Santo Antão – a Ilha Digital

PorJoão Chantre,16 jul 2019 6:43

Uma ilha que encanta pela imponência das suas montanhas, rotchas coloridas que tornam qualquer homem impotente pela sua grandeza, elegância e robustez, mas que protege no seu colo todos aqueles que os visitem.

São rotchas que apenas cedem-se para deixar-se extrair os pedregulhos que edificaram, com know how local, as estradas mais complexas e encantadoras do país, hoje, transformadas em ex-libris do turismo cabo-verdiano. Como a passagem de Delgadinho, existem poucas…estradas onde dificilmente circulavam pessoas, hoje, circulam com facilidade viaturas sem limitação de tonelagem. E são nelas que os incansáveis hiacistas, os verdadeiros taxistas da ilha, sempre bem-dispostos e acolhedores percorrem dezenas de quilómetros todos dias com nacionais e turistas comunicando à sua maneira, nas línguas mais faladas do planeta. É a ilha dos vales verdejantes, profundos e húmidos e que libertam oxigénio e energia para o resto do planeta. A magnífica ilha onde, a partir do Planalto Norte, consegue-se tocar a Lua com as mãos via Topo de Coroa. Mais abaixo, encontra-se o percurso para o Tarrafal de Monte Trigo, a praia de areia preta mais extensa do arquipélago, quase pronto para sair do isolamento e abrir-se ao mundo. Foram no total 44 anos de isolamento. São sons que veem do Atlântico, cantando e gritando pela liberdade. Uma Ilha que produz mulheres e homens, sobretudo engenheiros, sempre à procura de soluções de conectividade para receber de braços abertos a sua diáspora e o mundo, depois de quase um século a ver as suas gentes partir para terra longe à procura de recursos e soluções para uma ilha sufocada.

Uma nova era para uma nova geração

Até agora as gentes da ilha investiram na capacitação dos seus filhos nas áreas mais clássicas: nas engenharias, na medicina e no direito. Em 1894, Paúl foi a primeira zona do país a reclamar uma sociedade de direito quando um grupo dessa zona contratou o advogado Trindade Coelho, em Lisboa para defender a sua causa…aparentemente numa revolta entre os pré-republicanos e pró-monárquicos, destacando-se Paúl como uma zona de direito fundamentais. Actualmente o seu Centro de Saúde acaba de receber a classificação de 100% eficiente, segundo o relatório do Banco Mundial (apenas a delegacia do Paúl e a delegacia do Mindelo conseguiram esta classificação). E o Hospital Júlio Morais, da Ribeira Grande, financiada pela Cooperação Luxemburguesa é a referência nacional no parto humanizado, uma técnica que o mundo precisa reconquistar para que o planeta seja mais humano e mais inclusivo.

Agora chegou o momento da viragem, o momento para investir na Engenharia/Economia digital e na aeronáutica. Com o embargo de desenvolvimento da ilha imposta há 44 anos, e uma invasão militar em 1981, a ilha tem procurado soluções para mitigar os efeitos nocivos desses fenómenos. Nesse percurso, conseguiu-se driblar o embargo via Cooperação Luxemburguesa. A estreita cooperação com o pequeno país da grande praça financeira de referência mundial, das FinTechs e da digitalização, desembargou a ilha e colocou-a nos holofotes nacionais em direção ao mundo. O mais criativo exemplo da cooperação descentralizada das ilhas, e por isso a ilha sofreu uma rotação de 90º no seu desenvolvimento. Uma verdadeira descolagem económica sem precedentes. Quando se preparava para sofrer a segunda rotação dos restantes 90º já programado foi finalmente bloqueada e sequestrada por generais do quartel central. A velocidade de desenvolvimento era de tamanha ordem que quando lhe foi oferecida uma escola de hotelaria, já com financiamento garantido, as suas gentes simpáticos e bondosos como sempre, decidiram oferecer à Ilha das Salinas a oportunidade de albergar o projeto no seu território, que a priori se enquadrava melhor. E assim foi, até que no último minuto, a escola foi desviada de rumo, com consequências estratégicas gravíssimas para o país. Disse-me um general, um dos autores do desvio, “fi-lo e me arrependi de imediato”. Bem feito para ilha e vida longa para a escola e a sua localização, infraestrutura determinante para o desenvolvimento do turismo nas ilhas. Resta agora criatividade suficiente para a sustentabilidade da Escola de Hotelaria no horizonte da CPLP. Este é o rumo certo.

