‘Que me importa o doce/ que só a mim me dais?’

PorJorge Tolentino,15 out 2019 6:02

1. O Suplemento Cultural foi editado há 60 anos. Assina­lando este marco, dentro de dias chegará às mãos do público uma edição comemorativa, em facsimile.

 Isto é excelente! Saúdo, pois, o ‘Expresso das ilhas’ por esta sua salutar e pedagógica teimosia de trazer para mais próximo dos leitores de hoje obras (‘Claridade’, ‘Certeza’ e, agora, ‘Suplemento Cultural’) que, de outro modo, continuariam entorpecidas sob a poalha que o passar do tempo tende a deixar. Tenho que se trata de um exercício tão discreto quanto eficaz de revivificação cultural e histórica. O resultado é, precisamente, a disponibilização de documentos de indesmentível valor e que reclamam ser lidos e utilizados num processo credível de conhecimento (e ensino!) da Cultura cabo-verdiana. 

2. Em Cabo Verde, muito mais do que em outras paragens, as publicações aglutinadoras ou referenciais de grupos ou movimentos culturais ou, se se preferir dizer mais especificamente, literários, têm tido sempre vida curta, efémera em alguns casos, cumprindo uma como que sina da fugacidade. Mesmo quando essa ‘vida curta’ tenha conseguido ser relativamente alongada, resultou reduzido o número de volumes efectivamente editados. Poucos e bastante espaçados no tempo. As causas são várias: a dispersão dos sujeitos participantes, as vicissitudes estritamente pessoais de cada um deles, a escassez de recursos financeiros, a mão implacável da censura... Sim: sobretudo por causa desta ‘sinistra senhora’. Aliás, dos efeitos perversos da censura em Cabo Verde dispomos de pouco mais do que anotações dispersas. Falta um registo histórico sistematizado. No dia em que puderem saber dos dramas por que passaram os Criadores nestas ilhas, talvez os praticantes da chamada auto-censura comecem a sentir algum rubor na cara... 

3. De tal sina não escapou o ‘Suplemento Cultural’ ao Boletim Cabo Verde. Na verdade, publicou-se um número apenas, em Outubro de 1958. Tratou-se, todavia, de um volume suculento, com ficção, poesia, dois ensaios (um, de Gabriel Mariano, sobre o papel da mestiçagem na formação da sociedade cabo-verdiana, e outro, de José Augusto Monteiro Pinto, relativo à escravatura negra em Portugal), bem como desenhos de Pedro Gregório.

Veja-se que, meses depois, já no decurso de 1959, escreveu Gabriel Mariano o seguinte: “Infelizmente não saiu o segundo número do referido Suplemento, apesar de os originais respectivos terem sido enviados desde Março do corrente ano à direcção do ‘Boletim de Propaganda e Informação Cabo Verde’. As razões do facto são desconhecidas por nós.” (in ‘Inquietação e Serenidade. Aspectos da Insularidade na Poesia de Cabo Verde’). 

Falando desse autor, e antes que tal fique por referir, indico que são dele os versos (do poema ‘Nada nos separa’, de 1958) que, com a devida vénia, servem de título a este meu texto. 

4. Identificada, nesses breves contornos, a fugacidade, de onde advirá então ou com que ingredientes se justificará a importância histórico-cultural de tais grupos ou movimentos? Essa importância, e muito concretamente no que concerne ao caso que ora nos ocupa, o do ‘Suplemento Cultural’, tem por si um feixe de três razões, a saber: o real e inegável impacto que a publicação teve no momento em que veio a público; a projecção que o respectivo ideário conseguiu obter no tempo literário-cultural seguinte; a qualidade do percurso que, individualmente, os integrantes do grupo vieram a fazer. Ou seja, há um diferencial de qualidade e de credibilidade, traduzido num contributo de monta, colectiva e individualmente construído, no processo de crescimento e afirmação da Literatura cabo-verdiana, bem como na maturação da consciência nacional nesse decisivo momento histórico. Ou melhor: histórico e político. De resto, eles mesmos disseram-no, inequivocamente, logo à entrada: “Cabo Verde, para nós, é uma realidade muito viva; queremos, por isso mesmo, exprimi-la com fidelidade, na Poesia, na Ficção, no Ensaio, do mesmo passo que diligenciaremos contribuir para o seu progresso cultural.” Isto consta da ‘Nota de Abertura’, escrita por Carlos Alberto Monteiro Leite. Trata-se de um texto com natureza programática ou de manifesto. Nele igualmente se lê o seguinte: “Com a publicação deste Suplemento, de que agora aparece o 1º número, também queremos acender, com o maior alvoroço, um farol nos mares das nossas ilhas, dando sinal à navegação de que estamos vivos e atentos”. Penso ser francamente positivo e marcante o contributo dessa geração.

