina do Mestre Cunkee, ainda hoje, existem muitos que ficaram a dever a sua formação à amável dedicação e arte de ensinar desse “filho-de-São Cente”.

Entre as letras, um porto de abrigo

Texto originalmente publicado na edição impressa do expresso das ilhas nº 911 de 15 de Maio de 2019. 

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Autoria:Manuel Brito-Semedo,23 mai 2019 6:53

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  23 mai 2019 12:12

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