O Arquipélago digital

Chegou a era digital. De forma a mitigar os estragos do embargo, a ilha soube e bem investir na digitalização, não na fonte porque não seria possível por causa das ameaças externas (embargo), mas soube e bem fazê-lo fora do seu território. Engenheiros da ilha ajudaram na criação da SISP – a Rede Vinti4, o maior edifício digital do território nacional e que fez circular com facilidade o nosso dinheiro via autoestradas de comunicação e agora com os primeiros passos para a banca digital facilitada, faz retornar o capital à fonte e cria novas autoestradas ligando desta vez a diáspora à ilha e à terra natal. Uma grande janela de oportunidades para a Juventude em Marcha produzir conteúdos com imagens espetaculares da ilha e vender na diáspora. Nem quero imaginar a cara daquele parvo do César Lelis a vender “porco/couchon françes, marosc de Guniné Bissau, thcuck português, forc holandês, Lolita”… um mar de oportunidades para os Cordas do Sol, a partir da Cova, do Paúl, e de Fontainhas, suspensos naquelas rotchas espetaculares a produzirem espetáculos musicais e a venderem para todo o mundo. Já vejo o Arlindo do Cordas do Sol, todo feliz a investigar e a produzir incansavelmente. Nasce assim um novo mercado de música e arte cénicas. Uma fonte inesgotável de rendimento ainda por cima entregue directamente aos fãs/consumidores. É este o caminho do Marketing Digital que precisamos equacionar, é isto a revolução que nos prossegue e que muitos não querem aceitar. O futuro agora será mais facilitado. Cabe agora a nós traçar as políticas correctas, uns quererão avançar outros quererão bloquear, o dilema crioulo. Os problemas hoje são globais, mas as soluções serão locais.

A mão de Deus do MZ

Felizmente a massificação do facebook por Mark Zuckerberg continua incansavelmente a ajudar-nos nessa luta. O mundo deixou de ser longínquo e passou a pousar na palma das nossas mãos. Brevemente o cripto moeda do Facebook chegará ao mercado, a Libra. Que fazer com ela! Usá-la. Que haja riscos, que haja sépticos, mas o mundo que nos espera amanhã é este. Ou continuamos a obra lançada pela SISP via Rede Vinti4 e as iniciativas da banca digital já no terreno ou morremos afogados no Tsunami do 5G que se avizinha. Desta vez, morrer de fome de certeza que não. Há várias iniciativas neste sentido. A corrente é favorável, resta saber se vamos aproveitar ou perder mais esta vaga de oportunidades. Trata-se do momento ideal para criar fábricas de softwares espalhados para todos os cantos do país e ocupar os nossos jovens que tanto precisam ser ocupados e ter as suas oportunidades. Que venham 100 propostas, mas por favor deem aos jovens a oportunidade de escolher pelo menos de 1 a 5, não existe sucesso sem falhas, é tempo de mudarmos este princípio cultural. O sucesso individual deve ser acarinhado por todos. Porquê reconhecer apenas o sucesso de quem vem de fora!

Finalmente com ou sem legitimidade, podemos evocar a filosofia crioula; estamos preparando-nos para conquistar o mundo a partir de Santo Antão/Cabo Verde, com fábricas de softwares e com jovens programando para o mundo a partir da Ribeira Grande, do Paúl, do Porto Novo e em todo o território nacional. E sobretudo se esses trabalhos forem executados no meio das bananeiras, debaixo dos pés de manga, em frente dos tanques e nas diferentes pracetas wireless do país. Não se cria custos fixos avultados sem antes criar receitas. Muitos dos gigantes começaram em garagens, só depois de se prosperarem edificaram escritórios luxuosos espalhados nos centros urbanos luxuosos deste planeta.

