NEM

PorCésar Isabel da Cruz,15 mai 2020 7:10

​Os residentes de Rua d’Lisboa, quiçá os mais famosos, eram os sem-abrigo, descompensados, e pedintes, que a cada tempo adoptaram a rua como seu lar. À noite tinham um recanto qualquer na cidade, para dormir. Cada um tinha o seu local de dormida certo, e ninguém ousava tomar o lugar do outro. Era Aibú, Ti Aice, Nem, e mais outros de que não me lembro agora.

De manhã, logo cedo, que nem os trabalhadores mais pontuais, já estavam na Rua d’Lisboa. Sr. Djô, José Altino (pai do Hernani Almeida), que explorava o Café Portugal, passou ordem aos seus empregados para todos os dias servirem o pequeno-almoço aos madrugadores residentes da rua. Um pão com manteiga e uma chávena de café com leite. As chávenas tinham de ser as “reguintadas”, que já não prestavam para servir os clientes. Mas houve clientes que reclamaram, que eram servidos com chávenas que eram usadas por mendigos e doentes mentais, sem nenhuma higiene. Assim não dava! O Sr Djô determinou que o café passasse a ser servido numa meia-garrafa; de cerveja, ou de outra coisa qualquer.

Nem era refilona e desaforada. Recusou-se terminantemente a ser servida de café numa garrafa. Por boca de garrafa não bebia nem a sua cervejinha, que tanto apreciava, quanto mais! Quando tinha dinheiro, comprava uma cerveja de lata, furava-lhe dois buraquinhos com um prego, para sorver o seu conteúdo, devagarinho. Assim, teve-se que arranjar para Nem uma chávena diferente, não passível de confusão com as dos clientes.

Um dia qualquer, Domingo, passei cedo pela Rua d’Lisboa. Nem estava à porta do Café Portugal, desaurida, para cima e para baixo. Porra, vida de merda; não têm consideração por um criston. Para lhe darem um pãozinha, têm que lhe retirar aquela coisinha que tem no meio! Sr. Djô quis saber o que é que tinha Nem naquela gritaria. É que, ao pão que serviram a Nem, tinha-se retirado a fatia de carne de porco assada que faz de um simples pão um prego, deixando-lhe no entanto as marcas do crime. A ordem foi, ponham-lhe lá aquela coisinha no meio do pão!

Nem era uma mulher magrinha, "cabilin" curto, levezinho e arrapinado na cabeça. Usava vestidos compridos, quase a tapar-lhe os olhos-dos-pés, talvez para a ajudar a proteger-se do frio à noite. Era do tipo sem idade. Fica difícil determinar-lhe a idade por causa da vida de privações que levava. Podia ter menos, mas arriscava-lhe uns setenta e poucos anos. Era refilona e desaforada como tudo. Não pedia. Se lhe dessem, tomava. Mas, cuidado com o que se lhe dizia. Por qualquer coisinha estava pronta para uma roda de descompostura. Que o diga a senhora da Pensão Chave de Ouro, que um dia, para sua infelicidade, lhe chamou nhu. Pobre da senhora, levou uma descompostura daquelas. Porra, nhu de merda, meu nome é Nem! E a senhora, que infelicidade a minha, logo eu, que chamo a toda a gente nem, tinha que ter o azar chamar nhu logo a ela que é Nem!

Eram famosas as descomposturas que Tchuna levava de Nem. Tchuna divertia-se a fazer Nem brigar, não importa os nomes feios que ela lhe chamava. Pode-se dizer que Tchuna era tipo … sadomasoquista. Mas eles é que se entendiam. Tchuna, aos Domingo não abria o Café Royal. Mas ia frequentemente à Rua d’Lisboa, sentar-se no meio das pernas de Nem, para esta lhe matar "critch" e piolhos imaginários que ela esmagava, amiúde, entre as unhas dos polegares. Aos Domingos eles não brigavam. Faziam como as cidades-estado da Grécia antiga que, em tempo de olimpíadas, paravam de se guerrear para irem disputar os jogos como irmãos. Dia Domingo era assim também para Tchuna e Nem: dia de olimpíadas.

Deixei de trabalhar próximo da Rua d’Lisboa, passei a andar por outros caminhos e perdi noção de quando é que Nem deixou a sua condição de moradora de Rua d’Lisboa e se mudou para a vizinhança de Nha Merquinha.

(Excerto do post RUA D' LISBOA HISTÓRIA E ESTÓRIAS)

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Autoria:César Isabel da Cruz,15 mai 2020 7:10

Editado porSara Almeida  em  15 mai 2020 7:10

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