5. Aguinaldo Brito Fonseca, Carlos Alberto Monteiro Leite, Francisco Lopes da Silva, Gabriel Mariano, José Augusto Monteiro Pinto, Ovídio Martins, Sylvia Crato Monteiro, Terêncio Anahory, Yolanda Morazzo, eis os nomes dos integrantes do grupo, personalidades facilmente identificáveis pela sua contribuição a Cabo Verde. 

Acabo de escrever ‘os integrantes do grupo’. Sei que isso não é inteiramente acertado, pois que o ideário do Suplemento estendeu-se a outros, assim indo além do núcleo dos impulsionadores ou dos que estavam formalmente vinculados. Paradigmático é o caso de Onésimo Silveira. Para todos os efeitos, ele pertence à geração do Suplemento. 

6. Atenção: ‘estamos vivos e atentos’. Na verdade, há algo de novo. Há uma diferente mensagem que se densifica. Em relação aos problemas vividos nas ilhas; no atinente à dominação colonial e à revolta que não se cala; no que se refere à assumpção do conceito nacional... Curiosamente ou coincidentemente, nestes dias mais recentes reencontro um manuscrito de 1981 (um trabalho escolar, relativamente longo, com a correspondente avaliação da então Professora, Dra. Ondina Ferreira) no qual, a dado momento, escrevi isto: “(....) reconhecendo-se embora, a partir do Suplemento Cultural (1958), o aparecimento duma consciência de mais firme comprometimento protestatário, cingido ao ‘sonho’ da ‘manhã clara’ onde ‘a espada do gladiador/ de novo nas mãos cintila (Gabriel Mariano)”. Ora bem!

7. Mas naturalmente que poderiam ter sido versos de Ovídio Martins, da mesma geração: ‘Mordaças/ a um Poeta?/ Não me façam rir!... / Experimentem primeiro / Deixar de respirar /Ou rimar... mordaças / Com Liberdade’. 

8. Ou então estes de Onésimo Silveira: ‘Atrás dos ferros da prisão / É preciso levantar os braços algemados / Contra a prepotência!’.

9. Essa geração foi, de facto, um ‘alvoroço’. Deram um decisivo empurrão e ajudaram Cabo Verde a ousar, a ir mais longe. Referindo-se à ‘Geração da Nova Largada’, José Luís Hopffer Almada sintetiza da seguinte forma: “A Nova Largada teve como revista-espelho mais fidedigna o Suplemento Cultural do Boletim Cabo Verde e como póstumo manifesto implícito a ‘Consciencialização na Literatura Caboverdiana’, de Onésimo Silveira. No Suplemento Cultural são visíveis, no plano sócio-cultural, a evidenciação do papel do Negro e do Mulato na criação do nosso mundo, a abordagem marxista da problemática da escravatura e, no plano poético, a irredutibilidade do anti-evasionismo, a esperança afirmativa, uma forte denúncia e contestação social e um inconformismo ilimitado face à agudização de todas as crises ínsitas na situação cabo-verdiana, num contexto de busca das raízes autênticas da identidade crioula.” (in ‘A Poética Caboverdiana e os Caminhos da Nova Geração’, 1989).

10. Na enunciação das marcas distintivas do Suplemento Cultural, tenho por decisiva essa busca do continente-Mãe Negra: África como raiz mas igualmente como contexto para o futuro que se quer diferente. E concluo esta nótula recordando Aguinaldo Fonseca, pois com certeza:

“No poço da paz nocturna Interceptada Pela orgia sincopada Das estrelas e dos grilos Arrasta-se o vão lamento Da África dos meus Avós, Do coração desta noite, Ferido, sangrando ainda Entre suores e chicotes.”

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 932 de 09de Outubro de 2019. 

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Autoria:Jorge Tolentino,15 out 2019 6:02

Editado porClaudia Sofia Mota  em  15 out 2019 11:52

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