A sustentabilidade ambiental e turística da Ilha das Montanhas

A ilha nasceu ambientalmente e turisticamente sustentável. A probabilidade de se tornar o turismo na ilha insustentável é muito baixa e só ocorrerá com a intervenção da mão humana – decisores, sem sensibilidade e com falta de bom senso. Mesmo assim será muito difícil. Basta um bom planeamento urbanístico e com rigor nos centros urbanos, onde normalmente ocorrem as maiores barbaridades urbanísticas, para preservamos o gigante que se encontra isolado há 44 anos e que tenta a todo o custo liberta-se, mas que ainda não encontrou a estrada certa. Não há dúvida que o equilíbrio económico e o descongestionamento do arquipélago passa pela descolagem socioeconómica da ilha. Por duas razões: a ilha é dotada de grande riqueza humana espalhada pelo arquipélago e na diáspora, e esta está preparada financeiramente à espera de oportunidade de investimentos. E ainda a ilha pode contar com o mundo em stand-bye à espera de a visitar e de investir nela.

Como arrancar a nova estrada

A Cidade do Porto Novo tem cerca de 558 km2, comparado com a Ilha do Monte Cara com 226,7 km2 e a ilha das Salinas 219,8 km2. Diz tudo. Uma cidade localizada no sul da ilha das montanhas, um dos espaços urbanos mais nobres do país e com forte probabilidade de expansão tanto na horizontal como na encosta. A cidade precisa apenas de uma cintura verde (árvores) enquanto aguarda dias melhores…Santo Antão precisa apenas da clearance (autorização de descolagem) para descolar. A questão de conectividade depende apenas dos santantonenses e do mundo. Seria injusto um arquipélago de 10 ilhas como o nosso, apenas Santo Antão, a segunda maior ilha do arquipélago, ficasse despido de um aeroporto. A Economia aeronáutica transforma qualquer região isolada. O mercado desenvolve-se e se há ilha com grande potencial para crescimento, é sem dúvida a mãe que pariu Fontainhas, classificada a quarta vista mais bonita do mundo. Aliás, um aeroporto não deve ser visto apenas como uma infraestrutura isolada. Qualquer aeroporto requer uma estratégica integrada numa região e a engenharia de financiamento existem muitas. Por incrível que pareça, é que nunca, nos 44 anos da nossa independência, foi feito um estudo sobre a construção de um aeroporto na ilha e muito menos, colocar o projecto em consulta pública. O hub no Sal funcionará melhor com tráfego feeding (alimentação) do somatório dos aeroportos das ilhas.

Em suma, a Ilha das Montanhas é nhaco di ilha como dizem os santiaguenses, é pouca conhecida pelos nacionais e pelos seus decisores e sofreu injustamente um embargado socioeconómico que dura há 44 anos. Por isso que é a zona do globo onde o nome de Luxemburgo é mais conhecido no planeta. E por isso conquista sempres amigos. A União Europeia acaba de financiar um dos pilares da sua sustentabilidade, a referenciação/recuperação dos caminhos vicinais, que dá luz e brilho aos encantos daquele paraíso. Que fique lavrado nesse nosso espaço, mas que perfeitamente respeitamos o contraditório: não há nenhuma balança que funciona sem equilíbrio. Se queremos o equilíbrio económico das ilhas e a sua prosperidade, e se reparamos cuidadosamente no mapa do nosso país, constatamos que a Ilha das Montanhas está mais ao Norte de todas, e será a ilha mais diversificada do país. Desenvolverá a sua agricultura, o seu comércio e acolherá o turismo, a indústria (de pozolana, de sabão, de energias renováveis, do lixo nomeadamente, serviços e aeronáutica). A histórica económica do planeta ensina-nos que o epicêntrico económico mundial não é estático, muda de direcção e é dinâmico. Tanto assim que acaba de mudar. Mas os lobbyings e as guerras comerciais prevalecerão. It´s time.

Texto originalmente publicado na edição impressa do expresso das ilhas nº 919 de 10 de Julho de 2019. 

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Autoria:João Chantre,16 jul 2019 6:43

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  16 jul 2019 6:43

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